(Paulo Argollo)

Por esses dias, escrevi um texto bem legal sobre a suposta rivalidade entre os Beatles e os Rolling Stones. Rivalidade esta que de fato nunca aconteceu. Os caras eram todos amigos, se davam bem, e até colaboravam profissionalmente uns com os outros. Mas essa questão sobre a rivalidade e uma incansável parcela da humanidade que insiste em perguntar qual das duas bandas é melhor persiste até hoje. Acabei concluindo que isso acontece porque simplesmente são duas bandas incríveis e a gente adora uma boa disputa. E essa disputa é um a desculpa deliciosa pra ir remexer na história e na obra dessas bandas.

De minha parte, não me atrevo a dizer quem é melhor que quem. Mas amo os Beatles incondicionalmente. Adoro o som dos Stones, em especial os discos da década de 70, mas nem se compara ao amor que tenho pelos rapazes de Liverpool.

Por toda a minha vida, desde adolescente, quando passei a gostar pra valer da banda, meu beatle favorito é o Paul McCartney. Continua sendo, inclusive. Mas acontece que de uns anos pra cá minha convicção vem sendo abalada, pois cada vez que leio alguma coisa ou paro pra pensar sobre o John Lennon, sentimentos confusos se misturam e me cativam. Inquestionavelmente, Paul McCartney era o mais competente e criativo músico dos quatro. Sua devoção à música é louvável, ele sempre teve posicionamentos sociais e políticos dignos. Do início dos Beatles até hoje, a trajetória de Paul sempre foi consistente e retilínea.

John Lennon, ao contrário, teve uma vida caótica. Era um compositor brilhante, mas musicalmente limitado. Era temperamental, se metia em brigas, bebia e consumia drogas sem muita moderação, mas não tinha medo de se expor para se posicionar contra o que considerava errado. Tinha um lado desprezível de ser agressivo com sua primeira esposa, Cynthia Powell, mas depois parece ter encontrado certa paz ao lado de Yoko Ono e militou ferrenhamente ao lado dela pela liberdade de expressão e pela paz mundial. Ou seja, um personagem completamente contraditório, carismático e um grande artista. Apesar de boa parte das músicas que eu mais gosto dos Beatles serem composições do Paul, John tem algumas pérolas imbatíveis, realmente geniais.

Em sua carreira solo, John Lennon parece ter entendido melhor o rock n’ roll. Apesar de sua obra solo ser inconstante, John cunhou algumas pedras fundamentais da década de 70 traduzindo a simplicidade melódica e guitarras sujas do rock. I Don’t Wanna Be a Soldier, Mama, I Don’t Wanna Die, Gimme Some Truth, Cold Turkey, Woman Is The Nigger of the World… olha, é muita coisa boa. John Lennon produziu muito e deixou muito por fazer ao ser morto no dia 9 de dezembro de 1980.

Alguns anos atrás, um amigo meu, com quem faço muitas parcerias musicais, me mostrou um riff ao violão, uma ideia de melodia. O riff remetia muito às baladas com acento country dos Rolling Stones, como Sweet Virginia e Wild Horses. Justamente por isso, ele disse que seria legal se a letra tivesse a ver com os Beatles, pra fazer um contraponto. Dias depois de ele ter me passado isso tudo, eu cheguei em casa na alta madrugada, depois de uma noitada daquelas. Estava bêbado e ainda sem sono. Comecei a pensar naquela ideia de música e escrevi numa tacada só a letra toda, compus a parte melódica que faltava da música, como o refrão e uma ou outra parte. A letra, escrita em inglês, se chama Dear John. Nela escrevo uma carta ao John Lennon, dizendo o quanto os Beatles são importantes e como ele, com todas as suas contradições, é uma figura fundamental pro mundo, e como ele faz falta atualmente, onde precisamos de cada vez mais pessoas falando sobre paz, liberdade e generosidade e compreensão. Acabou sendo uma das músicas que mais me orgulho de ter escrito até hoje.

Pra fechar o texto, vale contar uma história curiosa. Em 1974, a atriz Elizabeth Taylor deu uma grande festa em sua casa. Entre os convidados estavam John Lennon e Davi Bowie que, na época era talvez o nome mais forte do rock e pop do mundo. Vinha dos aclamadíssimos discos Ziggy Stardust e Aladdin Sane. E começava a se sentir muito incomodado com as privações que a fama lhe impunha.

Naquela festa, ele conheceu John Lennon e conversou muito com ele, afinal, ninguém melhor para entender os problemas da fama que um ex-beatle. As conversas e a amizade entre Bowie e Lennon se seguiram depois da festa, e eles acabaram compondo uma canção juntos. A música, chamada Fame, fala sobre a visão de ambos sobre a fama e entrou no disco Young Americans, de 1975. Apesar de sua avassaladora fama, Bowie ainda não tinha emplacado nenhuma música no primeiro lugar da Billboard. Pois não é que Fame, ironicamente, foi a primeira música do cantor a atingir o topo da parada?

John Lennon completaria 81 anos de idade no dia 9 de outubro, se ainda fosse vivo. Ainda bem que a obra não morreu com ele, e está mais viva do que nunca. Afinal, o que a gente mais precisa hoje é Power to the People e Give Peace a Chance.

HOJE EU RECOMENDO


Disco: Imagine
Artista: John Lennon
Ano de lançamento: 1971
Primeiro disco solo de John Lennon já traz sua obra mais famosa, a inspirada canção Imagine, além de outras granes músicas. Um disco maravilhoso e indispensável.