Almanaque+

De Christopher Nolan, ‘Tenet’ tem a missão de recuperar cinemas brasileiros

Raros são os filmes que podem ser classificados como eventos, daqueles que não dá para perder. Tenet é um deles. Só a assinatura do diretor Christopher Nolan já é capaz de levar milhões aos cinemas. O cineasta é um dos poucos a apostar em roteiros originais em Hollywood, com cenas de ação espetaculares e estrutura de quebra-cabeças que alimenta as mais diversas teorias nas redes sociais. Nolan também faz questão de rodar em película, em geral uma combinação de 70 mm e Imax, como é o caso aqui. Não é à toa, portanto, que Tenet, que estreia nesta quinta, 29, é a esperança de recuperação para as salas de cinema recém-abertas em boa parte do Brasil depois de meses de fechamento por conta da pandemia.

É verdade que a mesma expectativa foi frustrada nos EUA, onde o filme estreou em setembro, sem os maiores mercados do país, Los Angeles e Nova York. A abertura foi de apenas US$ 20,2 milhões, contra US$ 50,5 milhões do longa anterior do diretor, Dunkirk. No mercado internacional, também não chegou a ser um estouro, com US$ 289,1 milhões até agora. Originalmente, o lançamento mundial seria na semana que terminou em 17 de julho. “O longa foi feito para ser visto na tela grande. E vamos esperar até que isso seja possível”, disse Emma Thomas, produtora e mulher de Christopher Nolan, em entrevista ao Estadão em abril. A estreia espalhada a partir de 26 de agosto, começando pela Europa, foi a única solução possível no contexto da pandemia, mas deve ter sido uma decisão difícil para Christopher Nolan, que faz questão de manter o mistério em torno de seus filmes.

Que o digam seus atores. A resposta de Elizabeth Debicki, que faz Kat, para uma questão básica como “Quais os desafios de interpretar a personagem?” é “Essa não é uma questão básica, porque, se eu falar, vou entregar quem ela é”, por exemplo. A atriz só se sentiu à vontade de dizer que faz a mulher do personagem de Kenneth Branagh, que por sua vez interpreta Sator.

Branagh não teve medo de admitir ser o vilão. “Ele é a ameaça constante a todos os outros personagens”, disse o ator. “Uma das coisas que Chris me disse quando entrei no projeto foi que talvez eu fosse bonzinho demais para fazer o papel. Ele queria ter certeza de que eu sabia que o personagem não tinha redenção. Ele fez um pacto com o diabo. Entendemos por que está fazendo isso, mas ainda assim não dá para perdoar.”

Sator é o homem por trás do uso da inversão do tempo como arma. Seu nome não é um acaso: o Quadrado Sator, visto em construções da Roma Antiga, contém um palíndromo de cinco palavras em latim, inclusive Tenet. Quem vai combater a ação do oligarca russo é o homem conhecido no filme como Protagonista (John David Washington, de Infiltrado na Klan), um ex-agente da CIA recrutado para a operação que tem a missão de parar Sator. Seu aliado é Neil (Robert Pattinson). “Quando eu li o roteiro pela primeira vez, fui trancado numa sala. Não havia título nem nada”, contou Pattinson em entrevista via Zoom. “Mas é bom, cria uma mitologia em torno do filme.”

Pattinson não pode afirmar com certeza que entendeu todo o filme, que brinca com conceitos de física teórica. Mas, como sempre acontece com Nolan, Tenet explora a questão do tempo. “Acho que o filme é sua mais extrema e completa investigação sobre a maneira como a noção de tempo pode ser alterada”, disse Branagh.

“Certamente o filme se relaciona com Amnésia, A Origem e Interestelar. Existe um grande quebra-cabeça no centro do filme que entende que aceitar e controlar o tempo, tanto o tempo passado quanto o presente e o futuro, e até mesmo controlar como o tempo se desdobra é ter poder em escala universal. É seu experimento mais radical sobre os perigos de nossa obsessão com o tempo.”

É curioso, por isso, que Tenet seja lançado no meio de um experimento involuntário global sobre nossa relação com o tempo. “É muito estranho porque as coisas mudam todo dia, e não temos ideia de como vamos nos sentir em uma semana, que dirá um mês”, afirmou Emma Thomas. Para Branagh, o filme vai parecer muito em sintonia com os tempos em que vivemos. “Christopher dramatizou o que acontece quando não apenas um país, mas o mundo inteiro está sob ameaça de algo existencial.” Robert Pattinson acha que Nolan previu o que está acontecendo. “Porque os personagens acordam um dia e tudo o que eles sabem não serve para a nova realidade e precisam se adaptar muito rapidamente.”

Claro que a discussão sobre o tempo é também um ótimo pretexto para criar sequências de ação elaboradas, coisas jamais vistas no cinema. Como o trailer já mostra, há cenas em que certas pessoas ou coisas se movem para a frente e outras, para trás. Isso demandou um esforço físico enorme dos atores, pois Nolan prefere não abusar de imagens geradas por computador. “Foi o maior desafio físico que tive na minha carreira”, disse Pattinson. “E fui direto deste para a preparação de Batman. Envelheci uns dez anos no processo. Para piorar, o John David é um atleta de verdade. E eu sou um cara de 34 anos basicamente nascido para ficar sentado no sofá e sair de férias. Detalhe que nossos personagens supostamente têm habilidades iguais.” John David Washington, que foi jogador de futebol americano antes de decidir seguir a carreira do pai, Denzel Washington, disse que é tudo balela. “Ele está tentando enganar você. Ele é um tremendo atleta. É o Batman perfeito. Sempre tentava me enganar, dizendo que não ia conseguir fazer. Aí diziam ação e uau. E eu tive dias em que não conseguia levantar da cama também.”

Nolan também é conhecido por comandar um set sem muito espaço para descanso. “Ele gosta muito de preparação”, disse Washington. “E tem uma equipe muito unida, que sabe como as coisas funcionam.” Pattinson, que já trabalhou com cineastas dos mais diferentes estilos, de David Cronenberg a Claire Denis, descreveu o processo como único. “É muito intenso e muito rápido. E, ao mesmo tempo, ele é muito calmo.” As câmeras estão rodando desde as 7 da manhã, faça chuva ou sol. “Você está filmando desde que sai da cadeira de maquiagem até o fim do dia. Chris sempre está ao lado da câmera. Não há ensaio nem marcação de cena e quase não existem intervalos entre as tomadas. Não existem trailers. É só essa equipe enorme movendo-se de país a país.”

No caso de Tenet, foram muitos: Estônia, Dinamarca, Índia, Itália, Noruega, Estados Unidos e Inglaterra. Trata-se, afinal, de um filme de espionagem. “Foi um pesadelo em termos de produção”, disse Emma Thomas. “Porque aqui Chris faz o que ele ama fazer: pegar um gênero com o qual as pessoas têm familiaridade e expandi-lo. Ele pega os filmes de espionagem e leva às últimas consequências.” Branagh, que tinha trabalhado com Nolan em Dunkirk, ficou impressionado com o tamanho de tudo. “Foi imenso, com milhares de profissionais, equipamentos, carros, aviões, trens. Mas, ainda assim, eu como ator nunca me senti em segundo plano em relação ao resto. O resultado é um quebra-cabeça complexo. Espero que sirva como catarse para todo o mundo.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Para cima