‘M8’ retrata o racismo diário

Há uma cena de M8 – Quando a Morte Socorre a Vida em que Mariana Nunes, a mãe, discute com o filho. O garoto estuda medicina, está sofrendo bullying na universidade. Ela respeita seu silêncio, mas a cada dia ele aparece com uma marca de violência no corpo.
Mariana põe a mão na cintura e fala mais alto – “Preste atenção, garoto! Tem aqui uma mulher preta falando!” O diretor Jeferson De emociona-se. “Nunca havia falado disso com a Mariana, mas minha mãe, quando discutia com os filhos, também colocava a mão na cintura e mandava ver. Foi como viajar no tempo olhando a Mariana.”
M8 estreou no Festival do Rio em 2019. Havia a expectativa de que estreasse em março, ou abril, mas houve a pandemia e só em 3 de dezembro, o filme ganha as salas do Brasil. M8 nasceu de uma encomenda. Jeferson recebeu um telefonema da produtora Iafa Britz, da Migdal, dizendo que tinha um projeto para ele.
Interessava? Era o livro de Salomão Polakiewicz sobre o estudante negro, bolsista na Faculdade de Medicina, que fica obcecado com o cadáver de outro jovem – preto como ele – que retalha nas aulas de anatomia. “Eu imediatamente me interessei pelo assunto, mas introduzi algumas mudanças que talvez até passem despercebidas, mas foram muito importantes para mim. Em vez de bolsista, o Juan Paiva (que faz o papel) é cotista. Para quem é negro faz uma diferença enorme. No livro, a intermediação com o cadáver é feita pela religião católica, e eu introduzi os ritos afros, o candomblé.”
Jeferson De reflete sobre a singularidade da experiência desse filme. Maurício/Juan Paiva é o único negro na sua turma. À colega, de quem se torna namorado, pergunta – “Você não acha estranho que só exista eu aqui de negro? Tenho mais a ver com os corpos da aula de anatomia do que com meus colegas.” E Ailton Graça, o funcionário da morgue – “Não entra nessa, garoto. Pode virar um caminho sem volta”. Maurício encontra na rua as mães que protestam contra o desaparecimento dos filhos negros. Enterrar o M8 passa a ser uma necessidade para ele. O ato em si transformará o cadáver anônimo em emblema de todos os jovens negros vítimas de chacina – no Rio, no Brasil.
Forma-se uma rede de proteção em torno de Maurício – a namorada, a mãe, a funcionária da secretaria, o bedel da morgue, o próprio policial (Rocco Pitanga). De forma brutal ele aconselha – “Não fica dando mole nesse bairro de riquinho”. Jeferson arrepia-se. “Filmei o policial derrubando o Maurício e colocando a perna no pescoço dele antes que a imagem de George Floyd sendo sufocado ganhasse o mundo. A mesma imagem de João Alberto Silveira Freitas, morto a pancadas pelos seguranças do Carrefour, no Rio Grande do Sul. É triste constatar, mas o filme ganhou mais atualidade do que nunca. ‘Vidas negras importam’ não é simples importação de causas nem tragédias alheias. Só o presidente e seu vice insistem no negacionismo. Existe, sim, racismo no Brasil, e é estrutural.”
Já se passaram 17 anos desde que Jeferson De realizou o documentário de curta-metragem Carolina, com Zezé Motta como a escritora Carolina Maria de Jesus, autora do livro Quarto de Despejo, que virou best-seller por volta de 1960. Jeferson lançou o movimento Dogma Feijoada e começou a falar sobre a negritude no País. A representatividade negra. Teve as suas madrinhas – Zezé, Léa Garcia, agora Mariana Nunes. “É uma atriz extraordinária, uma potência. Onde aparece, a Mariana marca presença.” M8, o cadáver do filme, é um personagem tão forte que, mesmo sem fala, Lázaro Ramos fez saber que gostaria de fazer o personagem.
Não dava – a questão do anonimato era necessária. “Quem fez foi o Raphael Logam e até ele não serve mais como anônimo (risos). Raphael foi indicado duas vezes ao Emmy Internacional pela série Impuros. É um ator que ganhou muita e merecida evidência.” Nesses quase 20 anos de carreira, Jeferson De fez filmes como Bróder, O Amuleto e Correndo Atrás. O Amuleto marca sua incursão pelo cinema de gênero, e o terror nutre a fantasmagoria de M8.
Correndo Atrás circulou por festivais, mas não foi para os cinemas. Jeferson trabalha na transformação do filme com Ailton Graça em série. Adora o ator – “O Ailton põe sempre um pouco de humor até no drama mais pesado, e eu gosto disso.” E, claro, Juan Paiva. Bonito e talentoso, o garoto tem currículo. Fez o filho de Ailton Graça na novela Totalmente Demais, coescrita por uma diretora de cinema, Rosane Svartman. Pode ser visto na temporada de Malhação que está no ar, e na série As Five. Suas cenas com Mariana Nunes são dignas de antologia. “Os dois, mãe e filho, atuam na área da saúde. Criei esses personagens antes da covid. O tempo ressaltou a importância deles. Estou muito feliz com meu filme”, diz Jeferson.