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Será que a vacina abrirá as portas dos eventos?

Mesmo que bem devagar, a vacinação contra a covid-19 teve início no Brasil. Conforme o site Our World in Data, até esta quarta-feira (27) tinham sido imunizadas com a primeira dose da vacina cerca de 900 mil pessoas – os grupos prioritários (trabalhadores da saúde, idosos, pacientes com comorbidades, indígenas, professores, forças de segurança e salvamento e funcionários do sistema prisional) são compostos por 50 milhões de pessoas, que demandam 108,3 milhões de doses de vacina, já incluindo 5% de perdas, de acordo com informações da Agência Brasil.Ou seja, o negócio vai longe…

Enquanto isso, estados e municípios vão contendo a pandemia como podem, e entre as ações mais comuns está a proibição de eventos de qualquer segmento.

Setor mais prejudicado durante o ano de 2020, teve um impacto de 98% em suas atividades, eliminando cerca de 1,5 milhão de postos de trabalho.

Quem sentiu esse prejuízo na pele foi Luiz Menon, produtor de eventos em Pato Branco. “Faltou empatia das administrações. Um ônibus lotado pode circular, mas um evento com mesas e distanciamento não podia acontecer. Não sei se é falta de conhecimento ou maldade mesmo”, avalia.

Outra coisa apontada por Menon é que “ficou muito perceptível que os eventos foram uma espécie de ‘bode expiatório’, porque só eles não puderam acontecer. Foi uma forma de ‘faz de conta’ que estavam fazendo algo [para conter a pandemia] com a proibição de realizá-los, gerando uma falsa sensação de segurança e mostrando uma verdadeira falta de competência”.

No entanto, de acordo com José Roberto Sevieri, vice-presidente da Associação Brasileira dos Dirigentes de Vendas do Brasil (ADVB), que promove feiras em todo o país, a vacinação abre a esperança de dias melhores. “Com o início da vacinação, é possível sentirmos a melhora do quadro atual. Após três meses, ou seja, a partir de maio de 2021, certamente o impacto sobre a sociedade estará menor, com menos pessoas contaminadas, em tratamento e óbitos por Covid-19”, opinou, em artigo.

Mesmo que os eventos já estejam liberados em grande parte do território nacional, para ele, “falta confiança, por parte dos visitantes e expositores, em colocar os mesmos em pé, gerando nova onda de cancelamentos e adiamentos, mas deverá ganhar corpo a perspectiva de que a vitória da tecnologia sobre a doença estará cada vez mais próxima”, acredita.

Contudo, segundo sua intuição, a vacinação fará toda a diferença para a confiança voltar. “Trará de volta a visitação para as feiras, os congressistas para os eventos de auditório e certamente, mês a mês, os resultados serão melhores, até se atingir a normalidade a que estávamos acostumados”, aposta.

Hibridez

Eventos on-line devem seguir anexados aos presenciais, acredita Savieri

Para Sevieri, tudo indica que algumas tecnologias inseridas durante a pandemia devem continuar, como as lives, os webinars, os híbridos e as feiras on-line. “Serão anexadas aos eventos presenciais, que terão ainda mais janelas de exposição para o público interessado, com mais audiência e certamente mais resultados para todos os participantes”, diz.

A dica que ele dá para os organizadores de eventos é que ponham s baterias para recarregar, para chegarem a 100% de carga, pois teremos muito a realizar pela frente. “O futuro próximo será excelente e virá, de forma crescente, a partir de maio de 2021”, diz.

Já Menon diz que podem existir inúmeras formas on-line, mas nenhuma consegue substituir um evento presencial. “Um show, um teatro, seja como for, o ser humano depende de sociabilidade, interatividade com outras pessoas. O ‘novo normal’, para mim, seria anormal, pois nada substitui o presencial, onde histórias são contadas e outras são criadas, gerando todas as boas lembranças que sempre começam em um bar, em um show, em uma peça de teatro”, defende.

Medidas sanitárias

Jocemar Baroni, proprietário da Atalaia Eventos e Floricultura, faz parte do Comitê Municipal pela contenção da pandemia desde abril de 2020 representando a categoria. “Estamos lutando pelo nosso setor, que está esquecido e desassistido pelas autoridades locais, mas já tivemos momentos piores. Tivemos alguns diálogos, mas sem progresso”, diz.

Baroni conta que estabeleceram, junto ao Sebrae, protocolos de segurança e, quando conseguiram a liberação para voltar a atuar, com eventos pequenos, de forma segura e seguindo protocolos, vieram as eleições. “As campanhas políticas não seguiram nenhum protocolo de segurança e o resultado foi que o número de contaminados estourou. No Comitê, temos acesso aos gráficos que marcam o desenvolvimento da doença em nossa cidade. Eles apontam que, em feriados, os números explodiam, mas nem se compara com o período eleitoral. E quem pagou por isso foi justamente o setor de eventos, que voltou a ser impossibilitado de trabalhar”.

Conforme ele, o que mais chama sua atenção é que sempre ouve que é justamente o seu setor de atuação o responsável pela propagação do vírus. “Mas nós não estamos trabalhando, então isso não é verdade. Temos ciência que a doença está aí e que precisamos nos cuidar, mas ao mesmo tempo vemos que essa restrição não é pra todos os setores”, desabafa.

Reunindo-se com outros empresários do ramo para discutir sobre a situação, todos demonstram a vontade de retornar as atividades seguindo o protocolo desenvolvido pelo Sebrae. “Mas dependemos dos decretos e normativas do Estado. Sabemos que vai ter uma mudança no próximo dia 31, não sabemos o que vai acontecer. Também não sabemos sobre a eficácia da vacina, depois de quando tempo as festas poderão voltar ao normal, tudo é uma incógnita”, lamenta. “Continuamos sendo um setor muito castigado, sem muita perspectiva de mudanças e sem visibilidade das autoridades competentes”.

Paralelo a isso, ele lembra que os eventos clandestinos continuam acontecendo. “Sabemos que a prefeitura não tem condições de fiscalizar todos esses eventos. As pessoas só vão respeitar as regras quando os espaços forem interditados. As normativas deveriam ser iguais para todo mundo, e isso não está acontecendo”, defende.

Sobre a vacina, ele diz que não sabe o que dizer. “Não sabemos da eficácia, quando teremos quantidade suficiente para vacinar em massa, nem como serão os moldes depois disso, como as pessoas vão se comportar em uma festa depois de serem vacinadas – já que sabemos que não é tudo que pode –, então continuarmos sem previsão de volta e sem posicionamento de autoridades. Nem os infectologistas sabem o que vai acontecer. Seguimos esperando dia após dia, só pedindo que as normativas sejam para todos os setores para que eles tenham o mesmo comprometimento”.

O empresário conta que, no último ano, viu o investimento de anos parado, e que não tem mais estrutura para suportar a crise. “Tive que fazer a rescisão de nove funcionários. Enquanto não houver comprometimento de todos os setores, não vamos conseguir voltar a trabalhar”, pensa.

Tempo e organização

Joce diz que os eventos precisam de tempo para serem organizados em cima de orçamentos. “Mesmo seguindo os protocolos, se os casos aumentam, os decretos mudam e temos que cancelar o que passamos meses organizando. Os clientes não querem correr esse risco”, fala.

Por isso, para ele, é necessário que o setor seja possibilitado de trabalhar, já que segue todas as normativas, assim como bares, supermercados, farmácias e restaurantes, que se mantém abertos.

Frequentadores

E para quem frequenta os eventos, será que os virtuais deram conta do recado? Fizemos essa pergunta aos nossos leitores, veja o que responderam:

Juliane Baseggio, cantora
“Dentre tantos eventos virtuais que participei, o mais fenomenal foi um espetáculo da Barca dos Corações Partidos, em homenagem a Jackson do Pandeiro, feito no palco do Teatro São Paulo e transmitido ao vivo. Achei emocionante, hipnotizante. Porém, foi de uma companhia grande e reconhecida em um teatro igualmente preparado. Vislumbro que essa qualidade praticamente foi impossível em todos os outros eventos que assisti online. Enfim, prefiro presencial”

Sharon Caleffi, funcionária pública
“Os encontros do Leia Mulheres Pato Branco foram online em 2020. Não consegui participar de todos porque estava grávida e tive bebê, mas os que consegui assistir foram muito bons. Cumpriram a função. Só que não tem nada melhor que olho no olho, cara a cara. Acho que as conversas são bem melhores com o grupo reunido fisicamente”.

Caroline Vieira Neves, acadêmica
“Participei de muitos congressos e eventos e foi bom, pois presencial seria difícil participar. Mas percebo que o meio online não é fácil, precisa de tempo, de organização para fluir melhor. Não é simplesmente criar uma live de 5 horas ou de 10 minutos. É pensar em um conteúdo que traga uma discussão legal, sendo apresentada de forma ‘criativa’. Não é fácil!”

Cíntia Matos, tatuadora
“Me despertou muito o interesse em consumir conteúdos online. Desde então tenho participado de todas as imersões possíveis, maratonas, aulas online, lives, e a plataforma que mais uso e me identifico é o Instagram. Viva a Era digital! Experiências maravilhosas, quanto conhecimento girando, só resta aproveitar! E aprimorar a minha criação de conteúdo também”.

Eduardo Cabral, engenheiro mecânico
“Eu gosto de corrida de carro, e hoje automobilismo virtual é muito popular. Mas assistir corrida virtual eu não consegui nem por 3 minutos. O que vem antes das corridas, as mulheres bonitas no grid, os carros aquecendo os motores, a tensão de tudo dar certo e estar pronto para a largada é uma parte muito relevante da coisa toda”.

Hugo Raele, contador
“Eu joguei muito RPG on-line na pandemia, bem nerd. Tinha um certo preconceito com isso, mas hoje em dia o presencial e online tem o mesmo divertimento. O mundo é o limite”.

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