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Une autre histoire du Brésil

(Paulo Argollo)

Se você acha que espionagem, agentes duplos, informantes infiltrados e etc são coisas de filmes norte-americanos e ingleses, e que esse tipo de coisa nunca aconteceu no Brasil, você está enganado.

Na verdade, o Brasil já nasceu sendo alvo deste tipo de atividade. Aliás, a espionagem é coisa muito antiga. Muito antes de James Bond tomar seus dry martinis e namorar modelos suecas, a Europa do século XV já contava com vários espiões e informantes que cruzavam fronteiras para vender informações de um reino para o outro.

Com as grandes navegações iniciadas nesta época, que culminaram com o descobrimento da América, a disputa entre Espanha e Portugal pelo domínio das principais rotas fomentava muito essa troca de informações, e acabou chamando a atenção de outros reinos.

A região litorânea da Normandia e Bretanha, na França do século XV, era muito conhecida por seus estaleiros e portos, onde eram construídas diversas embarcações, muitas delas sob supervisão de especialistas portugueses. Também era uma área famosa por ser ponto de embarque e desembarque de muitos navios piratas. Para completar, era uma região com forte produção de tecidos.

Exatamente nesta região, no pequeno vilarejo de Gonneville, próximo ao porto de Honfleur, nasceu Binot Paulmier, que se tornaria um jovem de espírito aventureiro, navegador e comerciante astuto. O homem que levaria à nobreza francesa em primeira mão a notícia de uma terra recém-descoberta chamada Brasil.

Paulmier estava em Lisboa em julho de 1501. A cidade estava alvoraçada e em festa pela presença da frota de Pedro Álvares Cabral, recém-chegada da índia com muitas especiarias, e também com as novidades sobre a terra que descobriu no meio do caminho. Paulmier e mais dois amigos franceses conheceram por acaso numa taverna alguns marujos da tripulação de Cabral. Entre muitas canecas de vinho, os marujos portugueses contaram aos franceses sobre as mulheres nuas, os animais exóticos e as imensas árvores, conhecidas como pau-de-tinta,ou pau-brasil, que cresciam por toda a costa daquele paradisíaco lugar.

A Europa já estava familiarizada com o pau-brasil desde o século X. Nativa da Indonésia, comercializada desde sempre no oriente, era uma madeira que, por conta de sua cor avermelhada, era usada para tingir tecidos. Chegou na Europa através dos árabes e se tornou produto valioso, já que o vermelho era a cor da nobreza. Quando Binot Paulmier soube que existia um lugar desprotegido com pau-brasil em abundância e a uma distância mais curta e menos perigosa do que o caminho até o oriente, se interessou de imediato. Afinal, a região da Normandia consumia tal madeira em larga escala, já que existia ali uma forte produção têxtil.

Um tempo depois de tomar conhecimento sobre o Brasil, Paulmier traçou um plano para ir, ele mesmo, conhecer essa terra e lucrar com o comércio de pau-brasil. Em 1503 ele contratou clandestinamente dois marujos portugueses que viajaram com Vasco da Gama e já conheciam bem as rotas para a Terra dos Papagaios, um dos nomes pelos quais o Brasil era conhecido na época. Financiado por alguns ricos mercadores franceses, em julho de 1503 Paulmier zarpou do porto de Honfleur a bordo da nau L’Espoir (A Esperança) com uma tripulação de 60 homens.

Mesmo com marujos experientes à bordo, a viagem foi traumática. À deriva por semanas numa calmaria sem nenhum vento, no meio do oceano Atlântico, a fome e o escorbuto começaram a apavorar a tripulação.

Em seguida, enfrentaram tempestades que duraram dias. Depois das tormentas ninguém sabia dizer onde estavam. Em novembro, a L’Espoir finalmente avistou terra firme. Era uma pequena ilha no meio do oceano Atlântico, na linha entre o Uruguai e a África do Sul, hoje conhecida como Ilha de Tristão da Cunha. De lá, rumaram para o norte aproveitando as correntezas marítimas favoráveis, sonhando conseguir voltar para casa.

Acontece que eles pensavam estar indo para o norte, mas estavam navegando a noroeste. Quase dois meses de viagem depois, no dia 5 de janeiro de 1504, a tripulação de Paulmier chega ao litoral brasileiro, em algum ponto entre Santa Catarina e Paraná, possivelmente perto da atual cidade de São Francisco do Sul. Foram os primeiros europeus a desembarcar na costa brasileira ao sul da ilha de Cananeia, descoberta dois anos antes por Américo Vespúcio. Em terra, a tripulação foi muito bem recebia pelos índios Carijó. Foram tão bem recebidos que ali ficaram por seis meses, à base de pinhões, frutas das mais variadas e caça.

Em 3 de julho de 1504, com uma preciosa carga de pau-brasil, além de peles e penas de animais exóticos e muita história pra contar, L’Espoir deixou a costa brasileira levando um tripulante a mais. O cacique da tribo Carijó, que tão bem recebeu os franceses, insistiu que eles levassem seu filho, um jovem de nome Essomeriq. Encantado com a artilharia dos europeus, o cacique enviou seu filho dando-lhe a missão de aprender a fazer canhões para que eles pudessem finalmente derrotar seus inimigos, a tribo Tupiniquim, que viviam mais ao norte.

A viagem de volta foi tão infernal quanto a ida. Além das tempestades do inverno tropical, mais uma vez o escorbuto se alastrou entre a tripulação, contaminando, inclusive, o jovem índio Carijó. Com medo que Essomeriq morresse pela doença, Binot Paulmier decidiu cristianizá-lo e o batizou com seu próprio nome. Por fim, depois de toda a turbulenta travessia do Atlântico, já no canal da Mancha, próximo do litoral francês, L’Espoir foi atacada por piratas britânicos. Na tentativa de fugir dos piratas, a nau acabou se chocando a alguns recifes e naufragando. Apenas parte da tripulação conseguiu se salvar, nadando até a costa sul da França. Somente em maio de 1505, 28 homens famintos e esfarrapados chegaram a pé na cidade de Honfleur, de onde partiram, a bordo da nau L’Espoir.

Entre os 28 sobreviventes, dos 60 que partiram de Honfleur em 1503, estavam Binot Paulmier e o jovem carijó Essomeriq. Com sua nau destruída e sua preciosa carga no fundo do mar, Paulmier se viu impossibilitado de cumprir sua promessa de levar Essomeriq de volta para sua tribo. Desta forma, fez com que ele se casasse com uma de suas filhas, tornando-o herdeiro de todas as suas propriedades. Essomeriq, sob o nome de seu sogro e padrinho, tornou-se um cidadão respeitado em Honfleur, onde teve filhos, netos e bisnetos, vindo a falecer somente em 1583, aos 94 anos de idade.

Em 1658, um de seus descendentes, de nome Jean Paulmier, tornou-se abade e escreveu um livro contando as aventuras de seus já distantes parentes, e escreveu também ao Papa Alexandre VII, pedindo que enviasse jesuítas ao sul do Brasil para catequisar e cuidar dos índios Carijó. Mas já era tarde demais. A esta altura, a tribo já havia sido escravizada e dizimada pelos bandeirantes paulistas.

Binot Paulmier foi o primeiro francês a chegar no Brasil. Nos 30 anos que se seguiram, os franceses mantiveram um intenso e cordial comércio de pau-brasil com os índios. Depois da descoberta de Cabral, Portugal, ocupado com as especiarias do oriente, deixou o Brasil esquecido. Só em 1526 o rei português D. João III se deu conta que os franceses não só ignoravam o Tratado de Tordesilhas, que dividia o mundo entre Portugal e Espanha, como estavam fazendo muito dinheiro trazendo toneladas e toneladas de pau-brasil das terras portuguesas.

Deu-se então início a um conflito que duraria mais de dez anos e tornaria o Brasil colônia de Portugal, tendo sua capital estabelecida na cidade de Salvador, em 1549.

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HOJE EU RECOMENDO

Disco: Super Best

Artista: The Melodians

Ano de lançamento: 2012

Não sou muito de recomendar coletâneas, mas esta é maravilhosa. The Melodians é um trio vocal jamaicano dos anos 1960 com um som delicioso entre o reggae e o pop sixtie. É imperdível!

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