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Onde tudo começou

Um dos maiores símbolos de Pato Branco, a matriz São Pedro Apóstolo, celebra dois aniversários: o início de sua obra e o de sua inauguração

Fotos: Acervo de Jozieli Wolff

Os anos passam, mas algumas coisas não mudam. Ainda que o horizonte urbano de Pato Branco seja cada vez mais verticalizado e moderno, é muito difícil tirar a Matriz São Pedro Apóstolo do posto de principal referência arquitetônica da cidade. 

Basta olhar as fotografias do desenvolvimento da região central a partir dos anos 1960, a igreja aparece sempre como uma figura predominante, como se o centro fosse uma consequência de sua edificação.

O raciocínio não é de todo exagerado. Para a professora Neri França Fornari Bocchese, pesquisadora e entusiasta da preservação da memória local, a construção da Matriz São Pedro Apóstolo determinou uma espécie de marco zero para o desenvolvimento da cidade. A professora deu seu depoimento sobre o assunto em um documentário sobre a matriz, disponível no Youtube.

Repetindo muitos outros casos dos interiores do Brasil, as igrejas católicas determinavam a convergência simbólica da população, que no passado era ainda mais predominantemente católica. Independente de profissão, história de vida ou origem geográfica, o local de celebração servia como uma espécie de lugar comum, onde todos se reuniam em torno do que se tinha em comum, a religião.

Era natural, portanto, que a cidade crescesse em torno da igreja, ou geograficamente a partir dela, também por simbolizar a influência política e social da religiosidade. 
Na próxima segunda-feira (29/09), dia de São Pedro, padroeiro de Pato Branco, a história da igreja matriz completa dois aniversários: os 60 anos do início de sua construção e os 55 anos da sua grande festa de inauguração. Mas para entender como o prédio se ergueu, é preciso voltar um pouco mais no tempo.

No centro da imagem, a obra da igreja em suas etapas iniciais

 

Precursoras

A igreja matriz pode ser a edificação religiosa mais importante da história local, mas não foi a primeira. Houve pelo menos outras três igrejas, que assim como ela, representaram simultaneamente a unidade da população e um ponto de referência. Todas de madeira. 

A memória de frei Policarpo Berri, testemunha viva da história local, conta que a primeira capela foi construída por volta de 1930, na esquina entre as atuais avenida Tupi e rua Tapir. Esta capela também determinou o padroeiro da cidade. Conta Policarpo que na comissão da igreja havia quatro homens com o nome Pedro, e por isso São Pedro foi escolhido para o posto.

Mais tarde dois outros pavilhões serviram de templo religioso. Segundo a professora Neri, eles ficavam em frente a atual prefeitura, levando o então centro da vila, para um pouco mais próximo da atual praça central.

Procissão, no centro de Pato Branco, durante a construção

 

Missão

No fim da década de 1950, Pato Branco já se destacava no cenário regional. As atividades econômicas se desenvolviam, sobretudo a partir da suinocultura, da agricultura e da proeminente indústria madeireira, que na década seguinte seria a principal fonte desenvolvimento. 
A população cresceu a reboque, e os planos para uma igreja a altura começaram a ser gestados. Uma edificação maior e de alvenaria representaria de forma mais adequada o estado da sociedade local.

Boa parte do mérito deste projeto é do frei Gonçalo Orth, um dos grandes mentores intelectuais da empreitada. A professora Neri diz que o padre tinha fama e atitude de construtor, estimulando obras por onde pregou, sejam seminários, escolas, pavilhões ou igrejas.
Como ainda é hoje na comunidade católica, grande parte dos recursos para a construção da igreja vieram da união das pessoas, que nesse caso também contribuíram diretamente com a mão de obra. 

Não se sabe ao certo quantas pessoas trabalharam diretamente ao longo dos cinco anos de construção. Mas há quem tenha dedicado pelo menos 400 dias de trabalho, como Augusto Peloso. A lembrança é do frei Policarpo.

Havia um rodízio entre as comunidades para o envio de voluntários para trabalhar na obra. O empenho das pessoas contribuiu para que o andamento prosseguisse, aquém das dificuldades logísticas daqueles tempos, quando praticamente todos os insumos e materiais vinham de fora, e quando as estradas não eram necessariamente tão facilmente trafegáveis como hoje.

Projeto
A população de Pato Branco estava levantando um prédio projetado pelo arquiteto Benedito Calixto de Jesus Neto, com vários templos religiosos no currículo. O mais notável é Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em Aparecida do Norte São Paulo, que tem lá suas semelhanças com a igreja daqui. Ambas tem arcos nas entradas, uma proeminente torre e vitrais. Poderia ter sido diferente. Outro projeto apresentado tinha o formato de uma harpa, mas o desenho não agradou por ser ousado e moderno demais para a Pato Branco de 1960.

Cartaz com a programação dos festejos de inauguração da matriz

 

Inauguração
Era para ter sido em 1964, mas a inauguração da matriz aconteceu somente em 1965, no dia 29 de junho. Frei Gonçalo já não estava mais em Pato Branco, transferido para outra paróquia, a contragosto da população.

Na festa, porém, ele esteve presente, e de acordo com o frei Policarpo, a inauguração rendeu uma grande festa. Ela aconteceu nos pavilhões em frente à prefeitura, que serviam de salão de festividades e templo religioso, até que a igreja definitiva não ficasse pronta.  O churrasco exigiu 32 bois. 

Souvenir da festa de inauguração

Ao longo do tempo, a igreja matriz passou por reformas, adequações, e foi ganhando adereços, como o grande mosaico atrás do altar. Mas em sua essência permanece sendo um grande símbolo da cidade de Pato Branco.

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