…De sonhos, esperanças e canseiras…

* Dirceu Antonio Ruaro

Feliz coincidência o dia de hoje. Dia do Professor. Peço licença aos meus leitores para falar um pouco dessa profissão, tão necessária, tão importante, tão nobre e, ao mesmo tempo, tão desprestigiada.

Sabemos de tudo isso e muito mais. Mas, hoje, não quero fazer nenhuma defesa teórica, filosófica ou metodológica. Quero apenas refletir sobre sonhos, esperanças e também, canseiras, que a vida de professor oferece.

Esse é um momento histórico ímpar, um lapso de tempo no qual estamos afastados de nossa essência. Digo isso, porque estamos, pelo distanciamento social, afastados de nossa relação de “interpessoalidade”, fundamento muito próprio de nosso ofício.

É na relação interpessoal que fazemos a troca mais profunda e transformadora da arte de ensinar e aprender. Muito além das metodologias e ferramentas didáticas, o processo de ensino e aprendizagem pede, especialmente na educação básica, a presencialidade do professor e do aluno numa troca que se manifesta profundamente humana.

Essa é uma profissão, sem sombra de dúvidas, mas ai da sociedade que a considera como um apêndice. Não é tão somente “algo necessário”,  ou “uma política social” que muda ao bel prazer dos governantes de plantão.

É uma profissão que dá sentido humano na plenitude do significado. Transforma e ensina a transformar a própria vida, os sonhos, as esperanças.  É uma profissão que tem no seu cerne a figura e o papel do professor (pedagogo, como queiram), de um profissional que aprendeu a viver o humano, seus saberes, seus valores, sua cultura, os significados do falar, de escrever, interpretar.

Sem ser piegas ou saudosista, creio sim, que o professor ensina a sonhar: a sonhar que o aprendizado que está ministrando pode ser um ótimo companheiro para se obter tudo aquilo que o aluno pensa conseguir em sua vida, que o conhecimento é o caminho do saber, e o saber auxilia no caminho do ter e do ser.

E isso vai além de dominar tecnologias de comunicação e informação ou ainda “ferramentas” didáticas para ensinar. Não há “ferramenta didática” ou metodologia melhor do que o professor para despertar a esperança que vai impulsionar os sonhos e o desejo de uma vida melhor.

Socialmente e financeiramente falando, não é a profissão que vai enriquecer alguém (pelo menos não no Brasil), mas é a profissão por excelência, pois dela prescindem todas as outras.

Não há mestres ou doutores da área do conhecimento que for, que não dependa de quem lhes ensine a escrever, analisar, a interpretar. Por isso, também, a excelência da profissão que é na verdade algo muito artesanal, por isso considerado como um “oficio” que carrega em sua essência o desejo de despertar a vida nos outros.

A sociedade em geral, e especialmente a brasileira, precisa trazer professor para o foco da profissão. Essa é a grande esperança. O professor precisa sair do segundo plano a que foi condenado por políticas públicas que tem na educação “a retórica política para vencer eleição”.

A profissão de professor precisa assumir o protagonismo de ensinar e fazer aprender sem medo de ser criticado ou condenado. Há muitos “técnicos” em educação sem mínima formação pedagógica para isso. Dar palpites e dizer que é “assim ou assado”, sem saber “do riscado” como se diz em ditado popular, muito fácil. Ensinar diante contra a maré e a correnteza, como é no caso brasileiro, torna a profissão mais atraente, mais apaixonante, mais desafiadora, e, por isso, não é para “qualquer um”.

A profissão de professor, é uma profissão de alta complexidade. Exige conhecimentos e saberes dos mais diversos. Habilidades e competências que se mesclam e se transformam revelando a capacidade de alguém que precisa dominar vários campos de conhecimento: cultural, social, político, econômico,  os conhecimentos disciplinares e interdisciplinares, conhecimentos sobre as dificuldades e  os problemas de aprendizagens. Sobre técnicas, metodologias, ferramentas de ensino que sejam adequadas para aquela aprendizagem específica daquele aluno em especial.

Conhecimento do campo das relações humanas, das relações interpessoais, além, é claro da empatia, da resiliência, da capacidade de se “colocar no lugar do outro” e estar sempre disposto a aprender mais para poder ensinar melhor.

Sim, além de tudo isso, precisa de muito mais. Ensinar o voo a quem tem medo de sair do ninho. Ensinar a ousar, apesar das dificuldades. Ensinar a dialogar, pois é na troca que a pessoa se torna plenamente humana. Ensinar que as mudanças “não são castigos” mas parte do processo de superação.

Enfim, de sonhos, esperanças, canseiras, olhares estamos plenos, por isso, minha homenagem a todos meus colegas de profissão, àqueles que ousam ser mestres nos dias de hoje. Àqueles que ousam ser “mediadores” na construção das pessoas. Àqueles que, com coragem e determinação conseguem realizar seus sonhos, a ter esperança, apesar das canseiras que a profissão nos traz, pensem nisso, enquanto lhes desejo boa semana.

* Dirceu Antonio Ruaro é doutor em Educação pela UNICAMP, psicopedagogo clínico-institucional e assessor pedagógico da Faculdade Mater Dei

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