Almanaque+

A materialização da música

(Paulo Argollo)

É um clichê antigo colocar no mesmo balaio quem coleciona vinil e fetichista sexual. É uma comparação infame, convenhamos, mas não deixa de ter um fundo de verdade. De maneira geral, o comprador de vinil (que não é necessariamente um colecionador) adquire seus discos por motivos que vão além da simples vontade de ouvir música. Assim como um fetiche, o universo do disco está repleto de rituais e significados que proporcionam um prazer que extrapola o normal. Às vezes é pela simples satisfação de possuir em mídia física seu disco favorito. Há quem compre um ou outro disco sem sequer ter uma vitrola em casa para colocar pra tocar. É pela representatividade, pelo prazer de segurar aquele objeto, enquanto olha num transe inexplicável os detalhes da capa. Em resumo e sem rodeios, quem compra vinil, em um ou outro nível, tem uma relação com a música diferente.

Pode reparar, a maioria das pessoas não compra discos, nem liga muito para música, a verdade é essa. A turma gosta de ouvir música, mas não se importa com quem está tocando ou cantando. O negócio é colocar a playlist das 50 mais tocadas no Spotify e seguir trabalhando. Já quem compra vinil tem suas predileções bem definidas. Não importa se está comprando o disco pra deixar na estante, pra deixar de enfeite na sala ou pra fazer parte da coleção, e este disco será apreciado e tocado algumas vezes. Este disco foi escolhido criteriosamente. “Ah, então você está dizendo que os compradores de vinil são uma casta superior entre apreciadores de música.” Olha, superior eu não diria, mas que são um tipo diferente de pessoas com relação a música, são, sim.

Claro que tem os apreciadores e amantes da música que não se ligam no vinil e consideram que a tecnologia torna tudo melhor e mais prático. Inegável que dá pra alcançar grandes performances com tratamentos de áudio e remasterizações digitais, que proporcionam ao ouvinte nuances e detalhes que passariam batido no vinil. Sem falar na chance que a tecnologia dá de se ter experiências divertidas como ouvir suas músicas favoritas isolando determinado instrumento ou as vozes. As vozes isoladas do Abbey Road, por exemplo, são uma coisa inacreditável. Fora isso, tem a praticidade de você entrar num site ou aplicativo, apertar o play e ouvir o que quiser, ter acesso a obras que você nunca imaginou ouvir antes. Tudo isso é muito legal. A diferença do apreciador do vinil é que a música se torna uma experiência mais sensorial. O disco te prende mais, dificilmente você coloca a agulha num disco e vai fazer algum trabalho, porque você tem que ficar parando pra virar o lado e você tem uma capa com uma arte linda, eventualmente um encarte com letras das canções e informações do disco que chamam a atenção e podem te distrair, enfim, coisas que podem ser um inconveniente, mas que na verdade são a verdadeira magia do vinil. Colocar pra tocar, o cuidado com a agulha, absorver a capa, as letras, as informações, a arte.

Por muito tempo eu assumi que a esmagadora maioria dos consumidores de vinil hoje em dia era feita de pessoas como eu: com mais de 35, 40 anos de idade, que pegou o fim do primeiro reinado do vinil, no começo dos anos 90, se desfez de boa parte da sua coleção pra comprar CDs, e agora, no segundo reinado do vinil, tenta recuperar os discos que já teve, além de adquirir novos títulos, discos que eram objeto de desejo no passado e não se tinha grana pra comprar ou não se achava por aqui, numa época em que comprar produtos importados não era tão simples. Mas a verdade é outra. Conversando com o dono de uma loja de discos, soube que muitos dos compradores são jovens de vinte e poucos anos, que já cresceram com o mp3 e streaming. E é uma turma que compra ao mesmo tempo um Dark Side of The Moon e um Arctic Monkeys. Seja pelo ar descolado de botar um disco pra rolar na vitrola, fazer um storie no Instagram, ou pelo genuíno prazer de curtir música de maneira mais orgânica possível, a molecada vem consumindo muito mais discos que a turma mais velha.

Esta é a informação mais interessante disso tudo. A descoberta do vinil por um pessoal que não teve contato com essa mídia na infância, não tem esse ar de nostalgia, de recuperar um tempo perdido. É só uma maneira mais íntima de lidar com a música! Para quem é amante de música, faz sentido poder ouvir o Exile on Main Street no Spotify, e ao mesmo tempo fazer questão de tê-lo como ele foi concebido em 1972. E olha que nem entramos aqui na seara dos DJs, que é outro patamar de vínculo com o disco, que além de uma paixão, o disco é uma ferramenta de trabalho.

Na música não existe certo e errado, bom ou ruim. Mas uma coisa é inegável: o vinil, e tudo que o envolve, é a materialização mais fiel do que é de fato a música! Podemos dizer sem medo de errar que aproximadamente uma hora de música (uma média de 10 a 12 canções) pesam entre 120 e 180 gramas e pode contar com quantas cores e imagens seus criadores queiram numa capa de 31 centímetros. E se o vinil for colorido então, aí meu coração derrete!

HOJE EU RECOMENDO

Filme: Durval Discos

Direção: Anna Muylaert

Ano de lançamento: 2002

Filme brasileiro excelente. Divertido e muito bem executado! Baita roteiro legal, com umas viagens , muita música e uma estética muito bem executada. Não é fácil de se achar pra ver em streaming, mas vale procurar a fundo pra assistir. Recomendadíssimo.

Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Para cima