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Na quarentena, ator se reinventa e inicia produção de cogumelos em apartamento

Os meses de isolamento impostos pela pandemia da covid-19 e seus desdobramentos provocaram em muitas pessoas reflexões acerca da vida e do mundo que as rodeia. Não raro, houve quem questionasse hábitos, valores e até mesmo a profissão. Esse foi o caso do ator, diretor e produtor recifense Allan Souza Lima, que, aos 34 anos e uma vida inteira ligada às artes, decidiu iniciar um novo, e inusitado, projeto a partir do apartamento onde mora na cidade do Rio de Janeiro: a produção e a comercialização de cogumelos.
Batizado de Horta dos Cogumelos, o empreendimento estreou oficialmente na quinta-feira, 15, data em que é celebrado o Dia Nacional do Cogumelo. Em entrevista exclusiva ao Estadão, Allan conta que a ideia surgiu durante um longo período de reflexão, motivado, principalmente, pelo excesso de trabalho – que o levou a uma estafa antes da pandemia.
Somente no ano passado, ele integrou pelo menos cinco produções. Atuou na novela Órfãos da Terra, da TV Globo (Youssef Abdallah), e nos filmes A Menina Que Matou Os Pais (Cristian Cravinhos), La Salamandre (Pachá) e A Sala Escura (Paulo), todos ainda sem data de estreia. Também dirigiu o espetáculo Ao Anoitecer, com Julianne Trevisol e Márcio Kieling.
“Acho que o meu processo de reencontro e reconexão começou em meados de 2019. Emendei vários projetos. Isso mexeu comigo e respeitei. Ia atuar em uma novela em fevereiro deste ano, mas optei por viajar, porque precisava parar”, lembra o ator, que passou meses sem assistir TV, filmes, noticiário ou lives. “Vi apenas alguns documentários que fizeram parte desse processo, como Dieta de Gladiadores e Cowspiracy: O Segredo da Sustentabilidade, disponíveis na Netflix”.
Durante o período de quarentena, Allan começou a estudar botânica e fazer experimentações em casa. Hoje, ele já tem cerca de 50 plantas e mais de 25 espécies. “Se colho alecrim e hortelã, por que não cogumelos?”, indagou ele que, na ocasião, até cogitou mudar para o campo, em um movimento que se intensificou com a pandemia pelos chamados neorrurais. Mas, depois de conversar com o amigo e sócio, João Zanella, decidiu permanecer na capital carioca.
“Comecei todo esse processo por causa das minhas plantas e recebo muitos elogios pelo cultivo. Queria encontrar formas de estimular e incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo”, justifica. A solução foi montar uma estufa em um quarto do apartamento e iniciar a ‘alquimia’, como ele mesmo prefere intitular.
“Desenvolvi um processo que inclui música durante a produção. São trilhas com uma vibração específica que estimula o crescimento e o bem estar dos cogumelos. Me inspirei no livro A Vida Secreta das Plantas (Peter Tompkins e Christopher Bird). Existem estudos que dizem que elas têm sentimentos e que certas canções, como algumas peças de Beethoven e de Enya, emitem uma vibração estimulante”, explica o ator.
Com temperatura, umidade e músicas adequadas o ambiente se tornou propício para a produção totalmente orgânica do shimeji branco (Pleurotus Ostreatus, nome científico) e do hiratake (uma variação mais ‘madura’ e maior desse primeiro), os quais serão vendidos in natura, em embalagens sustentáveis de fibra de trigo ou em saco de juta, ambos compostáveis. Cerca de 250g custará em média R$ 15. Inicialmente, as vendas serão somente para o Estado do Rio de Janeiro, via internet.
O saco de juta permite ainda que o consumidor acompanhe o crescimento do cogumelo e faça a colheita em casa. “A ideia é estimular uma experiência sensorial única”, salienta Allan, que vê a arte presente em todos os lugares. “Tem uma frase que eu ouvi por aí: ‘A gente é da terra à terra’. Ao morrer, viramos pó. Quando preparo um ator, gosto de dizer que, antes da criação do personagem, precisamos entender o nosso processo como ser humano, nossa base e de onde viemos. Somos terra”, salienta.
Perguntando se algum personagem em especial o inspirou, ele afirma que todos foram transformadores. “Tanto o Cacique Ubirajara, da novela Novo Mundo, da TV Globo, em que pude ter um contato maior com a natureza, quanto o Cristian Cravinhos, de A Menina Que Matou os Pais, que não apresenta nenhuma relação com o meu estilo de vida, têm um lugar especial. O personagem dá esse poder de transformação independentemente da forma que venha ou de quem seja”.
Acostumado a interpretar os mais variados papéis, esse, talvez, tenha sido um dos processos de imersão mais complexos vividos por Allan, afinal, o personagem em questão era ele próprio. “Acho que o arquétipo mais bem elaborado foi quando cheguei à conclusão de que precisava tocar na terra e viver mais próximo a ela. Foi essa terra que me fez estar, hoje, reconectando comigo mesmo. Acredito que esteja vivendo um novo processo de vida”.

Você disse em suas redes sociais que já estava em quarentena antes mesmo da pandemia. Como foi esse período de isolamento?
Digo que foram vários processos. Primeiro de explosão, depois introspecção até o ‘reentendimento’. No trabalho, tenho a necessidade de eliminar os vícios como pessoa para iniciar e entender um novo universo. Falo o mesmo da vida. Acho que para o artista, o profissional e o pessoal acabam caminhando juntos e eu sentia essa necessidade de ‘zerar’, o que exige responsabilidade e uma entrega grande, pois isso significa abdicar, por um momento, de tudo, como a frase de Sócrates: ‘Só que sei nada sei’. Nesse período, disse que não era ator, não era absolutamente nada. Foi a partir daí que comecei a viver de novo e a me reencontrar.
Você chegou a pensar em desistir da carreira de ator?
Para ser sincero, cogitei. Mas estou deixando a vida levar da melhor forma possível. Consegui fazer uma reserva e acalmar financeiramente para pensar em outras coisas. Mas o que questionei, e venho questionando, é que preferiria viver a minha profissão nos anos 1980, 1990 até início de 2000. Não sei se hoje tenho a mesma vocação. É diferente.
É uma questão de vocação ou você acha que o meio artístico mudou?
As duas coisas. A vida foi mudando e adaptando outros valores, que, particularmente, não acredito. O que está acontecendo no mundo, a desvalorização, principalmente, da arte. Hoje, tudo pode. Qualquer um faz qualquer coisa, só é preciso falar que é ator. Sempre lutei muito por essa causa. Vejo pessoas perguntando: ‘como começo na carreira com tanta gente que nunca fez nada mas já virou ator pela quantidade de seguidores ou influência?’ Isso acabou desvalorizando o mercado e fiquei um pouco cansado. Por isso, questionei se realmente tenho vocação para o que estamos vivendo. Uma coisa leva a outra.
Como surgiu a ideia da Horta dos Cogumelos?
Nesse processo de reflexão, caminhei muito. Digo que meu carro era minha casa, junto da barraca de camping. Viajei para o interior, estudei sobre botânica e comecei a fazer pequenos testes em casa, avaliando o crescimento das espécies, assim como Charles Darwin. Certo dia, conversando com um amigo, que hoje é meu sócio, falamos sobre cogumelos. Fiquei com isso na cabeça e comecei a ler sobre o universo dos fungos. Sou meio obcecado com certas coisas, por isso estudei por onze dias direto todo o processo de produção. Encontrei uma espécie de ‘Professor Pardal’ no interior do Paraná, que trabalha na área desde os anos 1990, e recebi consultorias. Depois que compreendi, propus a sociedade ao meu amigo e criamos a Horta dos Cogumelos.
Você pretende continuar atuando? E morando no Rio?
Vou continuar atuando. Estou deixando a vida me levar, mas já estou pronto para trabalhar. Tenho pretensão de fazer a minha base de vida no interior do Rio, em um lugar mais tranquilo e perto da natureza. É uma ideia que tenho há quatro anos. Em 2020, inclusive, estava preparado para isso. O Rio está tão difícil, a cidade está um caos.
Como você vê esse momento atual?
A gente está vivendo uma Teoria Darwiniana novamente, na qual os melhores a se adaptarem é que vão resistir. A partir desse ponto histórico e científico, comecei a me questionar e cuidar da minha saúde. Sempre falo que existem os três pilares do ser humano: respiração, alimentação e movimentação. É uma questão existencial. A probabilidade de novas pandemias ocorrerem é cada vez maior. Em 50 anos, chegaremos a 9 bilhões de pessoas no mundo. Como vamos viver um isolamento social? É fácil falar para ficar em casa se você tem dinheiro. Mas do que adianta isso se não há incentivo do governo e nos deparamos com os ônibus lotados, como na reabertura do Rio? A conta não bate. Está tudo errado, inclusive, o politicamente correto. Por isso, faça a sua parte, cuide da sua alimentação e do seu bem estar, mental e físico. Foi nesse lugar que me encontrei.
Você sempre compartilha frases com seus seguidores no Instagram. Tem alguma que resume esse momento?
Tem uma frase que li de algum filósofo e resume a minha pandemia: ‘Estamos vivendo um centro de experimentação científica, na qual estamos descobrindo as nossas verdadeiras potências, nossos vícios ou virtudes. É nesse momento que a gente descobre quem é o mais paranoico, o mais medroso, o mais generoso, o mais corajoso e quem é o mais transformador. Então, cada um se descobre da melhor forma’.
Produção de cogumelos está em alta no Brasil
O mercado de cogumelos está em forte expansão no Brasil. De acordo com Daniel Gomes, presidente da Associação Nacional dos Produtores de Cogumelos (ANPC) e pesquisador da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócio (APTA), o País já tem mais de 1.000 produtores, a maioria, nos estados de São Paulo (cerca de 80%), Paraná, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
O crescimento ao longo dos anos se deve ao boom de restaurantes orientais no País e uma boa aceitação do produto na sociedade. Atualmente, existem mais de 15 tipos no mercado, sendo os principais o Champignon de Paris, e sua variante Portobello, o Shitake e o Shimeji.
Ainda segundo Daniel, estima-se que sejam produzidos mais 12 mil toneladas de cogumelos por ano no Brasil e o consumo médio gire em torno de 120g a 200g por pessoa. “Hoje falta cogumelo no mercado”, garante o pesquisador, que ainda destaca o alto valor agregado do produto, bem como seu potencial sustentável.

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