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Vocação maior de Godard é como cineasta de ideias

Jean-Luc Godard foi o mais radical dos diretores do núcleo duro da nouvelle vague. Sobreviveu a todos eles (Truffaut, Chabrol, Rivette e Rohmer) e continua a produzir. Seu filme mais recente, Imagem e Palavra, é de 2019. Na quinta-feira, 3 de dezembro, Godard completou 90 anos.
Com mais de 127 obras audiovisuais catalogadas no site IMDB, Godard é um desafio para seus intérpretes, e mesmo para seus detratores. Não apenas pela dimensão da obra, mas por seu caráter multifacetado, radical e em constante mutação. Godard destinou seu trabalho ao cinema, mas também à televisão. Trabalhou com película, vídeo e agora digital. Fez filmes em preto e branco, cores e em 3D. Dialogou com o cinema norte-americano, com a literatura, a pintura e a filosofia. Promoveu como ninguém o cinema de autor e, durante algum tempo, defendeu a abolição da autoria. Faz filmes que parecem atemporais, mas que têm os pés bem postados na terra. Ele não se esquece jamais das guerras que infestam o planeta, dos males do mundo de modo geral e nem do capitalismo que transforma seres humanos em coisas. Está tudo lá, nessa obra em constante mutação. Nunca conseguimos aprendê-la em seu todo, pois, ao examinarmos um lado, outros nos escapam. É um caleidoscópio de sentidos possíveis das obras de arte.
Godard é também um cineasta de cineastas. O grande Bernardo Bertolucci, diretor de obras-primas como Antes da Revolução, O Último Tango em Paris e O Conformista dizia que “Eu me deixaria matar ou mataria alguém para filmar um único plano como Jean-Luc Godard”.
O nosso Carlão Reichenbach não deixava por menos: “Eu já disse isso mil vezes: o melhor filme do mundo já feito e é O Desprezo. É o filme que eu mais vi na vida, acho que mais de cem vezes”, declarou em entrevista a este crítico.
É verdade que, desde sua estreia em longas, com Acossado, Godard assumiu protagonismo como autor. O filme é de 1960. Um ano antes, Truffaut já havia feito Os Incompreendidos (1959). E, antes de Truffaut, Chabrol já apresentara Nas Garras do Vício (Le Beau Serge), em 1958. Mas, como diz um crítico com a credibilidade de Jean Tulard, “Acossado foi o verdadeiro manifesto da nouvelle vague”.
O filme, que passa hoje no Festival Varilux em homenagem ao aniversariante, é, de fato, um espanto. Partindo de um roteiro de Truffaut, Godard inova na forma, colocando de pernas para o ar o tema clássico do amor bandido. Jean-Paul Belmondo faz um pequeno meliante que se une a uma garota norte-americana (Jean Seberg).
Cenas nas ruas de Paris se alternam a outras no espaço fechado de um quarto de hotel. Em ambas situações, a originalidade da câmera dá impulso inesperado a cenas e atores. Os cortes abruptos (jump cuts), que na época chocaram os tradicionalistas da técnica cinematográfica, foram incorporados à linguagem do cinema moderno.
Aliás, o filme respira modernidade. Do ritmo das cenas à música de jazz, da persona cool e atrevida de Belmondo à ternura despojada de Jean Seberg, com seu corpo esguio e cabelo curtinho, tudo contribui para seu encanto. É um cartão de visitas e tanto do novo movimento cinematográfico, que seria influente no mundo todo, Brasil incluído.
Godard tem outra característica que, de certa forma, o diferenciava de seus colegas de nouvelle vague. Enfrentava o presente com seus desafios e asperezas, diferente daquela atitude meio blasé, cinefílica de direita, do início da nouvelle vague. O Godard engagé vê o maio de 1968 um ano antes, em 1967, com A Chinesa.
Quando seus parceiros começam a se comprazer com as delícias do êxito, Godard milita no coletivo Dziga Vertov, junto com Jean-Pierre Gorin. É a época do maoísmo xiita, empedernido, que faz com que muitos companheiros de estrada se estranhem e se separem. Era o tempo, sempre ele, com suas exigências e contradições. E Godard embarca sempre no tempo, seu melhor aliado.
Vai produzindo essa obra de filmes inesperados, mas que, vistos de certo ângulo, parecem capítulos de um único e mesmo filme. As relações amorosas, a Guerra da Argélia, a prostituição, Kosovo, a crise européia – tudo está lá em obras tão diferentes como aparentadas, que se interpenetram e se comentam entre si, como Uma Mulher É Uma Mulher, Os Carabineiros, Viver a Vida, Para Sempre Mozart, Film Socialisme.
Um zapping no conjunto da obra nos diz isto: eis aí um inventor permanente de si mesmo, nunca alheio aos temas do mundo, nunca distante da variabilidade das técnicas (“Godard e o vídeo” poderia ser um capítulo à parte em sua biografia) e da reutilização das formas. Não é por acaso que Carlos Reichenbach, um dos mais inventivos diretores contemporâneos, o tinha em tão alta conta. Não é por nada que Bernardo Bertolucci o reverenciava. Não é gratuito que Quentin Tarantino batize sua produtora com o título de um dos filmes de Godard, Band à Part.
Em meio à sua inquietação técnica e formal, não é difícil encontrar a vocação maior de Godard como cineasta de ideias. Ao analisar Viver a Vida (1962), Susan Sontag (em Contra a Interpretação), diz, sem rodeios que “Os filmes de Godard tratam de ideias, na melhor acepção, mais pura e sofisticada, em que uma obra de arte é capaz de tratar de ideias”. Sontag acrescenta que, depois de formular essa hipótese, havia lido uma entrevista de Godard à revista L’Express, em julho de 1961, na qual ele diz: ” Meus três filmes têm, no fundo, o mesmo tema. Pego um indivíduo que tem uma ideia e procura levar sua ideia até o fim”. Ele se referia a Acossado e também a O Pequeno Soldado (1960) e Uma Mulher é uma Mulher (1961). Sontag, em seu artigo, estende essa tendência a Viver a Vida, um dos pontos mais altos da filmografia de Godard.
No correr dos anos, sua obra foi se tornando cada vez mais livre e concentrada na discussão das ideias mais relevantes do seu tempo. Debate de ideias, sim – mas à sua maneira. Essa trajetória, tão longa e consistente, mereceria um exame filme a filme. Mas também basta, para uma visão geral, abordar seu mais recente Palavra e Imagem, tradução de Le Livre d’Image, no original francês.
É muito esclarecedor, por exemplo, ver que o filme se inicia por uma espécie de “ode às mãos” e não ao pensamento. Contradição apenas aparente, no entanto, pois, como lá se diz, o homem é esse animal capaz de “pensar com as mãos”. É o que faz o pintor (a pintura é “cosa mentale”, dizia Leonardo), o escultor, o arquiteto. Mas também o escritor e, claro, o cineasta. Godard pensa com as mãos – e com os olhos, os ouvidos, o cérebro – ao manipular imagens, sons e pensamentos alheios, alterá-los e colocá-los numa disposição de reflexão geral sobre o mundo, e, nele, sobre as pessoas e as coisas.
Godard justapõe muitas imagens de filmes – inclusive dos seus próprios – a cenas documentais. Muitas cenas de guerra e sofrimento. As Histórias do século 20, e a do 21, são sangrentas. Definitivamente, a civilização não triunfou e o cinema registra esse fracasso.
O “mundo árabe” ocupa um longo lugar de destaque na parte final. Prova de que a velha questão “Oriente e Ocidente” retorna com força, como sabemos todos. “O Oriente é o Oriente e o Ocidente é o Ocidente, e jamais se encontrarão”, escrevia Kipling no apogeu do colonialismo. O que mudou?
Esta é apenas uma das inúmeras questões levantadas por este filme que fala da luta entre civilização e barbárie e encontra na arte um local privilegiado, porém não idealizado. Lembrem da frase do próprio Godard: “a cultura é a norma e a arte é a exceção; é próprio da norma matar a exceção”.
Essa arte, cada vez mais distante de uma narratividade miúda, de suas historinhas com começo, meio e fim, pode às vezes ser um entrave para o espectador, acostumado à linearidade da TV e dos filmes comerciais. Mas sua disposição guerrilheira também pode ser vista de outra forma, como desafio e estímulo. E, afinal, sua fragmentação estética não está tão distante assim da nossa experiência cotidiana. Durante um dia, lemos os jornais, escutamos ou vemos as notícias, lemos um romance e páginas de um livro de ensaios, escrevemos, atendemos ao telefone, respondemos e-mails e zaps, ouvimos música, trabalhamos em tarefas diversas, conversamos com os outros, podemos ver vídeos e um filminho antes de dormir. Nem por isso nosso cérebro entra em colapso, pois dispõe de estruturas para ordenar o caos. O dia pode ter se estilhaçado em mil tarefas distintas. Mas temos a sensação a posteriori de que tudo foi linear e em ordem. Por que ficaríamos então indefesos diante de um filme de Jean-Luc Godard? Basta experimentar.
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