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Sobre as filas que a gente não precisava pegar

Dia de receber a aposentadoria. Banco abre às 10h. Aposentado precisa ir pra fila às 8h? Não. Mas vai. Como não sou aposentada, não posso falar com propriedade, mas acredito que seja um momento de interação, de usar máscaras para baixo do nariz e falar da vida com os colegas. Quando você entra em uma fila por vontade própria, mesmo que reclamando, há um sentimento de pertencer àquele núcleo. Diferente de outras situações.

No fim do ano passado, o Supremo Tribunal Eleitoral fez terrorismo: quem não cadastrar suas digitais para votar nas próximas eleições será preso em cela solitária, sem direito ao voto, por vários anos. 

Ok, não foi bem assim. Mas rolou uma ameaça de cancelamento de CPF, o que praticamente significa não existir no mundo moderno. Tudo isso para obrigar o eleitor a votar em políticos ruins e corruptos, que pouco se importam com as necessidades do povo e que favorecem as demandas da sua própria classe.

Acredito que há um entendimento que, caso não seja obrigatório, ninguém vai perder tempo de sair da sua casa em pleno fim de semana, pegar uma fila gigante pra votar em outro candidato que faz tudo ao contrário do que promete. As eleições, no Brasil, reproduziriam o fracasso do seus governos, onde ninguém se importa com o coletivo.

Fui uma das pessoas que ficou 12 horas na fila para a Biometria. Sol de verão, pressão caindo, 5 reais a garrafinha de água do ambulante, falta no trabalho. As filas rodeavam o quarteirão. Os estagiários já haviam sido dispensados, só os funcionários faziam o serviço, talvez como uma forma de castigo aos que poderiam ter agendando um horário há meses, mas só se coçaram ao toque de caixa.

O poder público ama colocar o povo que não tem dinheiro em fila. Tem fila pra fazer exame, pra tomar vacina, pra conseguir auxílio. Tem fila até em aplicativo de celular de banco estatal. Parece uma espécie de deboche. “Ah, você quer que a gente reverta os impostos que vocês pagam em benefícios? Fica aí na fila, então”.   

E, quando parece que vai chegar a sua vez, ou algo dá errado ou te mandam pra outra fila. “Agora que você ficou seis meses na fila pra consulta, precisa de mais oito pra consultar com especialista. E depois mais onze pra fazer o exame. E depois mais quatro pro retorno”.

No meu caso, foi só uma fila para o cadastramento biométrico, mas já foi o suficiente. 

Enfim chegou 2020, uma pandemia, adiamento das eleições e…adivinhe? Eles descartaram o uso da biometria. Ou seja, eu gastei 12 horas do meu precioso tempo para atender uma desobrigação. 

Agora estou aqui, pensando em ir votar com um nariz de palhaço, mas os reveses são tantos que as pessoas nem saberiam sobre o que estou me manifestando. Então vou vestir minha melhor roupa, pegar mais uma horinha de fila para assinar a caneta que eu estive presente para a escolha do próximo político que vai fazer o cidadão, enquanto sociedade, retroceder alguns anos. 

No meu íntimo, no entanto, a esperança que dessa vez há de ser diferente, que essa fila, ao menos desta vez, sirva para alguma coisa que não seja mandar para outra fila.  

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