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Ameaça de apocalipse e controle do tempo fazem de ‘Tenet’ uma aventura na telona

Há um momento de Tenet em que John David Washington – o filho de Denzel Washington, protagonista de Infiltrado na Klan, de Spike Lee – põe uma máscara para respirar. O espectador, de máscara na plateia, olha o personagem de máscara na tela, como num espelho. Não, por mais genial que seja Christopher Nolan, ele não tem o dom da premonição e a cena não é uma metáfora para o isolamento social na pandemia.

Em compensação, a cena inicial – o ataque à Ópera de Tallin, na Estônia – é pura adrenalina. Depois de meses de salas fechadas e filmes remotos, ver o que Nolan apronta no Imax é puro deleite. Você deixa de ver o filme para ser parte dele.

Nos créditos finais, o diretor faz um agradecimento a Kip Thorner, o físico cujos estudos sobre moléculas no tempo já lhe haviam fornecido a base teórica para Interstelar, de 2014. Nolan estreou com um filme pequeno, independente, Following (1998), no qual o tempo já era a questão central. Dois anos depois veio Memento (Amnésia, no Brasil), a história de uma vingança contada de trás para a frente. Na época, parecia só uma bossa para contar de forma diferente a história que não era nova. O desenvolvimento posterior da obra do autor – a trilogia de Batman, A Origem, Dunkirk – mostrou que era bem mais que isso. Nolan pode não ser Stanley Kubrick, mas como a dele sua obra investiga gêneros e formas. Tenet é pura ficção científica numa estrutura de thriller de espionagem. Nada a ver com James Bond nem Jason Bourne.

O agente de Nolan chama-se The Protagonist. Envolve-se numa trama complicada que inclui Tenet – a palavra pode ser lida de trás para frente, sem mudar -, um bilionário russo e a mulher dele.

Toda a trama tem a ver com o controle do tempo – o futuro está enviando uma mensagem ao presente. O mundo está ameaçado pelo apocalipse. Pode autodestruir-se pela entropia no processo de inversão do tempo. E tudo começa com as balas voltando ao pente do revólver do qual foram disparadas. O mundo e seu reverso, como nas perspectivas de M.C. Escher, de A Origem, de 2010. No centro de todo o vórtice dessa narrativa canibalesca – Luís Buñuel fez o mesmo no desfecho de Tristana, nos anos 1970 -, estão o Protagonista, qual ilusionista (basta lembrar de O Grande Truque, de 2006), tentando descobrir o segredo do bilionário Sator, o homem que faz a ligação entre futuro e passado.

Na autoestrada, o Protagonista está num carro que persegue Sator. Kenneth Branagh, que faz o papel, ameaça matar a mulher, se o Protagonista não lhe entregar o dispositivo. De repente, o tempo regride e só mais tarde o espectador descobre que os carros estão correndo em diferentes dimensões do tempo. Nolan adora testar os limites do cinema. Traz para os blockbusters as pesquisas com o tempo de Tacita Dean, a artista inglesa de vanguarda que trabalha com 16 mm. Os dois têm discutido conjuntamente o futuro da mídia.

A técnica é impressionante, mas, no limite, assim como Interstelar era sobre ser pai, Tenet é sobre outro drama familiar. Até onde pode ir o amor de Elizabeth Debicki, a mãe? Sator considera um erro ter trazido um filho a esse mundo à beira do desastre ambiental. Robert Pattinson, o Neill, sabe mais do que deixa perceber sobre a inversão, mas a descoberta final é, só poderia ser, do Protagonista.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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