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Dois Minutos

(Paulo Argollo)

Entre os meus mergulhos na história, em especial história do Brasil, colonização, império e tal, sempre acabo pensando em como a história é viva. Hoje estamos em um momento que certamente será lembrado, contado e estudado no futuro. Um momento que fará — já faz, na verdade — parte da história. Aí, esses dias fui lembrado pelo Facebook do domingo, dia 15 de março de 2015, quando aconteceram uma das manifestações mais importantes daquele ano, e que culminaria com o impeachment de Dilma Rousseff um ano depois. Mais um momento histórico a ser lembrado. Fiquei pensando naquelas manifestações, e como elas contribuíram para que a gente chegasse onde estamos hoje. com um presidente despreparado e uma parcela considerável da população se negando a encarar a realidade.

Ainda assim, fiquei pensando em como aquelas manifestações aconteceram de ambos os lados. Pró e contra governo. E eu acredito que a maioria delas foram legítimas. De ambos os lados houve quem estivesse ali de coração, gritando e expondo suas ideias e revoltas. Também nas duas manifestações houve pessoas que estavam ali por interesse. Ou porque ganharam um trocado e uma camiseta ou porque estava afim de sair com aquela gatinha da faculdade de ciências sociais e aproveitou a oportunidade…ou foi mesmo só pela farra. Tá. Mas, e aí? No que deram essas manifestações todas?

O que aconteceu é que saímos de uma situação ruim pra cair numa pior. Porque não rolou uma renovação de verdade ou uma mudança. Porque desde a redemocratização do país, com o Collor sendo eleito, nós sofremos do pior mal que assola todo o cenário político na maioria das democracias do mundo: o populismo.

O populismo é uma prática política que visa estabelecer um vínculo emocional com seu povo. Isso ocorre através do assistencialismo exagerado para classes mais pobres, enaltecimento da classe média e demonização da classe mais rica. Ou, por outro lado, se faz valer de um falso liberalismo para impor leis que vão restringir liberdades e estabelecer ideias conservadoras. Desta maneira, cria-se uma segregação de classes e inimigos são estabelecidos em todos os lados. A demagogia é uma das principais armas do populismo para manipular toda uma nação, fazendo com que seu povo, de fato, não se una contra o governo, pois cada classe está preocupada com seus próprios inimigos.

Para piorar, nós temos as redes sociais, onde o ódio se prolifera com muito mais facilidade quando se está atrás de uma tela, sozinho no quarto. Não há confronto e pode-se dizer o que bem entender. Assim, muita gente não para e pensa no que está acontecendo. Não olha todos os lados de uma situação tão pluridimensional como a que estamos vivendo. As pessoas só recebem as informações, normalmente dizendo o que querem ouvir, que dizem quem está errado… tudo extremo!

Veja, eu não estou aqui defendendo ninguém. Pelo contrário. Sou avesso a toda a nossa política. Se fosse para eu me manifestar na rua, seria por uma completa reforma política. Diminuição de cargos, menos deputados e senadores, menores salários e benefícios aos mesmos e por aí vai. Mas que partido apoiaria tal ideia? Se partido nenhum apoia, qual meio de comunicação veicularia tais reivindicações?

Exato.

Ninguém.

O que nos leva de volta às manifestações.

Lembrando delas, tive a impressão que tudo acontecia para aliviar o cidadão. Para fazer com que ele voltasse a trabalhar na segunda-feira acreditando que tem participação na vida política do país, que ele lavou a alma, está renovado.

E tudo volta a ser como era antes da manifestação acontecer.

No clássico e assustadoramente profético livro 1984, George Orwell descreve uma espécie de ritual que todos participam com frequência. Chama-se “Dois Minutos de Ódio”. Consiste na exibição, em uma tela, da imagem e da fala de Emanuel Goldstein, que no livro é o líder exilado da oposição ao governo do Grande Irmão (Sim, o Big Brother! Exatamente! Tá aí ligando os pontos, né?). Enfim, as pessoas ficam diante desta tela gritando todo o tipo de xingamentos contra o “inimigo” do estado por dois minutos. Passados os dois minutos, volta a imagem do Grande Irmão na tela, brando e carismático, dizendo o que as pessoas devem fazer e todos voltam ao trabalho um pouquinho mais leves. Aí, você pega a timeline de qualquer rede social e vê um comportamento tão semelhante que fica difícil não fazer a associação.

Eu ia terminar este texto fazendo uma referência a outro trecho do livro, quando o personagem principal, Winston, é pressionado por O’Brien, um membro do partido. O’Brien mostra quatro dedos de sua mão e pergunta a Winston quantos dedos ele vê. Winston responde “Quatro.” e O’Brien lhe diz que o partido vai fazer com que ele acredite que são cinco dedos ali. Eles não querem que ele responda “cinco” só pra se safar da tortura, eles querem que ele acredite mesmo que naquela mão tem cinco dedos esticados.

Eu ia dizer que só espero que essa gente toda que esbraveja na internet e defende políticos repugnantes consiga enxergar e possa afirmar livremente que estão vendo apenas quatro dedos.

Mas essa conversa de quatro dedos pode complicar as coisas.

Então, tire suas próprias conclusões.

HOJE EU RECOMENDO

Todos os livros do George Orwell. Vai e lê tudo sem medo de ser feliz!

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