Vários fatores envolvem o bullying

Flori Antonio Tasca

Há inúmeras forças que contribuem para a produção do que chamamos de bullying. No seu estudo “A escola na contemporaneidade: Uma análise crítica do bullying”, publicado em 2015 na revista Psicologia Escolar e Educacional, a pesquisadora Fernanda Canavêz analisa o bullying a partir de quatro dessas forças: a crise da autoridade docente, o discurso de vitimização, a judicialização da vida e o apelo aos especialistas.

Ela aborda a derrocada dos referenciais simbólicos em nossa sociedade, entre os quais a autoridade do pai, para quem são cada vez mais endereçados questionamentos e críticas por parte de grupos minoritários. Os professores sentem os efeitos dessas modificações na sociedade contemporânea e experimentam, igualmente, uma crise de autoridade docente, o que exige que eles se reinventem, sob pena de se tornarem “ultrapassados”.

A autora ressalta ainda como uma das características do nosso tempo o incremento do discurso de vitimização, que tem feito com que a vítima assuma, em nossa sociedade, o lugar antes destinado ao herói. É a vítima, agora, que se destaca da massa homogênea de seus semelhantes. Isso seria resultado da nossa exaltação da performance individual. A escola hoje é marcada pela exigência do cumprimento de metas e a exposição de níveis de competividade em que o individualismo está associado à vitória sobre os demais.

Caso não atinja o resultado esperado, o sujeito fica com o estigma do fracasso. Também os professores acabam envolvidos em metas que acirram as diferenças entre os “bons” e os “maus”, sem aprofundamento de reflexões sobre o sistema educacional. Com isso, a tendência é que contextos específicos sejam desconsiderados. O enfraquecimento de referenciais como a figura do professor e a difusão da cultura da vitimização alicerçam, na visão da autora, as bases para o surgimento e a propagação do fenômeno do bullying.

A isso se soma o que foi chamado de “judicialização da vida”, que é o movimento de ampla convocação do Judiciário para intervir nas relações humanas. É uma tentativa de resgatar a autoridade perdida, e assim se explicam os diversos projetos de lei com a proposta de combater o bullying. Mas esse posicionamento costuma ser desprovido de crítica, por não considerar os inúmeros fatores que levam à ocorrência do bullying.

Outra reação ao fenômeno é o apelo aos especialistas, consequência do avanço que, em nossos tempos, apresenta o cientificismo. Trata-se da validação de outra autoridade, a do especialista na educação das crianças, com o discurso médico-psicológico. Busca-se na Psicologia reparar algo que estaria tornando alunos e famílias afeitos ao bullying. No entanto, esses profissionais nem sempre estão inseridos no contexto da escola, o que pode fazer com que a escola se torne palco de experimentos e ofertas de projetos.

A pesquisadora reforçou a necessidade de se potencializar as iniciativas já empregadas pelas próprias escolas na tentativa de enfrentar o bullying. Por outro lado, ela também apresentou a possibilidade de se enxergar o problema de forma bastante diversa. Seria possível entender o bullying também como uma forma de resistir ao formato do sistema educacional, o qual busca a boa performance do aluno a partir de interesses do mercado.

Nessa perspectiva, o bullying seria efeito de um discurso que rechaça os mais fracos e os inaptos a corresponder a um ideal de sucesso predeterminado. Assim, seria possível também descontruir a ideia, bastante presente, de que o bullying seria fruto da falta de religiosidade ou de limites, passível de solução via imperativos morais. Para a autora da pesquisa, o tema é muito mais complexo e exige mais para ser compreendido.

Educador, Filósofo e Jurista. Diretor do Instituto Flamma – Educação Corporativa. Doutor em Direito das Relações Sociais pela Universidade Federal do Paraná, [email protected]