‘Fazer um filme ainda é como liderar um exército’, diz diretora de ‘Mulan’

Uma das maiores vítimas da dança do calendário dos cinemas por conta da pandemia, Mulan finalmente chegou ao Brasil, diretamente no serviço de streaming Disney+. O filme, que estrearia em 27 de março, é uma versão “live action” da animação de 1998, uma das poucas assinadas pelo estúdio em que a protagonista não é uma princesa.
Para quem não se lembra, Mulan é uma garota que, como a tradição manda, deveria se casar com o homem indicado pela casamenteira e ter muitos filhos em sua vila. Mas, quando um homem de cada família é convocado para defender o imperador, Mulan decide tomar o lugar do pai, que nunca se recuperou dos ferimentos de guerra. Ela finge ser um rapaz. “Eu perdi a estreia na época, mas depois tive filhas. E fiquei muito grata de que, em vez de princesa, ela era uma guerreira”, disse a diretora Niki Caro em uma sessão em Los Angeles, em março, poucos dias antes do fechamento dos cinemas.
Niki, conhecida por Encantadora de Baleias (2003), amava Mulan. “Eu me apaixonei por sua jornada, indo de moradora de uma vila a soldado, a guerreira e heroína”, disse. Mas, lembrou, a história não tem origem na animação, e, sim, numa lenda chinesa de mais de 1.500 anos. “Ela tem sido relevante há séculos, e hoje mais do que nunca”, afirmou. Tanto que a própria cineasta se identificou com a personagem. “Fazer um filme ainda é como liderar um exército de homens. Quando comecei, não achava ser possível. Foi a diretora Jane Campion que mudou as coisas para mim. Antes, achava que literalmente precisaria me disfarçar, como Mulan”, disse.
A inspiração maior do filme é a obra original e não a animação. Para começo de conversa, Mulan não é um musical. Também não há animais antropomorfizados nem mesmo o amado dragão Mushu. A força espiritual de Mulan (Yifei Liu) reside numa fênix, símbolo do templo de sua vila. Em vez de uma avó, Mulan tem uma irmã mais nova. Em tempos de Me Too, não há nada mais démodé do que um romance entre um comandante e uma subordinada. Então, o personagem de Li Shang da animação foi dividido em dois. Há o Comandante Tung (Donnie Yen), o mentor de Mulan. E Honghui (Yoson An), que é um soldado novato no Exército Imperial, assim como Mulan. “Não é uma versão quadro a quadro da animação”, explicou o chinês de Macau criado na Nova Zelândia Yoson An ao Estadão. “Há toda uma discussão hoje sobre autenticidade e integridade que não era tão comum na época.”
O elenco inteiro de Mulan é chinês ou etnicamente chinês. Para encontrar a Mulan perfeita, a diretora testou mais de mil atrizes. Acabou escolhendo Yifei Liu, que teve de treinar duro para fazer o máximo das cenas de luta e ação possível. “Mas o mais difícil foi a voz de homem”, contou a atriz.
O filme também contou com consultores de história e cultura chinesas, que apontaram, por exemplo, que Mulan não cortaria o cabelo para se disfarçar de rapaz, já que os soldados costumavam ter cabelos compridos.
Os antagonistas ganharam motivações mais robustas. Os hunos liderados pelo terrível Shan Yu foram substituídos pelos rouranos, um povo nômade da Mongólia. Seu chefe é Böri Khan (Jason Scott Lee), que tem como aliada a guerreira e feiticeira Xianniang (Gong Li). “Historicamente, em muitas culturas, povos indígenas sucumbiram ao domínio imperial. Niki Caro queria falar disso”, contou Lee. Khan culpa o imperador (Jet Li) pela morte do seu pai e quer vingança. Xianniang é uma personagem complexa que deseja ser reconhecida pelo que faz.
A diretora resumiu a diferença fundamental nesta versão de 2020. “Na animação, Mulan se disfarça de homem para se encontrar. Na nova versão, ela descobre que jamais vai ter poder se não se livrar do disfarce. Esse é meu maior orgulho.”