Aos que não estão conosco

* Por Dirceu Antonio Ruaro

Falei, no texto da última semana, que nesse tempo especial, que estamos vivendo, é preciso termos coragem de dar voz aos nossos sentimentos e emoções.

Evidentemente que isso não e fácil. A falta das pessoas ao nosso redor, no nosso convívio diário, apresenta faceta que nos marcam indelevelmente para o resto de nossas vidas.

Com saudade e com sentimento de perda, lembramo-nos da família, da nossa família, reunida em torno da mesa de jantar. Todos rindo, brincando, de forma descontraída, tendo na memória apenas momentos de encontro, de comemoração.

Pois é, e então veio o regime de isolamento social por conta dos efeitos do coronavírus. As famílias, que praticamente não se encontravam no dia a dia, em razão das várias atividades de cada um, passaram a ficar juntas por semanas inteiras.  

De repente, alguns membros dessa família se dão conta de que a criança se tornou adolescente, os cabelos dos mais velhos receberam um algum toque de prata e ao lado dos olhos surgiram pequenas rugas.

Muitas dessas pessoas passavam umas pelas outras como se estivessem em um corredor qualquer e sequer se davam conta do que poderia estar acontecendo ali. Quando eventualmente estavam todos em casa, o computador, o celular e a TV roubavam a atenção e cada um continuava no seu universo de isolamento.

Hoje, parece-me claro que estamos vivendo um “intervalo” em nossas vivências familiares. Os que estão na mesma casa, tendo uma visão da vida e dos acontecimentos bem diferente daqueles que, mesmo sendo família, precisam viver o afastamento que lhes é imposto.

Sentimentos contraditórios invadem as pessoas. Num momento de “parada” vejo o mundo com óculos de grau, aumentando minha esperança, mas, ao mesmo tempo, sinto saudades das pessoas que são caras em nossas vidas.

Também sei que não é por mero acaso que essa palavra “doída” só existe na língua portuguesa e, por isso mesmo, a saudade é cantada em verso e prosa tanto na música quanto nos textos literários, cujos compositores emprestam-nos suas vozes para acalentar nossa saudade.

Parafraseando Hermano Thomaz Da Silva / Vinicius De Moraes, na canção “Onde anda você”, me pergunto: Onde anda você?/ Onde anda os seus olhos/ Que a gente não vê/ Onde anda a canção?/ Que se ouvia na noite/ Dos bares de então/….

Confesso que, nesse “break” da vida e do tempo normal, tento, de alguma forma, suavizar a saudade e transformá-la em algo bom, ouvindo Vinícius de Morais e outros grandes compositores. E me recordo da grande lição de Vinícius, no texto “Como dizia o poeta”: “Quem já passou por essa vida e não viveu. Pode ser mais, mas sabe menos do que eu. Porque a vida só se dá pra quem se deu. Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu. Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não.”

Quem sabe aqui possamos encontrar um dos mais belos ensinamentos do “poeta maior”: o conceito de “ousadia”. A vida exige de você ousadia. Se você não tem um pingo de ousadia nessa vida, o resultado dessa atitude é uma vida “mais ou menos”.  Parece que ninguém de nós quer ter uma vida “mais ou menos”. Queremos viver o que a vida pode oferecer de melhor.  Ela foi feita para viver com intensidade. Para vasculhar um universo de possibilidades, metas e sonhos. E vamos também dividir a nossa vida e nossa alegria com as pessoas!

Nessa incursão, relembro também de Cecilia Meireles, cujo poema “Recado aos amigos distantes”, abaixo transcrito, parece ter sido escrito para hoje:

“Meus companheiros amados, não vos espero nem chamo: porque vou para outros lados. Mas é certo que vos amo. Nem sempre os que estão mais perto fazem melhor companhia. Mesmo com sol encoberto, todos sabem quando é dia. Pelo vosso campo imenso, vou cortando meus atalhos. Por vosso amor é que penso e me dou tantos trabalhos. Não condeneis, por enquanto, minha rebelde maneira. Para libertar-me tanto, fico vossa prisioneira. Por mais que longe pareça, ides na minha lembrança, ides na minha cabeça, valeis a minha Esperança.”

Caros amigos, aproveitemos esse “exílio”, a que estamos submetidos, e sejamos capazes de preparar novos lugares hospitaleiros, acolhedores, solidários para o reencontro de nossos familiares e amigos. 

E, quem sabe, posamos reconstruir nossas relações familiares e interpessoais. Pensem nisso enquanto lhes desejo boa semana.

* Dirceu Antonio Ruaro é doutor em Educação pela Unicamp, psicopedagogo clínico-institucional e assessor pedagógico da Faculdade Mater Dei, de Pato Branco (PR)

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