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As roupas de Jeanne

Paulo Argollo

Você já sabe, né? Lugar de mulher é onde ela quiser estar! Mas, olha, custou muito pra gente chegar a este consenso. Na verdade, ainda hoje, pleno 2021, ainda tem gente ignorante ao ponto de dizer que mulher não deve usar determinado tipo de roupa, realizar certas atividades… Um tipo de pensamento retrógrado e abominável. Sem falar que é um pensamento muito antigo.

Pra você ter ideia, teve uma mulher, 590 anos atrás, que foi morta simplesmente por ter usado roupas masculinas. Tinham várias outras acusações contra ela, é verdade, mas nenhuma delas foi comprovada de forma convincente. Aí tiveram que condená-la a morte por usar roupas masculinas. E, olha, era uma mulher incrível!

Jeanne Darc nasceu por volta de 1412 no vilarejo francês de Domrémy. Uma menina muito bonita, segundo relatos, que teve uma infância ordinária, vivendo entre trabalhos agrícolas, a igreja e feiras. Aos 13 anos de idade ela teve uma visão. Três santos apareceram e lhe deram uma missão muito importante. Os santos em questão eram São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida, e eles instruíram a menina dizendo que os ingleses deveriam ser efetivamente expulsos do território francês, e que ela faria parte disso, e também que Delfim, o filho do rei da França, deveria ser levado à cidade de Reims, onde seria coroado Rei, sucedendo seu pai.

Vamos lembrar que nessa época estava em andamento a famosa Guerra dos Cem Anos, um dos mais longos e sangrentos confrontos da humanidade, onde ingleses e franceses tentavam estabelecer seus territórios. A guerra começou em 1337 e acabou pra valer só em 1453, durando um pouco mais do que os cem anos que dão nome ao conflito. E a jovem Jeanne Darc teve papel importante na última fase da guerra, que acabaria com a vitória da França.

Depois da primeira visão que Jeanne teve daqueles três santos aos 13 anos de idade, ela continuou tendo visões ou ouvindo vozes, que ela atribuía ao arcanjo Gabriel. E esses detalhes não são meras suposições de historiadores. Está tudo documentado tanto em cartas que ela enviava aos pais (sempre ditando para que alguém as escrevesse, já que ela era analfabeta, como praticamente toda mulher a época), como também e principalmente nos arquivos do processo que a condenou à morte. Com 16 anos de idade, ela resolveu colocar em prática a missão que recebera dos céus. Depois de muita insistência, conseguiu uma escolta para Chinon, onde o rei e sua comitiva estava. Para a perigosa viagem, que passava por território inglês, ela se vestiu com roupas masculinas para passar despercebida.

Chegando em Chinon, ela precisou de muito mais paciência e persistência para conseguir falar com o rei Carlos VI e seu filho. Reza a lenda que Jeanne nunca tinha visto o rei antes. Como todos sabiam que a menina era guiada por vozes divinas, como teste colocaram um nobre qualquer no trono e o rei ficou entre as pessoas que ocupavam a sala. Quando ela entrou, mal olhou para o trono e fez reverência ao rei que estava disfarçado. Depois disso resolveram dar uma colher de chá pra menina. E acabaram dando uma armadura e uma espada.

Ela foi enviada para Orléans, importante cidade francesa que estava tomada pelos ingleses. Não há registros que ela lutou efetivamente nas batalhas de Orléans, mas é sabido que ela fazia parte de reuniões estratégicas e inflava a moral dos soldados com seus discursos. Por fim, os ingleses foram expulsos de Orléans e Jeanne Darc foi considerada heroína nacional. O que irritou muito os ingleses.

Um ano depois da vitória em Orléans, Jeanne, seguindo as mensagens divinas, conduziu o príncipe até a cidade Reims, onde ele foi coroado rei Carlos VII, já que seu pai havia morrido pouco antes. Sua missão estava cumprida! Mas Jeanne ainda continuou no exército francês e participou das batalhas da libertação de Paris ainda naquele ano. No começo do ano seguinte, Jeanne foi embocada e capturada por um grupo de franceses que apoiavam o reino inglês. Ela foi entregue à coroa da Inglaterra, onde foi encarcerada e aberto um processo contra ela, que foi encabeçado pelo bispo Pierre Cauchon, que era francês, mas servia a Inglaterra.

Os ingleses a acusaram de heresia e até mesmo bruxaria, já que ela ouvia vozes que, segundo os ingleses, eram demoníacas, afinal, Deus certamente estava do lado deles e não dos franceses. Mas fora a patifaria religiosa, os ingleses queriam mesmo era deslegitimar Jeanne como guerreira e, desta forma, invalidar a coroação de Carlos VII, que só pode ser coroado graças a ela. Mas não rolou. Não haviam testemunhas de atos de bruxaria, além do mais foram feitos exames que comprovaram que ela era virgem. Ou seja, bruxa ela não era. Ao longo da inquisição ela dava respostas inteligentes, de forma calma e humilde. Estava difícil incriminar aquela mocinha. Foi então que se lembraram que desde sua ida para Chinon aos 16 anos de idade e ao longo de todo seu período no exército, ela usou roupas masculinas! Uma baita heresia, segundo o bispo Cauchon, que a condenou à morte na fogueira.

No dia 30 de maio de 1431, exatos 590 anos atrás, Jeanne Darc foi morta aos 19 anos queimada numa fogueira por usar roupas masculinas (e também por chutar muitas bundas inglesas).

Ela entrou para história como mártir a igreja que, tempos depois, assumiu que errou, excomungou o bispo que a condenou e a canonizou. Ao longo do tempo, seu nome, sabe-se lá porquê, virou Joana e seu sobrenome ganhou uma apóstrofe. Essa é a história incrível de Joana D’arc. Mais uma mulher que ocupou o lugar que queria ocupar, fez muito bem o trabalho que, provavelmente, muito homem não faria tão bem e acabou pagando por isso com a vida.

Viva Joana D’arc! Viva as mulheres!

HOJE EU RECOMENDO

Filme: Monty Python Em Busca do Cálice Sagrado
Direção: Terry Gilliam e Terry Jones
Se é pra falar de Idade Média, este é um filme imperdível e indescritível. É Monty Python. Simples assim. Indispensável!

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