Aprendizagens, ou legados, para a educação na pandemia!

* Dirceu Antonio Ruaro

Nos dois últimos textos, vinha falando sobre possíveis lições que a pandemia possa ter deixado como “um legado” a todos nós, como seres humanos.

Recordando, num dos textos falei de duas lições: a do egoísmo que se manifestou abertamente nos mais diferentes segmentos da sociedade e da “desconfiança” nas autoridades constituídas, com base num depoimento sui generis do prefeito da cidade de Curitiba-PR.

No seguinte (semana passada) falei da importância de ouvir-se e saber ouvir a voz do outro. Isso num sentido extremamente humano, não apenas material, mas também com a alma. Ouvir o outro no sentido mais profundo do termo, compreendendo as angústias vividas por cada uma das pessoas ao nosso redor.

Angústias reveladas por meio de sentimentos de medo, de incerteza, de busca da cura, de anseios pela vacina e por um tratamento que afaste dos perigos da doença e, por que não dizer, da morte.

Outra vez, estamos exercendo a contradição, a expectativa, a esperança, a complexidade.

Concordo, estamos todos nos sentindo em alto mar, num grande navio, cujo casco apresenta um imenso rombo e que mais cedo, ou mais tarde, vai nos afetar.

Concordo, também, que, ao que parece muitos são os que ainda não acreditam na potencialidade do rombo desse navio.

Há dúvidas, incertezas de todas as partes. Há disputas, acima do valor da vida, que trazem à reflexão o papel do ser humano e a necessidade premente de reumanização dos “seres humanos”.

É certo que estamos passando por uma experiência inédita. É certo que não temos “receita” para resolver a crise sanitária. É certo que houveram e que há ações incorretas.

Nesse movimento de “abre”, “fecha”, não se encontra apenas o comércio, a indústria, as organizações de modo geral.

E, como organização social, as escolas, certamente, tiveram um prejuízo fenomenal, não estou me referindo a questão financeira, apenas. Essa é outra realidade, como é a realidade das demais empresas.

Estou falando do prejuízo “intelectual”, do conhecimento, da socialização das crianças.

Muitos dizem: “ah, mas as escolas tiveram aulas virtuais”. Sim, tiveram. Outros setores puderam atuar na forma de delivery, não?

Mas, voltemos à questão da escola. Ouvi, numa determinada reunião, que certos setores foram os mais prejudicados. Concordo que, financeiramente, podem ter sido.

No entanto, nenhum setor ficou na situação das escolas.

Há uma corrente que diz que as escolas “privadas fizeram a tarefa de casa e se prepararam. Concordo, fizeram e têm condições técnicas melhor do que as redes públicas. Até porque as decisões são muito mais céleres e competentes.

Essas são outras discussões. Quero enfatizar aqui a questão pedagógica mesmo. Entendo que, com o passar do tempo, crianças/adolescentes/adultos, enfim, quem teve a experiência das aulas virtuais, tem um ponto de vista muito claro sobre isso e sobre, especialmente, o resultado da aprendizagem.

Nessas últimas semanas, reacendeu a esperança da volta a “alguma normalidade” com as aulas presenciais. Muitas escolas retomaram com todos os protocolos requeridos pelas autoridades sanitárias e, de repente, compreende-se que a pandemia se expande de maneira exponencial e é necessário, mais uma vez, “fechar as escolas”.

Outra vez, parece que voltamos ao ponto inicial em março de 2020. Despreparados, desconfiados, incrédulos. Famílias novamente tendo de lidar com um isolamento mais sério, crianças em casa, aulas virtuais.

Novamente sentimos que há um grande aperto emocional e é difícil explicar aos pequenos esse vai e vem das aulas. Pior, explicar que a situação é tão ou mais assustadora que em março de 2020. Explicar que não há vagas nos hospitais, explicar que não há vacina para todos, explicar que precisamos nos cuidar de forma redobrada, que o vírus se modificou, que as novas cepas são mais agressivas, mais transmissíveis e, portanto, mais perigosas.

Creio que a situação é ainda um desastre, não só para as escolas, porém, creio que, apesar de tudo, as escolas, de alguma forma estão realizando seu trabalho de oferecer uma educação possível nesse momento e, que, estão melhor preparadas do que em meados de março de 2020, quando as aulas foram suspensas.

Penso que, para as escolas, fica sim um legado. A experiência do ensino remoto que se assemelha ao EaD (Educação a Distância) na utilização de tecnologia de comunicação e informação, porém que manteve os princípios do ensino presencial.

A busca pela superação das maiores dificuldades tecnológicas, pela superação da presencialidade, pela superação da preparação dos professores, pela superação da falta de acompanhamento das famílias, tudo isso, trouxe para o seio da escola novas proposições de reflexão para se pensar que é necessário viver as experiências e delas tirar o máximo de proveito.

Penso que, na educação, apesar de todos os prejuízos pedagógicos, muitas lições podem ser tiradas desse período tão nefasto da humanidade, pense nisso, enquanto lhe desejo boa semana.

* Doutor em Educação pela UNICAMP, Psicopedagogo Clínico-Institucional e Assessor Pedagógico da Faculdade Mater Dei