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Transtorno de linguagem: como observar déficit na comunicação das crianças?

A jornalista Karen Zelic começou a trabalhar em home office em março, no início da pandemia do novo coronavírus. Com toda a mudança na rotina, ela sentiu que o filho Enrico, de quatro anos, apresentou dificuldades na linguagem.
“Ele começou a repetir algumas palavrinhas, coisa que antes não acontecia. Ele frequenta escolinha desde o fim da minha licença-maternidade, ou seja, desde os cinco meses. Quando a pandemia chegou e ele teve que parar com tudo, certamente deu uma mexida no psicológico dele e consequentemente desencadeou uma ansiedade”, afirma.
Para a fonoaudióloga Aliaska Aguiar, mestre em Saúde da Comunicação Humana pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e doutoranda em Estudos da Criança – Especialidade Saúde Infantil, da Universidade do Minho, em Portugal, a pandemia trouxe à tona as dificuldades que antes eram passadas despercebidas pelos pais.
“O ensino remoto e a mudança nas rotinas familiares permitiram ao ambiente familiar estarem em maior contato com seus filhos. Dessa forma houve uma vivência assistida do não cumprimento de tarefas que foram desde funções de rotina diária da criança sem autonomia até os relaxamentos com deveres escolares, que colocaram a prova suas dificuldades de fala, de linguagem e das inabilidades de funções executivas”, analisa.
A especialista ressalta que todos esses desajustes preocupam os pais e responsáveis, que passaram a procurar mais atendimento clínico. Os adultos se percebem limitados no quesito estimulação dos filhos, pois precisam lidar com o home office e as tarefas dentro de casa.
Ao perceber a defasagem de fala do filho, Karen ficou com medo. “Como toda mãe, fiquei bastante preocupada. Recorri a psicóloga, fonoaudióloga, conversei com amigas que têm filhos na mesma faixa etária dele e pesquisei no Google pra entender se isso era um problema, se é normal da idade, enfim, o que eu precisava fazer para ajudá-lo. Até porque era uma coisa que ele se incomodava. Muitas vezes não conseguia formar uma frase e, antes da pandemia, ele falava certinho, claro, respeitando o vocabulário da idade, mas sobretudo não gaguejava”, desabafa.
A fonoaudióloga Aliaska Aguiar ressalta que a escola é um ambiente estimulador importante para as crianças. “Se as habilidades sociais protegem o nosso cérebro, pois a aprendizagem também ocorre através da interação social, quiçá a importância da interação social para o desenvolvimento da linguagem. Ele depende tanto de fatores ambientais quanto genéticos. Alguns domínios da linguagem sofrem grande influência da quantidade e qualidade dos estímulos aos quais a criança está exposta. O ambiente em que a criança vive influencia no seu desenvolvimento cerebral, afetando diferentes componentes cognitivos”, avalia.
A neuropsicóloga Gisele Calia ressalta que é importante diferenciar linguagem de fala: “A linguagem é um conceito mais amplo e diz respeito à capacidade de comunicação como um todo, incluindo gestos, expressões faciais e sons que não são palavras, por exemplo. Já a fala é a expressão verbal dessa linguagem, transmite ideias, expressa verbalmente emoções e desejos”.
Tanto o desenvolvimento da linguagem como o da fala na criança são processos que envolvem fatores internos, orgânicos, genéticos, mas que dependem da interação com o meio social, com outros seres falantes, para serem completos.
Linguagem na pandemia e a importância da interação com outras crianças
Gisele Calia pede para que imaginemos uma criança que não tenha ao seu redor pessoas capazes de falar ou que falem pouco, entre si e com ela. Que referências essa criança terá para desenvolver seu conjunto de palavras (vocabulário) e as relações entre elas (gramática)? “Mas, supondo um ambiente favorável ao desenvolvimento pleno da linguagem, com adultos capazes de se expressar adequadamente e que sejam bons provedores de interação linguística com uma criança, que falta faria para o desenvolvimento de sua linguagem a interação com outras crianças?”, questiona a neuropsicóloga.
Na relação adulto-criança, os pais ou responsáveis é quem detêm a capacidade de entender o filho, de se colocar no lugar dele, de corrigi-lo, de ensiná-lo, de provê-lo de conhecimentos sobre o que é ser humano, sobre o que é o mundo . A criança nessa relação é a receptora. “É naturalmente uma relação hierarquicamente desigual, ou melhor dizendo, vertical, de alguém que tem mais conhecimentos e vivências que a criança. E é necessário que seja assim. É esse adulto, ou esses adultos, que vão transmitir para a criança as regras sociais, a cultura do meio em que ela está inserida e instrumentá-la para tornar-se autônoma”, afirma Gisele Calia.
A neuropsicóloga enfatiza que a criança que se relaciona só com adultos desenvolve apenas um papel social: o de ser compreendida, o de receber. “Dificilmente ela desenvolve plenamente sua autonomia, sua capacidade de resolver seus problemas, de se colocar no lugar do outro. É na relação com outras crianças, seres humanos que se encontram na mesma fase de desenvolvimento neuropsicológico e social que o seu, que essa criança vai poder praticar o outro lado da interação, vai poder desempenhar o papel de poder ensinar algo, poderá experimentar uma relação horizontal”, diz.
Karen Zelic sente os reflexos do isolamento do filho durante a pandemia de covid-19, já que ele frequentava a escola desde pequenino: “O Enrico já passou por três escolas e todas no período integral, sempre teve bastante atividades na sua rotina”. A pandemia, com a necessidade de maior quarentena e distanciamento social, priva meninas e meninos dessa interação. Podem ocorrer retrocessos no processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem.
O que pode causar alteração de linguagem?
As causas das alterações de linguagem podem envolver aspectos genéticos, degenerativos, lesionais, ambientais e/ou emocionais. Os pais devem estar atentos aos sinais e sintomas como por exemplo: vocabulário restrito, com uso demasiado perífrases, ou figuras de linguagem, e gestos representativos, estruturação gramatical simplificada e ordenação de palavras de forma não usual.
“Para a compreensão, observam-se dificuldades em entender sentenças ou palavras específicas como marcadores espaciais ou temporais, realização de comandos linguísticos de forma incorreta, respostas incorretas sob questionamento e dificuldade em manter o tópico de conversação”, enumera Aliaska Aguiar.
A jornalista Karen Zelic buscou ajuda profissional quando se deparou com a dificuldade de comunicação do filho. “Eu identifiquei esta gagueira dele em abril e comecei a passá-lo na psicóloga em junho, uma vez por semana, e na hora do meu almoço, para conseguir conciliar com o horário do meu trabalho. O meu marido poderia estar com ele virtualmente na terapia, mas eu fazia questão de estar para acompanhá-lo mais de perto. Estava realmente aflita”, desabafa.
Aliaska Aguiar enfatiza que a idade em que uma criança começa a falar é um marcador comportamental de atraso. Ela geralmente produz as primeiras palavras entre 10 e 15 meses de vida. “Assim, espera-se que aos cinco anos ela já seja capaz de produzir todos os sons da língua corretamente. Caso isto não ocorra, deve-se estar atento ao que chamamos de Transtornos de Desenvolvimento da Linguagem, que são aqueles quadros que apresentam desvios nos padrões de normalidade para a aquisição da linguagem desde suas etapas iniciais”, afirma.
Entretanto, a fonoaudióloga acrescenta que mesmo crianças no padrão esperado variam amplamente na idade na qual iniciam a aquisição da linguagem falada. “Transtornos de Desenvolvimento da Linguagem podem influenciar no aprendizado de competências sociais e acadêmicas da criança. A identificação precoce possibilita também uma intervenção rápida, contribuindo para minimizar o agravamento e a persistência de alterações”, diz Aliaska.
Dicas para os pais
Para crianças com idade entre 1 a 5 anos, o crescimento e o desenvolvimento físico, cognitivo, linguístico e socioemocional ocorrem em ritmo acelerado. Embora todas nesta faixa etária possam não alcançar marcos de desenvolvimento (por exemplo, sorrir, dizer as primeiras palavras, dar os primeiros passos) ao mesmo tempo, o desenvolvimento que não acontece dentro de um prazo esperado pode levantar preocupações sobre transtornos do desenvolvimento, condições de saúde ou outros fatores que podem impactar negativamente o desenvolvimento da criança.
As primeiras palavras são adquiridas com aproximadamente 12 meses de vida, após períodos de aumento gradual e lento de vocabulário e períodos de “explosão de vocabulário”. Este é um marco de desenvolvimento importante e vai ocorrer aos 18 meses, com o domínio de 50 palavras.
A pedido da reportagem do Estadão, a fonoaudióloga Aliaska Aguiar e a neuropsicóloga Gisele Calia indicaram alguns conselhos aos pais que identificarem atraso de linguagem ou da fala nos filhos durante a pandemia do novo coronavírus e o isolamento social.
1 – Avaliação precoce de crianças: a observação dos pequeninos ajuda o desenvolvimento saudável e pode identificar potenciais problemas ou áreas que necessitem de avaliação adicional;
2 – Note o uso de gestos: em crianças bem pequenas, o uso de gestos e desenvolvimento da linguagem têm uma relação estreita. Os gestos são bons preditores do futuro tamanho do léxico, ou seja, do conjunto de palavras adquiridas;
3 – Evite exposição excessiva da criança aos programas de TV e vídeos em geral: não necessariamente ouvir desenhos falando ou mesmo pessoas na tela falando ajuda, pois não permite a interação real, pelo contrário, intensifica a passividade. Quem fala, além de falar sempre de forma já programada, é uma imagem na tela e não outro ser humano real e semelhante à criança. A imagem não vai se importar se ela virar de costas, se ela a ignorar, a imagem não vai reagir às suas interações;
4 – Não antecipe o que a criança quer falar ou não adivinhe seus desejos sem que ela se esforce um pouco: aceitar facilmente um gesto como apontar o copo ao invés de pedir água, só olhar ou sorrir na direção da criança ao invés de verbalizar algo que esteja reprovando ou aprovando, repreender uma fala que não esteja na forma correta são atitudes que podem desestimular o desenvolvimento da linguagem;
5 – Use e abuse de música no ambiente em que a criança esteja, seja infantil ou não, instrumental ou com letra, de vários estilos diferentes: vários estudos têm comprovado a eficácia da música para o desenvolvimento da linguagem. Há inclusive uma teoria que diz que na nossa evolução como seres humanos, antes de desenvolvermos a linguagem, nós primeiro cantarolamos, ou seja, a linguagem seria posterior à capacidade de cantarolar;
6 – Sempre leia para a criança: os livros auxiliam no desenvolvimento da imaginação, no aprimoramento da capacidade de se colocar no lugar dos personagens, no aumento do vocabulário, na troca afetiva entre quem lê e a criança;
7 – Escute a criança: reserve um tempo para observá-la, para ouvir seus sons, não a sufoque com um discurso muito longo, repleto de palavras e significados que talvez ela não alcance. Isso pode intimidá-la;
8 – Valorize as expressões que a criança fizer, suas tentativas de comunicação: o elogio amplia a possibilidade de ela tentar mais e mais;
9 – Faça perguntas genuínas e espere as respostas: O que quer comer? O que está sentindo? De que você quer brincar? Se ela não conseguir responder, procure dar opções: prefere arroz ou macarrão? Está com medo? Está com sono? Quer brincar com o carrinho ou com a bola?;
10 – Se possível, propicie situações que ela tenha contato com outras crianças: não planeje demais a interação, deixe que brinquem mais livremente. A brincadeira é o melhor estímulo para o desenvolvimento da linguagem.
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