Almanaque+

Hey, mãe, eu tenho uma guitarra elétrica

(Paulo Argollo)

Eu tinha 13 anos de idade em 1995. Foi quando eu comecei a ouvir, por influência de um primo mais velho, discos de artistas como Raul Seixas, Beatles e Pink Floyd. Antes disso, ainda criança, eu já adorava música, ouvia de tudo, em especial conjuntos pop, como Dominó e New Kids on the Block. Mas também tinha uma fita dos Guns n’ Roses, que me encantou quando o clipe de Don’t Cry passou no Fantástico. Mas em 1995 tudo mudou porque eu já estava mais ligado no rock n’ roll. E foi quando eu ouvi com atenção o disco Nevermind. Um ano depois da morte de Kurt Cobain, foi ouvindo Nirvana que eu entendi que queria tocar numa banda.

A introdução da música In Bloom me convenceu a tocar bateria. Comecei a fazer aulas, meses depois consegui que meus pais me dessem uma bateria; mais alguns meses depois, no fim de 1996,começo de 1997, entrei para uma banda.

De lá pra cá, nunca mais me afastei da música, mesmo sendo um hobby. Passei por várias bandas, por mais de dez anos toquei bateria. Por fora, já aprendia com os amigos um ou outro acorde no violão. Até que em 2008 resolvi tocar guitarra. Deixei a bateria de lado, comprei uma guitarra, um amplificador e entrei numa nova fase musical da minha vida, que vem se desenvolvendo até hoje. E é nesse ponto que eu queria chegar. Agora que começa mesmo este texto.

Há algum tempo muito se falou sobre a queda vertiginosa nas vendas de guitarras em todo o mundo e sobre a marca Gibson que perigava abrir falência. Hoje tive um tempinho livre e fiz uma pesquisa. No Spotify existe uma seção onde o usuário tem acesso às playlists das 50 músicas mais tocadas em dezenas de países diferentes. Fui escolhendo aleatoriamente alguns países e dei uma passada geral nas músicas, ouvindo ali um pouquinho de cada música. Os países que peguei foram Irlanda, Equador, Suíça, Polônia, República Dominicana, Estados Unidos, Taiwan, Portugal, Holanda, Filipinas, Panamá e Brasil. O que eu constatei é que em todas as listas, eu disse TODAS, não encontrei nenhuma música em que se ouvisse uma guitarra marcante. Se ela existia, devia estar perdida no meio do arranjo, entre sintetizadores e programações. Aliás, raras são as canções dessas listas em que se percebe o uso de instrumentos analógicos. Não me espantará nada se o mesmo dado das vendas de guitarras aparecer falando sobre baterias analógicas.

Cara, o mundo mudou muito. Quem toca guitarra e tem uma ligação maior com a música do século XX, certamente vai torcer o nariz para a produção musical de hoje. Vou falar por mim. É uma linguagem nova, que eu não entendo, tenho dificuldade em me conectar com a canção porque a estética mudou muito. Não dá para querer comparar uma canção como Wannabe, das Spice Girls, que foi top 10 da Billboard em 1997 (notem que eu nem fui pro lado do rock) com God’s Plan, do Drake, por exemplo. A primeira tem um refrão forte, um arranjo que mistura analógico e digital, guitarra e baixo com sintetizadores, teclados e bateria eletrônica, variação melódica… uma canção completa. A segunda é uma canção linear, sem variação melódica, sem refrão, com um arranjo simples, claramente uma base concebida 100% de maneira digital.

Uma vez, um cara muito sábio me disse o seguinte: “Um erro que frequentemente se comete é analisar estes tempos virtuais com ferramentas analógicas. Outros tempos exigem outras ferramentas de análise. É preciso se livrar dos conceitos pré-estabelecidos, encarar o ambiente como se fosse uma folha em branco, sem medo do novo e sem arrogância de achar que saberemos o que vai acontecer”.

Sob este ponto de vista, não só a comparação feita acima, entre duas canções, já perde um pouco o sentido como fica claro que, sem conhecer minimamente e tentar entender de peito aberto a música atual, é impossível que possamos consumi-la, menos ainda admirá-la como obra de arte.

Não foram só a produção e o jeito de consumir música que mudaram. O comportamento do jovem mudou. É tudo muito mais imediatista, feito online, individualista. Quem toca qualquer instrumento sabe que não dá para sair tocando de um dia para o outro. Um instrumento como a guitarra exige dedicação e tempo, meses de prática para tocar uma canção com desenvoltura. E uma guitarra sozinha diverte, mas não faz verão. A graça é juntar com os amigos para tocar, tendo acompanhamento. Para um adolescente isso parece muito esforço, já que ele pode simular uma guitarra distorcida, criar uma melodia, fazer uma base rítmica. Tudo isso sem ter conhecimento nenhum de música, somente usando um software.

É praticamente uma volta a um dos pilares do punk rock. É música “do it yourself”. Estamos diante de uma geração de jovens que, assim como os punks nos anos 70, fazem música sem se preocupar se sabem ou não tocar, que não querem depender de ninguém, só querem se expressar livremente.

Aí, fica parecendo que, quanto mais velho a gente fica, mais na contra-mão a gente anda.

Quando eu comecei a tocar guitarra, por volta de 2008, eu usava uma pedaleira toda digital, que simulava vários timbres de amplificadores diferentes e tinha uma infinidade de efeitos e distorções. Hoje eu uso meia dúzia de pedais analógicos, um amplificador valvulado e só. E ainda acho que dá pra simplificar: tendo um amplificador melhor, dá pra eliminar um ou outro pedal. Aliás, sabe quem usava só três pedais e um amplificador valvulado pra tocar guitarra? O Kurt Cobain, aquele guitarrista do Nirvana que gravou o Nevermind…

HOJE EU RECOMENDO

Filme: O Diabo na Encruzilhada (título original: ReMastered: Devil at the Crossroads)
Direção: Brian Oakes

Ano de lançamento: 2019

Já que estamos falando de guitarra, nada mais justo do que falar dos primórdios, do primeiro grande guitarrista e criador do que viria a ser conhecido como blues, que influenciaria o mundo, ajudaria a criar o rock n’ roll e tudo o mais. Aqui está um ótimo filme sobre a trajetória mística de Robert Johnson.

Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Para cima