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As voltas que um disco dá

*Paulo Argollo

Fala-se muito, hoje em dia, sobre polarização, antagonismo, rivalidade exacerbada. Mas a verdade é que a humanidade sempre foi assim. Beatles x Stones, McDonald’s x Burger King, Senna x Prost, Corinthians x Palmeiras capitalismo x comunismo, religião x ciência, Brasil x Argentina… A história nos mostra que a rivalidade sempre esteve presente. Mesmo quando ela não existia de fato, as pessoas criavam essas rixas. Uma dessas tretas inventadas, eu me lembro claramente de quando era adolescente e nunca entendi direito a razão, era entre fãs de Legião Urbana e fãs dos Engenheiros do Hawaii. A rivalidade consistia simplesmente em um falar mal do outro. O fã de uma banda vivia falando mal da outra: “Ah, Engenheiros do Hawaii é muito chato, o Gessinger é um arrogante e prepotente.” E o outro: “Putz, mas esse Renato Russo é um chorão, não consegue escrever letras com profundidade, é só esse papinho de crise existencial adolescente e historinha de amor! Vê se cresce!”. Nessa época, metade dos anos 90, eu gostava muito dos Engenheiros do Hawaii, mas também gostava, em menor grau, é verdade, da Legião Urbana. Nunca entendi direito essa rixa, achava meio boba.

Entre 1994 e 1995 meu gosto musical começou a ser moldado. Eu já gostava de bastante coisa do Raul Seixas e já tinha descoberto as coletâneas vermelha e azul dos Beatles, o Night At the Opera, do Queen e uma coletânea dupla do Elvis na coleção de vinil do meu pai que tinham virado minha cabeça no avesso. Eu também curtia ouvir rádio, e tinha o hábito de gravar fitas e fitas das canções que eu ouvia no rádio e gostava. Eu era craque no macete de apertar o REC e o PAUSE ao mesmo tempo e soltar o PAUSE na hora que a música começava. Enfim. Uma das músicas que me encantou nessa época foi Muros e Grades, mas a versão acústica (apesar deste termo não ser usado na época) do disco Filmes de Guerra Canções de Amor, e não a versão em estúdio, do disco Várias Variáveis. Não sei o que é mais inusitado. Se é o fato de uma das músicas que não eram singles, ou músicas de trabalho, do Filmes de Guerra…. tocasse com certa frequência no rádio, ou se é o fato de eu ser um adolescente entrando de cabeça no mundo do rock e guitarras barulhentas, gostar de uma música com ares de jazz e MPB.

O fato é que hoje considero o Filmes de Guerra Canções de Amor o disco mais emblemático dos Engenheiros do Hawaii. É um disco que foi crescendo em importância na minha vida à medida que eu envelhecia. Em 1994 ou 1995 eu gostava de Muros e Grades e Realidade Virtual. Eram as minhas favoritas do disco. Realidade Virtual, em especial, me fascinava! Eu ouvia a letra e cantava junto enquanto conseguia visualizar o que era cantado. “A neblina encobre o Cristo e a lagoa se ilumina. Os edifícios de cabeça pra baixo, os refletores do Jockey Club”. Mesmo sem nunca ter estado no Rio de Janeiro, eu conseguia enxergar a cena. Mas eu realmente era um adolescente descobrindo o rock. Não dei muita atenção para o resto do disco. Eu gostava do Papa é Pop e do Várias Variáveis e suas guitarras, começava a ouvir Nirvana, Ramones…

Com 18, 19 anos, já começava a abrir mais a cabeça para a música de maneira geral. Foi quando o Filmes de Guerra… finalmente bateu para mim. Mapas do Acaso e sua letra maravilhosa, os arranjos saborosíssimos de Além dos Outdoors e Crônica, Quanto Vale a Vida deliciosa com a emenda de Perfeita Simetria e Piano Bar no fim, as orquestrações que uniram Ando Só e Exército de Um Homem Só que são de arrepiar. Desde então venho ouvindo este disco ao longo de mais de vinte anos e sempre me espanto com a beleza e honestidade musical dele.

Há algumas semanas voltei a fazer aula de guitarra para não me permitir que eu deixasse de tocar — já que a pandemia aniquilou quaisquer chances de me juntar a meus amigos de banda, e me desanimou. Estou fazendo as aulas online, importante dizer. Enfim, estudando os meandros do campo harmônico, formação de acordes com quatro notas e etc, acabei caindo neste disco, uma fonte excelente de estudo musical, já que trata-se de uma obra em que canções escritas originalmente em arranjos e acordes mais simples, foram rearranjadas com mais esmero e opulência. Com quase quarenta anos de idade, estou finalmente aprendendo música com seriedade e redescobrindo um dos discos mais importantes da minha vida.

HOJE EU RECOMENDO
Disco: Filmes de Guerra Canções de Amor
Artista: Engenheiros do Hawaii
Ano de lançamento: 1993

Este disco marca o fim da formação clássica da banda (Gessinger, Licks e Maltz), é o segundo disco ao vivo da banda, todo gravado com guitarras semi acústicas limpas, percussão e orquestrações, apesar das guitarras semi acústicas, é tido com um dos primeiros (se não o primeiro) discos acústicos do rock brasileiro, antes da MTV popularizar seu formato Unplugged. Tem 4 músicas inéditas e 8 releituras ao vivo da obra pregressa da banda. Tem no Spotify e é um discão!

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