Almanaque+

República do quase lá!

(Paulo Argollo)

O Brasil é um país incompleto. É o país do quase lá, o país do depois a gente vê. A nossa história deixa isso muito claro. Neste domingo celebramos os 131 anos da Proclamação da República Brasileira. Como todos os eventos importantes da nossa história, a Proclamação da República é uma passagem envolta em contradições e muitos fatos maquiados e distorcidos.

A primeira contradição é que a República representa a liberdade do povo, a democracia instaurada para que a sociedade escolha seus governantes. Mas a nossa se deu através de um golpe militar, com o presidente escolhido de maneira indireta, sem eleição popular, desses que não tem nada a ver com democracia. Mas tudo bem, enfim nos livramos dos grilhões da monarquia e do jugo, ainda que indireto, da coroa portuguesa.

Após anos de profunda crise econômica, a elite brasileira, formada pelos barões do café de São Paulo e Minas Gerais, que já manifestava ideais republicanos desde os anos 1870, incentivou o exército, que estava dividido entre os legalistas conservadores e a mocidade científica, a se levantar contra o imperador.

A primeira ala, dos legalistas conservadores, era formada por velhos generais sisudos; a segunda, mocidade científica, era de jovens estudiosos que acreditavam na ciência e conhecimento para construir um país melhor, um pensamento positivista. Mas eles tinham em comum o descontentamento devido aos baixos soldos e salários e o desinteresse do império pelas forças armadas, que já tinha sua imagem manchada pelos massacres da Guerra do Paraguai.

Em 1889, a imprensa era uma terceira força poderosa a pressionar o exército, exigindo a queda do imperador. O principal nome na imprensa republicana era Quintino Bocaiúva, que mantinha contato direto e frequente com os dois mais importantes líderes do exército: o marechal Deodoro da Fonseca e o coronel Benjamin Constant.

Constant era republicano declarado, porém Deodoro da Fonseca era tido como monarquista, inclusive considerava Dom Pedro II um amigo.

No início de novembro daquele ano, ao ser mais uma vez pressionado por Bocaiúva e Constant, o marechal teria dito: “Não posso. O imperador é meu amigo, devo-lhe favores!”. Depois de muita conversa, ficou decidido que, no dia 15 de novembro, o exército se levantaria e marcharia pela capital para derrubar o ministro-chefe de gabinete do império, o Visconde de Ouro Preto, tido como corrupto. Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva e outros conspiradores afirmaram para o Marechal Deodoro da Fonseca que seria essa a ação. Nada de derrubar o imperador e instaurar a república. Só derrubar o ministro-chefe.

Deodoro da Fonseca, alagoano de origem, estava desde os 16 anos de idade no exército. Lutou em algumas das revoltas nordestinas, como a Praieira, de Pernambuco, atuou na guerra do Paraguai e entrou para a política no início dos anos 1880, quando foi presidente da província do Rio Grande do Sul (cargo equivalente ao governador do estado).

Foi nessa época que Deodoro se tornou inimigo de um proeminente político gaúcho, Gaspar Silveira Martins. Dez anos depois disso, Fonseca já estava estabelecido no Rio de Janeiro e foi um dos responsáveis por unificar o exército, dividido entre conservadores e científicos, era considerado um grande líder e principal nome para assumir o poder. Pois bem, naquela manhã de 15 de novembro de 1889, o marechal marchou com os seus homens até o campo de Santana, declarou deposto o Visconde de Ouro Preto e voltou pra sua casa.

O fato é que o Deodoro da Fonseca estava muito doente já fazia quase um mês. Não se sabe bem o que era, se foi uma gripe muito forte ou algo pior, mas o fato é que ele estava de cama há semanas. Naquele 15 de novembro, ele ainda se sentia mal, levantou cedo, derrubou o ministro-chefe logo pela manhã e voltou para a cama. De tarde, ele recebeu em sua casa Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva e um ou outro oficial que participava da conspiração. Chegaram lá e disseram para o marechal: “Marechal, o senhor não imagina quem foi colocado no lugar do Visconde de Ouro Preto!”. O marechal com a voz fraca, de pijamas diz: “Quem?”. E eles: “Aquele pulha do Gaspar Silveira Martins!”.

Deodoro ficou louco de raiva! Porque desde os tempos do Sul eles não se davam bem e, pra piorar, Deodoro morria de raiva do Silveira Martins porque este havia conquistado uma mulher por quem ele, Deodoro, estava muito interessado na época. Indignado, em sua cama, de pijamas, o marechal Deodoro da Fonseca então declara: “Pois digam ao povo que a República está feita!”.

Acontece que era mentira! Gaspar Silveira Martins não tinha sido colocado no lugar do Visconde de Ouro Preto. Ninguém tinha. A vaga ainda estava vazia. Mas com a declaração do marechal, os demais conspiradores já tinham o que precisavam. Fez-se a república! Aposto que não era assim que você imaginava nossa heróica proclamação da república, né? Mas foi assim. Mas calma que melhora.

O marechal Deodoro da Fonseca ficou desconfortável coma situação toda, relutava em aceitar assumir a presidência do país. Assim, ficou acertado que a decisão final seria tomada pelo povo, que até ali assistia aquele entra e sai dos quartéis e prédios do governo sem entender nada. Afinal, como um bom golpe militar, a opinião do povo não contava muito e não houve uma conclamação popular. Mas, enfim, ficou resolvido que aquela seria considerada uma república provisória, e que em breve seria convocado um plebiscito para que a população votasse se preferia a monarquia ou a república.

Eu falei lá em cima que o Brasil é um país incompleto, o país do depois a gente vê, o país do quase lá. É o país do mandou dizer!

Perceba que nos principais momentos da história do país o povo foi coadjuvante, mero espectador passivo. É sempre “Diga ao povo que fico!”, “Diga a minha guarda e ao povo que estamos separados de Portugal.”, “Digam ao povo que a república está feita.”. Mas é claro que o poder de escolha foi dado ao povo! Lembra do plebiscito que o Deodoro da Fonseca prometeu? Então, claro que ele foi realizado! Sabe quando? Em 1993! 1993! 104 anos depois da proclamação da república! Nós vivemos 104 anos de uma república provisória! Cada um que entrava no poder levava adiante a política do depois a gente vê isso, vamos dar um jeitinho…

A nossa história explica muito bem o nosso presente. É triste, vergonhoso até. Conhecer a nossa história deixa claro que mudar o presente vai ser muito difícil, mas o futuro dá pra mudar. Dá pra mudar tendo conhecimento, consciência, mudando comportamentos e mentalidades retrógradas.

Neste dia 15 de novembro você tem uma ótima oportunidade de começar essa mudança. Assim como a nossa independência, a proclamação da república não deve ser exatamente comemorada, mas é fundamental que ela seja lembrada e estudada, seja usada como exemplo de que é preciso mudar, mas há de se pensar bem como fazer tais mudanças.

Por fim, digam ao povo que semana que vem eu volto.

Legenda: Governo Provisório de Deodoro da Fonseca (1889-1891): Rui Barbosa (Ministro da Fazenda), Quintino Bocaiúva (Ministro dos Negócios Estrangeiros), Eduardo Wandenkolk (Ministro da Marinha), Campos Sales (Ministro da Justiça), Benjamin Constant Botelho de Magalhães (Ministro da Guerra), Aristide Lobo e Cesário Alvim (Ministro do Interior). Pintura de Rodolfo Amoedo, década de 1890. Palácio Itamaraty, Rio de Janeiro.

HOJE EU RECOMENDO

Livro: Brasil – Uma História

Autor: Eduardo Bueno

Editora Leya

Os livros e o canal no Youtube do Eduardo Bueno são uma das minhas principais fontes de conhecimento sobre história do Brasil. Este livro, em especial, vai do descobrimento até o segundo mandato do Lula. Um livro grande, mas delicioso de se ler e repleto de surpresas e fatos desconhecidos e interessantes da nossa história, como os que você leu hoje aqui.

Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Para cima