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O Fundamental fio da meada

(Paulo Argollo)

Um tempo atrás eu estava vendo um desses reality shows na TV (que de realidade mesmo não tem muita coisa), era sobre casamentos feitos às pressas. O casal de noivos participante ganhava do programa o casamento completo, do vestido da noiva à festa. No dia que assisti, o casal em questão era da linha dura do veganismo, totalmente avessos a qualquer produto de origem animal. Na hora de conceber o vestido da noiva, deu uma baita discussão porque ela não aceitava que o vestido fosse feito de seda, que é um fio de origem animal, e exigia que fosse feito de algodão. O estilista responsável pelo vestido, por outro lado, se recusava, afinal, onde já se viu ele, um renomado estilista, cheio de requinte e sofisticação, fazer um vestido de noiva feito de algodão! No fim, o vestido foi feito de algodão mesmo e ficou super bonito. E eu fiquei pensando nesse material.

Você já parou pra pensar o que seria da humanidade sem o algodão? Pra começo de conversa, talvez não existiria o blues como o conhecemos. Bem antes de chegar ao delta do Mississipi, o algodão já era amplamente utilizado pela humanidade. Para se ter ideia, os primeiros vestígios do uso do algodão como fibra para tecidos tem aproximadamente 4.000 anos, por volta do século VII a.C.! Em regiões diferentes do planeta, os povos já produziam tecidos de algodão e os tingiam de diferentes cores. Séculos antes da era cristã, tecidos de algodão eram produzidos e comercializados no Oriente Médio e na Ásia, bem como na América, entre os povos Incas, Maias e Astecas. Na Europa, o algodão só chegaria no século II d.C., com os árabes e mouros.

Uma vez na Europa, o algodão foi o protagonista da Revolução Industrial, no século XVIII. A produção de tecidos através de teares mecânicos, aliada à utilização em larga escala do carvão como fonte de energia, fez com que pequenas oficinas expandissem e se tornassem grandes fábricas e indústrias, primeiro na Inglaterra e depois por toda a Europa.

Mas por que foi o algodão o protagonista? Afinal, havia outros produtos manufaturados a serem fabricados e comercializados. Sim, é verdade. Mas eram produtos como utensílios de metal, por exemplo, que exigiam mais conhecimento e prática no manuseio. Os teares de algodão eram simples e podiam ser operados por qualquer pessoa sem conhecimento prévio e até mesmo por crianças, como infelizmente aconteceu muito e por muitos anos.

E foi a chegada da indústria têxtil nos Estados Unidos no século XIX que achou nas planícies do sul do país um solo fértil para a plantação de algodão e uma população de negros sem trabalho. A abolição do trabalho escravo naquele país aconteceu em 1863. Os estados do Sul, essencialmente agrícolas, pouco desenvolvidos, ficaram divididos entre fazendeiros ricos com grandes propriedades e negros, até então escravos, que se amontavam em vilas e periferia das cidades. Ou seja, era como se a escravidão não tivesse acabado. Sem sustento, os negros trabalhavam nas lavouras por salários absurdamente baixos e sob condições mínimas. Assim nascem os lamentos dos negros em forma de canção: nasce o blues.

Tá vendo como o algodão é marcante para a humanidade? O tecido aí da tua camiseta carrega uma história incrível, milenar, que vai além da sua produção, mas que influenciou e ainda influencia a humanidade na economia, na arte e na vida!

É triste pensar que depois de tudo que se passou ainda vejamos questões como o racismo tão evidentes e, principalmente, a indústria da moda, que assim como a indústria têxtil de séculos atrás vira e mexe ainda é pega usando mão de obra infantil e explorando imigrantes.

Mas para não acabar este texto de forma tão pesarosa, vamos lembrar também que o algodão inspirou um dos mais cobiçados e deliciosos objetos de desejo de qualquer criança do mundo: o algodão doce!

HOJE EU RECOMENDO

Livro: Blues

Autor: Robert Crumb

Editora: Conrad

São mais de 100 páginas em que o genial escritor e desenhista Robert Crumb conta lendas e histórias dos pioneiros do blues no formato de HQ. É um livro essencial, maravilhoso e divertidíssimo de se ler, reler, reler, reler, reler…

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