(Paulo Argollo)

Estive pensando que muito do meu interesse crescente pela história do mundo e, em especial, do Brasil tem um fundo muito pessoal. Acho que se eu conseguir entender um pouco melhor a evolução da sociedade, como aconteceu o crescimento do país, do estado, da cidade, do bairro onde eu moro, vou conseguir entender também um pouco melhor a minha própria história. Vou conseguir me inserir em determinados contextos e entender porque recebi determinada criação dos meus pais, dos meus professores na escola e por aí vai. Pensando nisso tudo e na minha própria história, esses dias estava tentando me lembrar qual foi o primeiro livro que eu li.

Puxei na memória. No início da minha alfabetização, tem dois títulos que me lembro muito bem. Chico Cochicho e O Macaco e a Mola, este último meu favorito. Tinha desenhos muito legais de um macaco com uma mola, daquelas que viraram febre nos anos oitenta, que a molecada colocava pra descer escada e tal.

Mas o primeiro impacto mesmo que um livro teve sobre mim foi o clássico infanto-juvenil O Escaravelho do Diabo, escrito pela Lúcia Machado de Almeida, e que fazia parte da legendária Série Vaga-Lume. Foi a partir de O Escaravelho do Diabo que eu me tornei totalmente viciado em histórias bem contadas e devorei praticamente todos os livros da Série Vaga-Lume: O Caso da Borboleta Atíria; O Rapto do Menino de Ouro; Aventuras de Xisto; Xisto no Espaço; Bem-Vindos ao Rio; Um Cadáver Ouve Rádio… Puxa vida! Tomei gosto pela leitura.

Quando chegou o Ensino Médio e começaram a pintar os “livros do vestibular”, muita gente torceu o nariz, mas eu acabei me encantando. Confesso que penei um pouco pra pegar o ritmo de leitura, sem o dinamismo e linguagem mais coloquial dos meus queridos “Vaga-Lumes”. Mas Machado de Assis me pegou de jeito com suas Memórias Póstumas de Brás Cubas e um sarcasmo e crítica ao padrão social capaz de fazer vibrar um jovem inconformado como eu era.

Com o tempo, minha relação com os livros foi se estreitando cada vez mais. Além de eu gostar de ler, tomei gosto por ter alguns livros expostos numa prateleira no meu quarto, tenho livros de cabeceira que releio de tempos em tempos, e por conta disso tudo não consegui me adaptar ao e-book.

Eu tentei. Comprei um tablete legal, com várias opções de luminosidade da tela para uma leitura mais confortável, mas o que me pegou mesmo foi o manuseio. Não conseguia ficar confortável segurando uma tela fina sem esbarrar o dedo em alguma coisa e mudar a luz ou abrir um aplicativo diferente, senti falta de virar a página, de segurar com as duas mãos, de perceber o avanço da leitura pela espessura das páginas na mão esquerda e na mão direita. Enfim, abandonei o tablete e voltei para os livros físicos.

A importância que os livros tiveram e ainda tem na minha vida é imensurável. Além de leitor, ainda nutro dentro de mim o sonho de um dia escrever e publicar um livro.

Resolvi contar tudo isso hoje porque fiquei chocado com as notícias de uma possível taxação nos impostos dos livros. Ainda mais bestificado fiquei ao ler a justificativa dada: os livros devem ser taxados porque quem lê é rico, pobre não lê. Eu queria conseguir entender que tipo de lógica mais estapafúrdia é essa!

Claro, é o velho dilema Tostines: o livro é caro porque vende pouco ou vende pouco porque é caro? Sim, porque o livro já é um produto caro no Brasil. Se não fossem os sebos e a possibilidade de comprar livros usados, eu não sei o que seria de nós. E se essa taxação acontecer mesmo, vai ficar mais caro ainda!

Aí o governo ainda vem como uma conversa que determinados livros vão ter isenção para poderem ser mais acessíveis. Muito legal, né? Mas isso é uma censura velada, é um controle de imprensa, de cultura. Porque é lógico que o governo só vai dar isenção para livros que comunguem dos seus ideais. As livrarias vão ser inundadas de apenas determinados livros, e o seu poder de escolha, a sua liberdade de escolha, vai pra lata do lixo.

A minha história, a relação que eu tenho com livros, tudo isso, na verdade, não importa. Mas importa sim que crianças e jovens tenham a oportunidade que eu tive para me apaixonar pela leitura. Eu nunca fui de família rica, sempre fui de classe média e não tinha nada de mão beijada, mas meus pais me incentivavam a comprar livros fora dos livros escolares.

Olha, pode não parecer, mas essa história de taxação de livros é seríssima, e se for adiante pode dar brecha para coisas piores, pra “passar a boiada”.

Se posicionar sobre este assunto é um ato de cidadania e de apoio à educação, à cultura e principalmente à liberdade. Extrapola ideias políticos (que o governo atual já demonstrou ser desprovido, diga-se). Toda movimentação que estimule o acesso à leitura deve ser exaltada e divulgada, como apoiar bibliotecas ao ar livre, doação de livros usados e por aí vai.

Ajude a fazer com que essa taxação dos livros seja uma página arrancada do livro da história do Brasil, e que seja uma página arrancada antes mesmo de ser escrita.

HOJE EU RECOMENDO

Que você procure os canais da Câmara Brasileira do Livro (CBL), participe do abaixo-assinado e faça coro com a campanha Diga Não à Taxação!