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Vamos tomar um café na Letra?

Desde 1975 servindo como um dos principais pontos de encontro de amigos, Letra Café marca a história de Pato Branco

“A Letra sempre foi um local de encontro de pessoas de todos os níveis sociais e de todas as idades. Vi jovens tornarem-se adultos e trazerem seus filhos para comprar revistas e livros. Me sinto muito feliz por ter participado e ajudado a construir essa história”. É assim que Ema Feihrmann, que trabalhou durante 40 anos na Letra Café, resume o significado deste que foi um dos maiores redutos de leitura e bate-papo de Pato Branco.

Foi, e não é mais, porque, infelizmente, no último dia 20, aquela Letra que ficava na Guarani desde 1975, e que começou vendendo revistas e ofertando telefones aos clientes, fechou suas portas.

“O que mais me marcou foi o próprio desenvolvimento da Letra. Na época, não existia aparelho celular e os telefones eram artigos de luxo. Vi muitas pessoas procurarem o PS para realizar ligações e passar fax para todos os lugares do país. Após, com o avanço, instalamos computadores e disponibilizamos serviço de internet par população, principalmente para quem não tinha condição de ter um”, relembra Ema.

Com o tempo, a Letra se tornou um importante local de cultura, venda de livros, revistas e ponto de encontro para debater sobre política, futebol “e saborear um delicioso café, que somente a Letra tem”, orgulha-se.

Há, sim, uma possibilidade de mudança de prédio, onde uma nova história será escrita. “ Com a mudança de local, esperamos que a Letra continue com a mesma essência, sempre acolhedora ao receber seus clientes”, fala Ema.

Ela ainda agradece à familia Milanez e Perusso pela oportunidade de trabalho e pela confiança depositada por todos esses anos. “Tenho uma grande gratidão por eles. Para mim foi muito gratificante ficar 40 anos à frente da Letra por vários motivos, mas principalmente pelo trabalho desenvolvido e por todas as amizades que fiz no decorrer dos anos”, finaliza Ema.

Além da Ema, que estava todos os dias no local, pedimos para que alguns ilustres frequentadores, adeptos das letras e da Letra, que escrevessem algo sobre esse lugar tão importante para nossa cidade. Confira:

Palavras para traduzir a Letra

A Rua Guarani nunca mais será a mesma sem aquele cheirinho de café característico, ou sem a movimentação aos domingos dos encontros tradicionais movidos por amizades de longa data e entusiasmo político. Mesmo sabendo que esta não é uma despedida e que a Letra está apenas mudando de lugar, o sentimento é que um pedaço da nossa memória se esvai. É coisa de pato-branquense ser demasiado nostálgico? Pode ser.

Quando a dona Ema Feihrmann conta que atua na Letra há 40 anos, o saudosismo que mora na gente só reforça o sentimento alojado na memória e no coração: eis um lugar que não precisa ser traduzido em palavras, justamente porque é a tradução de boa parte da nossa história, seja por abrigar nossos primeiros livros, gibis, álbuns de figurinhas, ou por nos conectar com o mundo pelas páginas dos jornais e das revistas, quando internet era coisa desconhecida ou rara por aqui.

Afinal, onde guardar, agora, as lembranças dos encontros, das conversas e dos risos partilhados entre lançamentos, clássicos e bibelôs? Tem um vazio enorme sustentando essa frase, feito aquele momento em que o livro acaba e você não quer dizer adeus. Dá para ver e sentir? Eis a tradução da memória, do convívio e do aroma de saudade que sem cerimônia tomará o lugar do cheiro de café, o mesmo que durante décadas passeou pela Guarani todos os dias.

A partir de agora este será um passeio solitário. Fará falta. Deixará saudade. Vazio. Não é uma despedida, é um até logo, a gente sabe. Mas que não seja, sobretudo, o lampejo de tempos febris em que a leitura, o conhecimento e as boas conversas dão espaço a antagonismos avessos. Que não seja. Não será. Será?

Me faltam palavras para traduzir esta letra.

Jozieli Cardenal Suttili, jornalista e professora pato-branquense

Letra(s) que fazem a história

A pandemia tirou muita coisa legal da gente! Além das vidas perdidas, momentos de descontração e alegria em grupo também se perderam por conta desse vírus sorrateiro que tem dominado o mundo desde o final de 2019.

Dentre esses momentos, o de tomar um cafezinho na Letra foi um que se perdeu em 2020… E não só de minha parte, mas acredito que de muita gente, o que talvez tenha contribuído para o seu fechamento, neste 20 de janeiro de 2021.

E é estranho, pois parece que é uma parte da história da gente que se vai…

Lembro de frequentar este lugar há bem mais de 30 anos, desde criança, quando era “moda” preencher álbuns de figurinha e torcer para ganhar prêmios ou não virem muitas repetidas!! Lembro aqui de um álbum em especial: o da copa de 82, da Ping Pong (lembram desse chiclete??)! Muito criança, ainda, não entendia muito bem de futebol (na verdade, nem hoje), mas fazia a coleção das figurinhas… E onde comprava? Na Letra, é claro!!

Junto com a paixão pelos álbuns de figurinha, havia a dos gibis. Não passava semana sem comprar um. E continuei comprando gibis – na Letra, é claro – até uns dois anos atrás, penso, quando eles pararam de vendê-los.

E minha fase de livros de bolso? Os que mais gostava eram os de faroeste e os da Brigitte Montfort, uma agente da CIA com histórias que ocorriam na época da Guerra Fria. A “Baby”, como ela era chamada, foi uma das minhas primeiras referências literárias de mulheres fortes, modelo que eu queria seguir!

Depois, veio a paixão por palavras cruzadas, e toda semana lá estava eu, na Letra, comprando uma nova revistinha! E as coleções que eram lançadas pelos jornais, e que você tinha que comprá-lo para “ganhar” o livro, ou a pintura, enfim… Na Letra você os adquiria!

E a paixão na adolescência pelas revistas Capricho, depois a Nova, depois a Cláudia – conforme a idade ia chegando… Onde comprava? Sempre na Letra, é claro… E as revistas de modelos de roupa para levar na costureira? Na Letra!

E na época em que não se tinha a facilidade de entrar na Internet e comprar livros? Na Letra, é claro! Inclusive, dava para fazer encomenda! Levava uma ou duas semanas, mas chegava… Que alegria!

Mais tarde, o prazer de ir lá tomar um cafezinho, fosse com amigos ou simplesmente sozinha, num ambiente agradável, rodeada de livros, jornais, revistas.

Eu sei que a vida anda… E tudo passa. Mas este “passamento” de um lugar tão agradável deixa marcas. Pelo que ouvi, talvez reabram em outro espaço… Quiçá!

See you, Letra!

A gente talvez se veja novamente, mas não será mais a mesma história.

Aqui, deixo registrado meu muito obrigada pela importante contribuição na minha formação intelectual e afetiva! Gratidão – é palavra da moda, mas representa o que sinto por você!

Rosangela Aparecida Marquezi, professora

A letra que nos falta

Ficamos órfãos de um lugar onde nos atualizávamos.

Não bebíamos apenas o seu café, era um ponto de encontro que servia como ponte para colocar as novidades em seu devido lugar. De lambuja, tínhamos à disposição a companhia dos livros, das revistas, dos jornais, das pessoas mais humildes até as mais abastadas. Dos seres mais peculiares, dos colegas e conhecidos de vista, dos senhores que iam imprimir seus boletos, das crianças que ainda compravam álbuns de figurinhas, das senhoras que adquiriam edições que ensinavam pontos de crochê. Dos mais variados presentes: canecas, pelúcias, chaveiros, luminárias, jogos, canetas, adesivos, agendas. O que fosse. Algo você sempre encontrava.

Mas, agora, um dos locais mais tradicionais de Pato Branco não estará mais lá, nem para beber um café gelado, nem para comprar um gibi. Tudo nessa vida muda ou se transforma. Porém, certas coisas deveriam ser eternas para não se tornarem apenas lembranças de um passado de beleza que deixamos escorrer pelos dedos. Vai fazer mais do que falta, vai deixar um buraco onde até então tinham a palavra, a sílaba, a vogal e a Letra.

Leonardo Handa, jornalista

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