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Deus acima de todos

(Paulo Argollo)

John Lennon errou! Quando ele disse que os Beatles eram maiores que Jesus Cristo, ele errou! Até porque não foi bem isso que ele quis dizer e tal. Mas disse e errou. Ele errou porque, além de ter muito mais “fã” de Jesus que fã dos Beatles pelo mundo, o cristianismo tem uma importância primordial para a evolução da humanidade ao longo da história. Claro que essa última afirmação também pode ser questionada, mas se mantém pelo simples fato de que evolução não implica necessariamente em desenvolvimento de maneira positiva. Vamos lembrar do jargão da medicina: O paciente evoluiu a óbito. Mas enfim, o cristianismo foi, sim, peça chave em vários momentos determinantes na história.

Não dá pra pensar na concepção do Brasil, da América Latina toda, melhor dizendo, sem o cristianismo. Primeiro porque somos obra do Renascimento. Você já sabe… século XV, queda de Constantinopla, o surgimento do classicismo em Roma, desenvolvimento da ciência, filosofia e das artes. A sociedade europeia deu um salto em desenvolvimento, que levou às grandes navegações e descoberta de novos territórios. No século seguinte, Martinho Lutero dá início a Reforma Protestante, um golpe que atinge em cheio a igreja católica e se espalha pela Europa. Para mim, este é o marco zero de uma sociedade incrível que seria por algum tempo a mais influente, mais impressionante e mais destemida de todo o planeta. A Companhia de Jesus!

Vamos lembrar que a igreja católica sempre foi a organização mais poderosa do mundo. Como diria o tio do Homem-Aranha, com grandes poderes vem grandes responsabilidades. A reforma protestante mostrou que a igreja estava mais interessada nos poderes do que nas responsabilidades. Ganância, corrupção, hipocrisia e abusos de poder rolavam soltos. A reação dos católicos veio na chamada Contra Reforma. Rolou o famoso Concílio de Trento e tal. E passaram a surgir novas ordens e congregações católicas que vislumbravam renovar e melhorar a imagem da igreja. Neste contexto, Inácio de Loyola funda a Companhia de Jesus.

Inácio de Loyola tinha origem nobre, mas abandonou tudo para levar uma vida de pobreza, celibato e penitências em busca da purificação de sua alma. Em 1534, ele e mais seis estudantes seminaristas fundaram a Companhia de Jesus para “desenvolver trabalho de acompanhamento hospitalar e missionário em Jerusalém, ou para ir aonde o papa nos enviar, sem questionar”. A Companhia de Jesus logo se tornou a ordem mais vigorosa da Contra Reforma. Seu rigor inquebrável fez dos jesuítas, seus membros, a tropa de elite do catolicismo. E se a Companhia de Jesus era o Bope, o Capitão Nascimento com certeza era o primeiro jesuíta que desembarcou no Brasil em 1549: o padre Manuel da Nóbrega.

O Padre Nóbrega, como ficou conhecido ao longo da história, é uma figura incrível. Um padre destemido, resiliente e completamente devotado à igreja. Ele veio para o Brasil com a comitiva do governador Tomé de Sousa para a ajudar na fundação da cidade de Salvador e catequizar os nativos. Claro, vieram alguns outros jesuítas junto, mas Padre Nóbrega era o líder. Nóbrega se empenhou de corpo e alma na missão de catequizar os tupinambás que viviam nos arredores de Salvador, aprendeu a falar tupi e realmente conseguiu muitas conversões entre os índios. Também se dedicou a convencer o reino português e o Vaticano a estabelecer um bispado no Brasil, para que mais facilmente pudessem ser seguidas as leis de Deus, pois mesmo os colonos portugueses viviam em constante pecado se envolvendo com mulheres nativas, roubando, matando… enfim, aquela terra de ninguém. A insistência de Nóbrega deu resultado. Em 1551 chega a Salvador Pero Fernandes Sardinha, bispo português. O destino do bispo Sardinha eu já contei aqui neste espaço tempos atrás.

O bispo Sardinha era um típico sacerdote católico do século XVI. Corrupto e soberbo. Claro que não demorou para o Padre Nóbrega se dar conta disso e bater de frente com ele. Mas a hierarquia não permitia que Nóbrega ousasse contestá-lo. A solução foi dar sequência a sua missão de catequizar o gentio em outra freguesia. Assim, ele parte para o sul, com intenção de catequizar os povos tupiniquins que viviam na região do Porto dos Escravos, a cidade de São Vicente. Atravessando a Serra do Mar em direção ao interior, encontra o ambiente ideal para se estabelecer e criar sua igreja e seu colégio. E em 25 de janeiro de 1554 ele funda São Paulo.

Já estabelecido em São Paulo, Padre Nóbrega passou a alimentar o sonho de catequizar toda a nação Guarani que vivia na região que hoje compreende Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e porções do Paraguai e da Argentina. Os Guaranis eram índios mais afeitos ao trabalho em grupo, mais abertos a interação com os brancos e, de maneira geral, um povo mais civilizado. Por isso Nóbrega tinha esperança de realizar esse sonho. Mas foi frustrado pelo governador geral Tomé de Sousa, que proibiu o avanço ao oeste em respeito ao famoso tratado de Tordesilhas. Nóbrega morreu em 1570 frustrado por nunca ter atingido seu objetivo.

Mas a história dos jesuítas no Brasil vai muito além. No começo do século XVII, jesuítas portugueses e espanhóis vão criar as missões, imensas comunidades organizadas que vão despertar a cobiça dos bandeirantes paulistas, vão servir como moeda de troca entre reis e vão resultar numa das mais violentas páginas da história brasileira: as guerras guaraníticas.

Talvez os jesuítas realmente tivessem as melhores das intenções. E criaram comunidades invejáveis, auto suficientes, ensinando latim, música, com plantações comunitárias, rebanhos de gado. Eram verdadeiras cidades. Mas ainda assim era uma forma de impor o cristianismo. E deu no que deu: sangue e morte. De acordo com a história, parece que com Deus acima de todos, o povo sempre acaba esmagado.

HOJE EU RECOMENDO
Série: Guerras do Brasil
Criação: Luiz Bolognesi
Ano de lançamento: 2019
Série documental que retrata a história do Brasil através de suas guerras e confrontos. Muito interessante e tem na Netflix!

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