Dar voz aos sentimentos e emoções em tempos de pandemia

Por Dirceu Antonio Ruaro*

Na semana passada trouxe para considerações questões relacionadas aos “protocolos de biossegurança”, que estão sendo elaborados em diversos níveis, redes e sistemas de ensino Brasil afora.

Um dos pontos e contrapontos que relacionei foi que a preocupação das escolas não deve se restringir à aprendizagem do conteúdo específico de cada matéria em si, mas deve cuidar de medidas de proteção e atenção às emoções dos alunos e professores, desencadeadas pela pandemia. 

Sabemos, pedagogos e psicopedagogos, o quanto é complexa a vivência e a externalização de emoções e sentimentos por nossos alunos em tempos de “vida normal” e, por isso mesmo, nossa preocupação com o que está acontecendo nesse período de “anormalidade” nas famílias.

Assim, penso que, mesmo com aulas remotas, on-line, ou seja, a forma midiática que for escolhida pela escola, é preciso, de alguma forma, ouvir as vozes das emoções e sentimentos de nossos alunos.

As redes sociais e outros veículos de comunicação têm trazido diariamente à tona relatos de emoções e sentimentos de alunos e familiares. Muitos “desabafos” de pais, alunos e de professores, permeiam as comunicações.

Muitos registros de “incapacidade” de não conseguir seguir as aulas por motivos físicos revelam na verdade que, por detrás disso tudo, estão outras situações, as quais podem nos levar a pensar que, além de não estarmos preparados para outras formas de ensinar e aprender, também não estamos preparados para entender nossos sentimentos e emoções advindos dessa nova realidade.

No momento atual, nesse contexto de pandemia, de incertezas de ansiedades, questionamentos, razões e contrarrazões é comum observar nas postagens em redes sociais e veículos de comunicação que, muitas vezes, as emoções reveladas nos textos escritos e orais chegam a ser assoberbados de críticas e, também, de apatia, de medo, exaustão, como se as pessoas carregassem em si uma “doença” que faz um jogo perverso de esconde-esconde.

Tenho observado [nas poucas vezes que preciso sair de casa e, confesso, tenho agido assim também] que cada pessoa que encontro pode ser um inimigo que me pode “passar” a doença. E, portanto, todos são suspeitos, inclusive eu.

Entendo e, muitas vezes, eu mesmo me sinto como se estivesse numa saturação de sentimentos, pensamentos e emoções que exigem uma resposta para poder evitar o esgotamento físico e mental. Coisa que não é fácil, ainda mais se estivermos ligados por muito tempo em “jornais televisivos” que mais parecem um relatório fúnebre do que um jornal informativo.

Especialistas dizem que é preciso que aprendamos a manter o controle dos nossos sentimentos e emoções, para justamente poder manter a nossa saúde, pois as emoções podem estar à flor da pele porque não temos nossa vida normal, de poder ir e vir, encontrar as pessoas da família, os colegas de trabalho, especialmente nós, professores, sofremos muito com a ausência física de nossos alunos.

Artigos e textos de especialistas das áreas humanas aconselham que não nos penalizemos a nós mesmos e, também, que não podemos ignorar nossas emoções, medos, sentimentos.

É importante que saibamos lidar com essas questões, dando-nos a nós mesmos o tempo necessário para que possamos reagir e, nessa pandemia, mais do que nunca, aprendamos que precisamos ter paciência. É necessário entender que, de certa forma, é normal estarmos apreensivos, ansiosos, querermos voltar ao nosso antigo “status”, ir para a escola, para o mercado, para as lojas sem sentir medo de nada.

Talvez um dos melhores conselhos que eu recebi foi de que preciso “filtrar” o que escuto, vejo, leio sobre a pandemia.  Há informações valiosas, sensibilizações necessárias, mas sem pânico. Falam tanto em “reinventar-se”, pois então, reinvente seus espaços de convivência, mesmo no distanciamento, use os meios de comunicação, mantenha contato com familiares amigos, externe seus sentimentos e emoções. Fale com seus alunos, colegas de trabalho, pais de seus alunos. Reinvente seus relacionamentos interpessoais, não perca o que há de mais precioso em você, sua capacidade de “dar voz aos sentimentos e emoções”.

Seus pais, avós, pessoas idosas ou com morbidades e que precisam estar em “distanciamento social” não precisam de que você apenas vá ao banco, ao mercado, à farmácia. Compras a gente aprende a fazer pela internet. O que seus familiares (crianças, pais, idosos), companheiros de trabalho, alunos, e amigos precisam é de uma conversa, de um telefonema, de uma chamada de vídeo. Permita e a si e a eles que deem voz aos sentimentos e emoções, sem julgamentos, recriminações. Pensem nisso, enquanto lhes desejo boa semana.

* Dirceu Antonio Ruaro é doutor em Educação pela Unicamp, psicopedagogo clínico-institucional e assessor pedagógico da Faculdade Mater Dei, de Pato Branco (PR)

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