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A hora e a vez do educador financeiro

Nos últimos 4 anos, tivemos em nosso país duas enormes mudanças que impactaram fundamentalmente no cuidado que o brasileiro que precisa ter com o próprio dinheiro.

A primeira delas é a baixa dos juros básicos (SELIC) a taxas nunca vistas anteriormente. Com isso, essa é a primeira que a caderneta de poupança e os investimentos de renda fixa, os mais comuns entre os brasileiros, passassem a ter uma rentabilidade abaixo da inflacão. Para se ter uma ideia, a poupança, que chegou a render 8,4% ao ano em 2016, hoje rende 1,4% no mesmo período. Isso forçou com que os brasileiros procurassem outras alternativas para poupar e investir, mesmo que minimamente.

A segunda mudança foi a tão polêmica reforma da Previdência, que fará com que muito menos brasileiros consigam se aposentar no futuro e, aqueles que conseguirem, receberão um valor, em geral, ainda mais baixo.

Essas mudanças pediram um movimento de fomento à Educação Financeira, tão esquecida no nosso País. Agora há uma necessidade de cuidar das próprias finanças, dependendo o mínimo possível do governo.

Outro fator importante a se somar nessa equação é que vivemos uma pandemia, e ela nos mostra como é importante ter um respaldo financeiro, considerando a nossa incerteza frente ao futuro.

Dessa forma, uma profissão ganhou os holofotes no último ano: o educador financeiro. Mas, afinal, como ele pode ajudar, por exemplo, quem tem uma renda bastante reduzida, sem nenhuma gordurinha pra investimento?

Para saber sobre o assunto, e também pedir algumas dicas, conversamos com o Bruno Boneto, que é educador financeiro e atua com mentorias individuais e em grupo, conduzindo as pessoas a começarem a investir e se organizarem financeiramente. Também, em relação aos investimentos, ele apresenta as possibilidades que existem no mercado e ensina o que é necessário para que se consiga fazer as próprias escolhas, de acordo com os objetivos.

“Faço um diagnóstico da vida financeira. Tendo toda a realidade em mãos, planejo os objetivos atuais, ensinando a fazer outros no futuro, além de ensinar técnicas para otimizar gastos e ganhos e ter uma vida financeira saudável como um todo”, resume.

A seguir, confira um pouco dessa conversa sobre finanças para leigos.

Almanque Mais – Em 2020, com a pandemia, muitas pessoas enxergaram a importância de ter uma reserva financeira. Como iniciar esse processo?

Bruno Boneto – A partir da Organização Financeira. Em resumo, é preciso saber quanto eu ganho e para onde vai esse dinheiro. Depois, delimitar os gastos no que é importante, considerando o essencial para o dia a dia e o necessário para o bem-estar em geral – lazer por exemplo. A partir desse diagnóstico, destinar uma parte do orçamento para a composição dessa reserva, que deverá ter entre três e 12 vezes o seu custo de vida mensal, a depender da estabilidade do seu trabalho, sendo três meses para um funcionário público e 12 meses para autônomos e empreendedores.

Sabemos que a renda média do brasileiro é bem pequena. Em geral, ela mal atende as necessidades básicas. Ainda assim, há como poupar?

Sim, sempre há. Tudo depende de aprender a gastar bem, priorizando o que tem valor para você e não gastando com o que não importa. Alguns exemplos: é muito comum pessoas dizendo que pagam academia e não frequentam; que tem um plano de TV a cabo ou de internet maior do que precisam; que pagam tarifa bancária sem usar os serviços que o banco oferece –o Banco Central obriga todos os bancos a oferecerem um pacote de serviços essenciais gratuitos a todos os clientes –; que gasta mais energia elétrica do que o necessário; entre outros ‘ladrões’ de dinheiro. Além disso, a famosa ‘listinha’ de supermercado é super necessária, principalmente quando a renda da família é mais baixa. Ou seja, vou ao mercado sabendo exatamente o que comprar e, de preferência, depois do almoço, evitando comprar produtos desnecessários e acabar fazendo estoques que poderão ir para o lixo ou demorar para serem usados.

É claro que para quem ganha um salário-mínimo, por exemplo, fica bem mais difícil, mas o importante é ter a consciência de que é possível e de que, começando a colocar atenção nas próprias finanças, você passa a enxergar sua vida financeira com maior consciência para começar, além de melhorar seus gastos, procurar melhorar seus ganhos. Quero dizer, se você trabalha em uma empresa, o que te impede de ser o mais produtivo entre todos e procurar se destacar fazendo cursos (há uma infinidade hoje, em todas as áreas, gratuitos na internet), melhorando sua produtividade e lutando para crescer profissionalmente? Sei que é difícil, a mentalidade comum do brasileiro ainda está longe de ter essa consciência desenvolvida naturalmente, mas por isso trabalho e acredito tanto na Educação Financeira.

Quais são os erros mais comuns, que dificultam esse processo?

Alguns erros que influenciam na organização financeira como um todo, inclusive para constituir a reserva de emergência. Um deles é não ter controle dos gastos, não anotar o que você gasta. Vale lembrar que há vários aplicativos gratuitos que auxiliam nisso, como o Guiabolso, Organizze, Minhas Economias, entre outros. Outra coisa é não se pagar primeiro e deixar para investir só o que sobra no final do mês. Quando receber o salário ou tiver qualquer entrada, tenha consciência de para onde vai esse dinheiro, sendo primeiro para os próprios investimentos, depois para as contas. Se deixar pra investir ou guardar o que sobra, nunca vai sobrar. Também é um erro não dar atenção aos ladrões de dinheiro, que são os gastos desnecessários, como já falei.

Muita gente acredita que poupar significa abrir mão de alguns prazeres. Isso é verdade?

Essa é uma excelente pergunta. Realmente existe essa ideia da Educação Financeira, ou organização, planejamento financeiro, como sendo: “vou colocar tudo numa planilha e começar a cortar gastos, assim vou conseguir meu primeiro milhão”. Extrapolei um pouco, mas foi pra mostrar esse estereótipo. Não funciona assim. Se eu cortar um prazer que para mim é importante, vou conseguir aguentar algum tempo, mas depois meu cérebro vai encontrar algum artifício e criar uma situação em que eu volte a comprar ou consumir aquilo. Não dá pra negar o que é valioso para cada um. Por isso a Educação Financeira é também um processo de autoconhecimento, e um bom planejamento deve levar em consideração o que é valioso na sua vida. Mas, claro, com controle. O importante é manter o que é relevante na vida e só abrir mão de algum benefício presente, sabendo que o do futuro será bem melhor. O conforto mínimo presente é necessário para suportar o processo até alcançar aquele objetivo futuro, poupando mês a mês até chegar lá.

Os bancos vivem oferecendo serviços de investimento. É possível confiar nessas instituições para este tipo de assunto?

Sempre tivemos os bancos como referenciais de segurança para investir e para obter informações sobre o assunto. A verdade é que se provou que eles costumam buscar muito mais os interesses próprios do que os dos clientes, infelizmente. Hoje temos as corretoras (XP, Rico, BTG, Easynvest, Órama, etc) que funcionam como verdadeiros “supermercados” de produtos financeiros, por onde podemos investir em muitas opções, em geral bem mais interessantes das que os grandes bancos oferecem. E a segurança é a mesma. Ainda sobre os bancos, entram nessa “categoria” os chamados bancões (Banco do Brasil, Caixa Econômica, Itaú, Bradesco e Santander). As Fintechs, que na maioria das vezes são bancos, como Banco Inter, Nubank, C6 bank, Neon, Next, já estão incluídas nessa nova geração de investimentos e costumam ser muito mais claras e confiáveis.

Sobre a bolsa de valores, como ela ficou mais popular, várias pessoas estudaram um pouco sobre o assunto e resolveram se arriscar, mas acabaram perdendo bastante dinheiro. Para você, quando alguém pode se sentir seguro para investir na bolsa sem ajuda de especialistas?

Quando:

1) já tem a reserva de emergência (no mínimo 1/3 dela)

2) sabe do que se trata e o que está fazendo: tem ideia do risco, sabe o quanto pode perder e sabe qual a porcentagem do capital ideal para investir na bolsa, de acordo com o seu perfil e com os seus objetivos;

3) sabe o que quer alcançar com o dinheiro investido na bolsa: essa vale para qualquer tipo de investimento. Muita gente simplesmente investe querendo ganhar, mas não analisa risco, prazo e potencial de rentabilidade da forma adequada.

Investimento em bens imóveis é um bom negócio?

Todos os tipos de investimentos podem ser bons ou ruins, depende de quanto você conhece deles e do seu objetivo com eles. O setor imobiliário hoje está dividindo, basicamente, em dois ramos: compra/venda e aluguel de imóveis físicos; e Fundos Imobiliários (FIIs). Os imóveis físicos têm a dificuldade do alto capital inicial para investimento e da baixa liquidez, ou seja, capacidade de conversão do produto – imóvel, no caso – em dinheiro. Essas duas características foram sanadas pelos FIIs. Mas de uma forma ou de outra, é fundamental conhecer bem antes de investir.

No Brasil, não temos uma boa educação financeira. Há pouco tempo que investimentos além da poupança estão virando assunto mais rotineiro. Para quem quer aprender, por onde começar?

Há algumas formas. Hoje, há vários educadores financeiros que divulgam conteúdo de qualidade gratuitamente na internet, e posso citar alguns mais famosos, como a Nathaila Arcuri, Primo Rico, Favelado Investidor, mas existem muitos outros. Sugiro também o meus canais (no Instagram: minha conta pessoal – @brunoboneto e do meu Instituto @institutobemeducacaofinanceira). Outra forma é por meio de cursos também disponibilizados pela internet. As próprias corretoras, instituições por onde podemos investir, fornecem informações e muitas vezes cursos. E, para quem quer ir direto ao ponto, a alternativa é contratar um educador financeiro que analisa a sua situação e te ensina a tomar o melhor caminho para sua vida financeira. Essa alternativa é paga, mas economiza tempo e te dá a certeza de fazer o que é melhor especificamente para a sua condição. Eu presto esse tipo de serviço, ensinando pessoas a investir e a se organizarem financeiramente.

Quando é hora de buscar a ajuda de um profissional?

O quanto antes! Na verdade, pra quem não é apaixonado pelo tema ou não costuma procurar informações por conta própria, seja por livros, cursos ou na internet, o ideal é buscar o quanto antes. Isso porque, não importa em que posição da vida financeira a pessoa esteja – seja com dívidas, começando a trabalhar, começando a investir ou já investindo –, se não for alguém que já possui o hábito de usar algum tempo para organizar suas finanças é praticamente certo que algum ajuste deverá ser feito na forma como ela se conduz. No Brasil, a população é extremamente carente de educação financeira, e não só a parte mais pobre. Agora, quem possui dívidas por muito tempo ou descontroladas precisa procurar urgentemente, porque as consequências dessa bola de neve podem ser catastróficas. Sei que esse movimento ainda é muito incipiente e, dada a realidade geral de nosso país, ainda tardará muito para chegarmos a todos os rincões, principalmente aos lugares mais carentes e que mais necessitam. Mas já foi dado o primeiro passo, o que é mais importante, e a esperança de poder melhorar a cada dia a vida de mais e mais brasileiros faz com que nós, educadores financeiros, queiramos levar esse conhecimento cada vez para mais pessoas.

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