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Com investigação inconclusa, mortes de jovens em Paraisópolis completam um ano

A morte de nove jovens pisoteados durante um baile funk em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, completa um ano nesta terça-feira, 1º. O principal inquérito do caso, conduzido pela Polícia Civil, ainda não foi concluído, mas o Ministério Público já antecipou que enxerga culpa de parte dos policiais militares que atuaram no caso. As famílias vão realizar nesta tarde um ato em memória das vítimas e por responsabilização pelas mortes.

Os nove jovens foram pisoteados após a polícia atuar para dispersar o baile da DZ7 na comunidade de Paraisópolis. Esse pancadão, na época, costumava reunir entre 3 mil e 5 mil pessoas nos fins de semana. Os agentes dizem que perseguiam um suspeito e foram alvo de disparos. A ação causou tumulto e levou as vítimas para duas vielas da comunidade, onde as pessoas se aglomeraram. Testemunhas relatam truculência na ação policial, o que teria colaborado para aumentar o tumulto e dificultar a dispersão pelas ruas estreitas do local.

A principal investigação do caso é conduzida desde dezembro pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), da Polícia Civil. Em nota enviada nesta segunda-feira, 30, a Secretaria da Segurança Pública informou que a apuração segue em andamento, sob sigilo, “com o cumprimento de solicitações feitas pela promotoria”. A pasta disse também que os policiais envolvidos seguem afastados do serviço operacional. Trinta e um deles haviam sido afastados pouco tempo depois da ocorrência.

O inquérito poderá esclarecer como atuou cada agente durante a ocorrência e qual foi o papel deles para as mortes dos jovens. Após o encerramento da investigação, essa apuração deverá ser submetida ao Ministério Público, que avaliará apresentação de denúncia formal à Justiça contra os policiais.

O MP já havia antecipado que enxerga culpa de parte dos policiais envolvidos nas mortes em Paraisópolis. Em nota enviada nesta segunda-feira, o órgão reforçou essa posição. “Os elementos dos autos apontam o dolo dos policiais militares, na modalidade dolo eventual, para as nove vítimas, pois se trata de uma única situação fática. Todavia, à primeira vista, não seriam os 31 policiais militares responsabilizados, sendo necessária a análise de cada conduta”, informou, por nota, a promotora Luciana André Jordão Dias.

Ela classificou o trabalho da Polícia Civil como “bastante criterioso” e lembrou que a apuração está “ocorrendo ininterruptamente desde a prática dos fatos”. “Acreditamos que o inquérito policial está próximo de seu encerramento. A demora decorre da complexidade do caso, com 31 policiais envolvidos e nove vítimas fatais, além de outras que também sofreram agressões e lesões, e da pandemia de covid-19, que, assim como nas demais áreas, dificultou a apuração dos fatos”, acrescentou.

Uma outra apuração foi conduzida pela Corregedoria da Polícia Militar e enviada para a Justiça Militar, que analisa a prática de eventuais crimes militares dos agentes. Esse inquérito concluiu que as mortes aconteceu também em virtude da ação da PM naquele local. Apesar disso, o capitão que investigou a atuação dos agentes disse que eles não devem ser punidos porque agiram em legítima defesa.

Na tarde desta terça-feira, as famílias das nove vítimas deverão se reunir em frente ao Palácio do Bandeirantes, sede do governo paulista no Morumbi, em um ato em memória dos jovens e para pedir justiça no caso.

“A nossa ideia é continuar na luta por justiça, o que temos feito ao longo deste ano, com uma cobrança enfática. Eram jovens com um futuro muito bonito pela frente e que foram brutalmente arrancados de nós”, disse o estudante Danylo Amilcar, de 20 anos, irmão de Denys Henrique, de 16 anos, uma das vítimas. Ele cobra responsabilização não só para os agentes, mas também para os comandantes da tropa que atuou no baile.

“É muito difícil expressar todo esse sofrimento. Além de perder um irmão com 16 anos, nas circunstâncias que nos foram impostas, há um trabalho árduo e longo para mostrar para a sociedade que ele tinha um valor, que trabalhava, que se esforçava para estudar. Esse trabalho é um desafio. O que a polícia tentou fazer foi dizer que eles eram culpados pela própria morte. Quem perdeu ali não foi somente a gente, foi toda a sociedade ao ver um jovem que saiu para se divertir e foi morto. Pedimos respostas e reparações”, reforçou Danylo.

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