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Bagunçou, arrumou

Há quem diga que a ordem exterior reflete o estado emocional interior. Talvez por essa ser uma das poucas coisas que temos controle em tempos de pandemia, a organização da casa ganhou mais força nos últimos tempos. Claro que a arrumação ganha destaque também pelo maior tempo que estamos passando dentro do lar. Tudo isso se relaciona com algumas bases da decoração, que tiveram força no passado, mas voltam ainda mais fortes agora.
Tudo começa em 2019, quando Marie Kondo, especialista de organização com o método KonMari, estreia a série Ordem na Casa, na Netflix. A profissional já era autora do livro A Mágica da Arrumação (Sextante, 2015), mas a audiência internacional fez com que pessoas do mundo todo se interessassem pelos benefícios da organização caseira. Foi visto, então, um boom de diversos cursos de arrumação e a popularização da profissão de personal organizer. O que fez o streaming investir em outra série do mesmo estilo, a The Home Edit: A Arte de Organizar, e que o livro da profissional japonesa ficasse por mais de 100 semanas na lista dos mais vendidos do The New York Times.
Com a quarentena, a questão se intensificou. “Em linhas gerais, esse olhar para a qualidade de vida dentro do espaço aumentou muito. A gente já passava mais de 90% do nosso tempo dentro de espaços construídos, mas a diferença é que talvez 10h por dia, 8h por dia você estava no escritório ou em algum outro lugar que não dentro da sua casa”, conta a ‘arquiteta do bem-estar’ Bia Hajnal. “Agora que a gente está muito tempo dentro de casa, a necessidade de melhorar esse ambiente, deixar ele mais agradável e ter uma qualidade de vida melhor ficou muito evidente.”
Aqui entram dois grandes pilares da decoração: o feng shui, prática pseudocientífica originária da China antiga, e a neuroarquitetura, ciência que estuda como o ambiente físico impacta nosso cérebro. No Brasil, esses estudos ganham espaço especialmente referentes a produtividade e foco. “A organização é muito importante para o bem-estar da casa. Afinal, se a casa é uma extensão nossa, o externo reflete o interno. E a neuroarquitetura traz bastante esse conceito de como a bagunça e a desorganização ajudam a aumentar o estresse, reduzir o foco e a produtividade”, explica Bia.
De acordo com o Google, as palavras “feng shui” e “Marie Kondo”, juntas, tiveram crescimento de 130% durante esta semana. Já as perguntas relacionadas com “como organizar ambientes da casa?”
aumentaram mais de 250%, se comparado ao ano anterior.
Para integrar a ordenação na sua vida, é preciso entender sua rotina. “O segredo é a persistência. É como fazer academia. Bagunçou? Arruma de novo. Então, se por acaso você não tiver tempo ou paciência para dobrar as roupas todos os dias, coloque-as em um cantinho e, uma vez por semana, dobre todas e guarde-as”, exemplifica a arquiteta.
Métodos. Antes de mais nada, livre-se de tudo aquilo que você não precisa mais. No livro Menos é Mais, a autora Francine Jay diz que as coisas e os espaços são mutuamente excludentes. Ou seja, a cada coisa nova que entra menos espaço temos. Para ela, existem três tipos de objetos: aqueles que a gente realmente usa, os simplesmente bonitos e aqueles que carregam memórias afetivas. São esses os mais difíceis de desapegar.
“Sinto que as pessoas têm muita dificuldade em fazer esse processo sozinhas. Ao passo que, quando fazemos isso com alguém, fica mais fácil”, divide Milla Camargo, sócia da empresa MiDi Personal Organizer, lançada em 2020, pelo aumento da procura por ordenamento. “O serviço de personal organizer, durante muitos anos, era visto como elitista. Mas, com a pandemia, isso mudou e as pessoas viram que precisam de ajuda dentro de casa”, argumenta ela.
A organização deve ser premissa em todos os ambientes da casa, porém a maneira de aplicá-la depende da função de cada local. “Comece por aquilo que te incomoda”, instrui Milla. Se a bagunça da mesa do escritório te estressa de segunda a sexta, talvez ela seja um bom ponto de partida. “É possível fazer por etapas ou tudo de uma vez. Depende do tamanho da casa, de quantas pessoas ali vivem e do tempo disponível da pessoa”, afirma a profissional.
Para ambientes com poucos armários e prateleiras, uma dica é utilizar os próprios objetos como decoração. Como, por exemplo, na cozinha: pendurar as escumadeiras, colheres de servir e outras louças. Mas, caso o problema não seja falta de espaço, opte por produtos organizadores, como caixas, potes com etiquetas e colmeias. “Não existe segredo, mas, sim, descobrir a necessidade individual de cada um. O mais importante é a funcionalidade”, diz Milla.
CADA COISA E SEU LUGAR
Home Office
Deixe a mesa de trabalho espaçosa e separe os elementos que você está precisando naquele dia ou na semana. Para os papéis, escaneie tudo que puder e só deixe os arquivos necessários.
Quarto
Quanto menos elementos ele tiver, maior a chance de baixar o nível de estresse. A limpeza, organização e cores claras também induzem o estado de relaxamento.
Cozinha
O que está dentro do ambiente deve ser usado. Aqueles que você utiliza no dia a dia, o ideal é posicioná-los na altura dos olhos. Na geladeira, fique atento para a validade das comidas.
Armário
Tenha em mente o tipo de roupa que você mais utiliza e deixe essas à vista. É interessante também organizá-las por cor e tipo (blusa, vestido, calça).
Caixas
A organização em caixas é ideal para quem não tem muitas gavetas ou precisa de mais divisórias no armário. Porém, se desfaça das ‘tralhas’ antes de comprar qualquer coisa. O foco é organizar e não acumular
Baú
Eles são ótimos para guardar os brinquedos das crianças, mantas e almofadas e manter, à vista, tudo organizado. Para objetos pequenos, prefira as caixas.
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