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O que o fracasso do Quibi diz sobre a febre do streaming

Uma das palestras mais concorridas no Cannes Lions – Festival Internacional de Criatividade do ano passado foi a comandada pelos executivos Jeffrey Katzenberg e Meg Whitman – ele, cofundador da Dreamworks; ela, ex-presidente da HP. Os dois uniram forças em um projeto que prometia revolucionar o mundo do consumo de conteúdo: o Quibi. A startup recebeu o apoio de marcas gigantes como Pepsico, Google, P&G, Walmart e AB InBev durante o festival. Mas revelou-se o primeiro grande fracasso da febre do streaming que tomou conta do setor de entretenimento nos últimos anos.
Mas o que pode explicar um erro de cálculo tão retumbante? Após 18 meses de preparação, o Quibi foi lançado em abril. Na semana passada, seis meses depois da estreia, o serviço anunciou que deixaria de existir porque seu modelo de negócios não parava em pé. Desde o “dia um” o Quibi mostrou números pouco animadores. E parte da culpa pode ser colocada na pandemia. Especializada em vídeos de até dez minutos – disponíveis apenas para smartphones, para serem vistos enquanto as pessoas se deslocavam -, a companhia chegou ao ar num momento em que os consumidores não podiam sair de casa e tinham tempo para conteúdos longos.
A pandemia pode ter contribuído para o ocaso do Quibi, mas, segundo várias fontes, não foi a única. O serviço chegou a angariar quase 2 milhões de usuários. Porém, após o período de teste, 90% das pessoas desistiram da proposta. Além disso, Katzenberg e Whitman não levaram em conta outra tendência do streaming: a propriedade do conteúdo.
O Quibi atraiu talentos como Steven Spielberg e Kevin Hart, mas licenciava suas séries. E, mais importante de tudo, a tese de negócios era frágil: será que, realmente, as pessoas queriam ver vídeos curtinhos, como no YouTube, e pagar por isso (US$ 8 na versão sem publicidade e US$ 5, com comerciais)?
Cortes
O Quibi pode ter tomado a medida mais radical ao encerrar suas operações, para estancar a sangria de investidores que aportaram US$ 1,7 bilhão no app, mas não é o único serviço de conteúdo a cortar custos neste momento. Dois dos maiores provedores de conteúdo no setor – Netflix e WarnerMedia, dona do HBO Max – reduziram estruturas e cargos executivos nas últimas semanas.
A Netflix, aliás, teve um raro momento negativo na semana passada, quando viu suas ações caírem ao anunciar que adicionou 2,2 milhões de novos usuários no mundo no terceiro trimestre – resultado abaixo das expectativas de analistas, que projetavam 3,4 milhões. Hoje, a Netflix tem 195,2 milhões de usuários globalmente.
A WarnerMedia demitiu vários executivos, cortando diversas posições no topo da organização. O HBO Max, serviço de streaming lançado em maio, atingiu 28,7 milhões de usuários nos EUA, segundo o The Hollywood Reporter. Contando os clientes da HBO ainda restritos à TV a cabo, o total de assinantes é de 38 milhões no país, superior à meta de 36 milhões inicialmente estabelecida para o ano. Analistas afirmam que o resultado é positivo, mas não extraordinário. O total de usuários da HBO (cabo e streaming) é de 57 milhões no mundo.
E a competição na arena do streaming não para de crescer. Após ser lançada com êxito nos EUA e na Europa, onde já acumula 60 milhões de usuários, a Disney+ chega ao Brasil no próximo dia 17. Outro serviço de streaming, o Pluto, desembarca por aqui em dezembro. Nessa arena competem ainda Starz, Paramount+ e MGM, além de outra gigante, a Amazon.
Em um cenário em que será preciso disputar o bolso do consumidor, a morte do Quibi, idealizado por dois gigantes do mundo corporativo e festejado antes de seu lançamento, é um sinal de alerta. Mostra que mesmo os mais poderosos podem errar e ficar pelo caminho.
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