*Paulo Argollo

Hoje fui, sem querer, confrontado com uma questão perturbadora: o destino dos livros já lidos. Fui almoçar com os meus pais e minha mãe comentou sobre um livro que ela ficou interessada em ler, título que já li e tenho guardado em casa. Ela disse ainda que pesquisou sobre o livro na internet, pois dependendo do valor ela compraria, e acabou constatando que trata-se de um livro consideravelmente raro, só se acha usado e por um valor alto, mais de cem reais. Passamos a falar sobre vender livros já lidos, ou doar para incentivar a leitura, bem como os guardar, formando uma bela biblioteca, dessas que as pessoas se posicionam na frente para fazer videoconferências.

Tem três coisas sem as quais eu não vivo: discos (leia-se vinil), filmes e livros. Porém, pensando friamente, das três a única que faz sentido de verdade ter uma coleção vasta em casa são os discos. Veja, eu não sou avesso à tecnologia, pelo contrário. Acho ótimo e a utilizo muito. Estou ouvindo música no Spotify enquanto escrevo, por exemplo. Mas ainda não se inventou nenhuma plataforma que substitua o prazer de ouvir um disco na vitrola. Admirar a capa, tirar a bolacha, dar aquela limpada com cuidado antes de colocar no prato, suavemente colocar a agulha… é uma experiência muito única. E eu entendo quem não tem essa relação com a música. Principalmente na turma mais nova, que já cresceu ouvindo música no computador. Já com os filmes não rola esse apego. Antes de aparecer Netflix e outras plataformas de streaming, eu tinha (ainda tenho, confesso) uma coleção de DVDs com meus filmes favoritos. Assim como os discos, eu costumo rever muita coisa. Até faz sentido ter uma coleção de filmes quando se tem esse hábito, tipo “Putz, que vontade de rever o Bons Companheiros pela enésima vez.” Mas como com o DVD não tem essa coisa mais física da capa grande, um cuidado pra colocar pra rodar, a plataforma de streaming acaba substituindo muito fácil a coleção de DVDs.

Já os livros são diferentes em tudo. Primeiro que não são obras que você revisita frequentemente. São mais longas, normalmente consumidas por dias, semanas, meses até, dependendo do tamanho e do ritmo de leitura de cada um. Então, o comum é acabar de ler um livro e começar outro novo, muito raramente acontece de pegar algum livro já lido pra reler. Estou falando aqui pela minha experiência. Não é regra. Até porque eu sei de gente que lê dois, três livros paralelamente. Aí facilita de acontecer essa coisa de reler livros com frequência. Enfim, guardar livros já lidos tem essa desvantagem de não serem sempre requisitados. Vão ficar lá na prateleira. Ter várias prateleiras de livros em casa é esteticamente bacana, não dá pra negar. Além de bonito de se ver, traz esse charme da intelectualidade. Mas para quem mora numa casa pequena, sem muito espaço, como eu, isso é um pouco complicado. Se não dá pra guardar, vem esse dilema: vender ou doar. Se for pensar mesmo, o certo é doar. A gente já vive numa sociedade que não estimula a leitura, pra piorar temos um governo que derruba o imposto sobre armas de fogo, mas aumenta em mais de 10% os tributos em cima de livros, ou seja, fica mais caro, mais inacessível. Também tem a tecnologia. Os ebooks e tal. Mas não vou nem entrar nisso, porque é um formato que eu não consegui me adaptar, não me esforcei para tal, admito, e não posso opinar sobre prós e contras.

De qualquer forma, acho legal doar, mas de forma cuidadosa. Tenho a impressão que quando você doa uma caixa cheia de livros aleatórios para uma biblioteca ou qualquer tipo de entidade ligada a educação, esses livros vão ficar lá pegando poeira, porque, no fim, a molecada não é estimulada a ir lá pegar um livro pra ler. O que eu faço é doar para determinadas pessoas à medida que percebo que tenho um livro em casa que já li e que vai de encontro aos seus interesses.

Acho que vender é uma opção legal numa combinação de fatores. Se você identificar que o livro é realmente raro e tem um valor alto. Pra colocar um livro à venda por vinte, trinta reais, prefiro doar, pelo menos não tem que ficar nessa de conferir transferência bancária, ir no correio… De 50 pilas pra cima a coisa já começa a valer a pena. Outro fator que pesa muito pra mim é a relação que eu tenho com o livro, autor ou assunto abordado. Por exemplo, a autobiografia do Pete Townsend, do The Who, é um livro incrível, uma delícia de leitura, é um cara que eu admiro demais, guitarrista de uma das minhas bandas favoritas… não vou me desfazer deste livro por nada. Mesmo que eu não volte a pegá-lo pra ler, é um livro que eu quero ter em casa guardado.

No fim, não cheguei a conclusão nenhuma e sigo acumulando livros. Muito de vez em quando acaba acontecendo de eu dar um livro meu de presente pra alguém, no esquema dito acima, de conversar com a pessoa, identificar um interesse e falar “Pô, tenho um livro que fala sobre isso. Se quiser eu te dou.”. Mas, de maneira geral, realmente sigo acumulando livros. Alguns na minha casa, outros, mais antigos, estão na casa dos meus pais, e segue a vida. Quem sabe um dia eu não tomo coragem de dar uma peneirada nesses livros e arranjar um bom destino para os que eu resolver não guardar ?

E você, já pensou no que fazer com os livros que tem aí na sua casa já lidos?

HOJE EU RECOMENDO
Disco: Hijos del Sol
Artista: Los Cogelones
Ano de lançamento: 2020

Descobri essa semana por acaso no Spotify. Banda mexicana interessantíssima que usa a linguagem do punk rock para resgatar as tradições indígenas daquela região, resultando numa sonoridade muito peculiar! Recomendo demais a audição.