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E se eu tivesse tempo?

Por Marciano Vottri

Batimentos por minutos, quilômetros por hora, horas por dia, dias por ano, anos de vida, talvez sejam as expressões mais presentes em nosso cotidiano. Fato é que qualquer evento que ocorra em função linear de intervalos regulares é medido. Convencionamos o tempo a funcionar, escalonamos, hierarquizamos, parametrizamos, modelamos a vida como os donos do tempo. Vivemos em uma sociedade de gratificação imediata onde tudo tem que ser entregue em 15 minutos, do contrário você não atende aos “padrões de mercado”.  Essa visão é resultado de um processo mais amplo que ocorre no mundo, como uma ciência instantânea de que tudo está acontecendo em todos os lugares, o que altera nossa perspectiva natural como um efeito dominó.

Na Grécia Antiga, eram adotadas duas formatações de tempo. Chronos e Kairós, onde Cronos (Deus do tempo) se referia ao tempo cronológico medido e mitologicamente era tido como o senhor do tempo, controlador real e ordenador do relógio, conhecido também como o “tempo dos homens”. Já Kairós é uma expressão grega que representa o “momento certo ou oportuno” ou ainda conhecido como “Tempo de Deus” e está relacionado mais à intensidade do tempo vivido. É a forma qualitativa da expressão do tempo. Essa percepção é necessária para compreender que mesmo dentro da concepção cronológica existe o estado de intensidades diferentes do tempo vivido. Assim podemos concluir que o mesmo minuto de Cronos em um estado consciente pode equivaler a memórias de anos para um estado inconsciente. 

Já em meados de 1960 o cientista Alvin Toffler fazia previsões de um futuro agitado, altamente tecnificado e consumista. Suas visões futuristas faziam apologia a uma sociedade extremamente conectada, como produto de evoluções culturais e tecnológicas que chamava de “terceira onda” carregada de grandes mudanças ou como Toffler chamava “a new way of life” (uma nova maneira de viver). Tudo acontece na dimensão física num determinado momento que normatizamos de “agora”, mas impregnado de traços do que já passou e de incertezas do que virá pela frente. 

Costumo dizer que o valor de cada coisa em nossas vidas não deve ser fixado em termos monetários, mas sim em tempo de vida necessário para se ter aquilo que deseja ou alcançar o que se pretende. Essa concepção está fundamentada não somente sobre os aspectos de necessidade e consumo ou de essencialidade, mas de uma carga individual própria dos sonhos e anseios de cada um.

O tempo é uma falácia, onde todas as maneiras que o expressam estão ligadas a questões de hábitos e culturas. Talvez estejamos vivendo o tempo do “eu não tenho tempo” ou do “eu estou atrasado”, o que permite dizer que o tempo é apenas um mecanismo de controle, e não o tempo em si, mas sim a expressão da maneira como nos relacionamos com ele. Adotar a perspectiva da “atemporalidade” do tempo é reconhecer que o tempo é biológico e natural, de fato, o tempo real.

A boa notícia é que ainda há tempo de perceber que o passado não é o presente e o agora não é o amanhã e assim conscientemente deixar a angústia de cada tempo ser vivido livre do que ainda está por vir. É um convite para a mente compreender que nada está acontecendo além do que está acontecendo agora e viver a cada dia como “se eu tivesse tempo”.

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