Setor aéreo se une e faz investida para acelerar retomada de viagens

“Como indústria nós já choramos muito. Agora é tempo para olhar para frente e vamos voar”, disse, enfaticamente, o presidente da Azul, John Rodgerson. A fala resume bem o evento promovido, na última semana, pela Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav), que contou com a presença dos executivos das principais aéreas do País: Gol, Azul, Latam e Voepass. Depois do pior da pandemia, em abril, a procura por transporte aéreo tem se recuperado mês a mês. A demanda, segundo os executivos, existe sobretudo diante de um mercado com preços mais baixos para os bilhetes por causa do excesso de oferta. O desafio agora é convencer o passageiro a voltar a voar.

Segundo o presidente da Gol, Paulo Kakinoff, o setor hoje conseguiu retomar voos para cerca de 90% dos destinos no País. “O feriado de 7 de setembro foi um divisor de água para todo mundo”, disse. Kakinoff afirmou que, na Gol, foi registrada uma demanda em torno de 60% e 70% para o feriado na comparação com igual período de 2019. “O número de vendas está em crescimento. A receita não acompanha porque as tarifas estão mais baixas. Estão vamos fazer essa tarifa baixa ser o motor para a retomada”, disse.

Rodgerson, CEO da Azul, destacou que o setor já chorou muito e agora é o momento de por a mão na massa. “Estamos com UITS com baixa ocupação. Ninguém nunca falou que vamos voar apenas com vacina. Baixamos a curva (de novos casos), temos sistema de saúde mais tranquilo. Agora é tempo para olharmos para frente e vamos voar. O país precisa da aviação”, disse, destacando que a cada mês o setor se sente mais confiável em elevar a oferta de voos.

O presidente da Latam Brasil, Jerome Cadier, apontou que a retomada ainda traz desafios. O primeiro deles, o de liquidez, começou a ser vencido com a volta do passageiro. Agora, as aéreas precisam conseguir encontrar um ajuste fino na oferta de voo sem sacrificar as margens.

“Existe um excesso de capacidade na indústria que é mundial. O excesso de capacidade tende a pressionar os preços, que estão mais baixos para atrair as pessoas de volta. Precisamos ser muito eficientes para conseguir desenhar o nível de preços que vai sustentar a retomada”, explicou.

A aposta ainda é no turismo local. A demanda por voos no mercado doméstico do Brasil (medida em passageiros quilômetros pagos, RPK) apresentou queda de 67,5% em agosto na comparação com igual mês de 2019, segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Apesar do recuo, o setor mostrou recuperação pelo terceiro mês consecutivo, depois do pior da crise, em abril.

No lado internacional, entretanto, a demanda apresentou queda de 92,1% no mês. A volta do mercado internacional é mais desafiadora, sobretudo na América Latina, em que muitos países mantêm até hoje restrições severas ao tráfego aéreo.

Outra reconfiguração do mercado é o desaparecimento da demanda corporativa, fundamental para as aéreas. Segundo o presidente da Gol, hoje cerca de 90% dos passageiros viaja à lazer. Não há cenário de quando – e se – a demanda voltará totalmente, principalmente com a popularização de reuniões online.

Cadier, da Latam, destacou que hoje o setor tem uma demanda reprimida grande. “A demanda não está sendo reativada por causa de dúvidas dos clientes sobre segurança e contágio. Toda a cadeia se mobilizou e flexibilizou, por exemplo, as alterações de voo”.

Segurança

O início da pandemia foi marcado por dúvidas de todos os lados e, no setor aéreo o cenário não foi diferente. Kakinoff destacou que com o passar dos meses o setor conseguiu comprovar sua eficiência e segurança através de números. Levantamento da Gol mostra que foi registrado 1 teste positivo para o covid-19 entre os tripulantes para cada 1156 decolagens (levando em conta a tripulação que voou até 30 horas por mês).

Por causa da pandemia, a Voepass suspendeu suas operações por 102 dias, com início no dia 18 de março. Desde a volta foram mais de 3 mil horas de voo sem nenhum registro de contaminação na tripulação, disse o diretor Executivo da Voepass, Eduardo Busch. A empresa, que operou 47 destinos antes da pandemia, hoje está em 33 e pretende fechar outubro com 35.

Já o presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Eduardo Sanovicz, ressaltou os esforços do setor para conseguir promover um transporte seguro. “O papel da Abear nesse processo, fundamentalmente na retomada da segurança, foi debater e articular com a Anac, aeroportos, com toda a cadeia produtiva, para que, tanto do ponto de vista nacional e internacional, os protocolos fossem adotados”, disse.