Ensino híbrido: o amanhã já chegou para as escolas de educação básica brasileiras?

Amigos, nos últimos dois textos, falei sobre o amanhã da educação infantil, do ensino fundamental e médio. Fiz várias considerações e, entre elas, a possibilidade da implantação do “ensino híbrido” nas modalidades de educação básica, ou seja, da educação infantil ao ensino médio.

Esse é um tema absolutamente complexo e atual. E, a bem da verdade, com aspectos legais que precisarão ser revistos na possibilidade de ter de implantar algo semelhante no próximo ano letivo, devido ainda, à pandemia.

Por exemplo, a própria legislação educacional não aprova o uso de ferramentas digitais para a educação infantil. No presente ano, por causa da pandemia, o Conselho Nacional de Educação, o MEC, o Congresso Nacional, adotaram e recomendaram possibilidades de interação com os alunos por meio de ferramentas digitais. Isso, porém, não significa dizer que a modalidade de “educação a distância” está implantada e aprovada em definitivo para todos os níveis e modalidades de ensino. Inclusive, nesse espaço, já fiz a diferenciação da autorização de uso de metodologias e ferramentas virtuais e a autorização para a modalidade de educação a distância, que é um processo de autorização de cursos a distância de acordo com MEC e os Sistemas de Ensino.

Pois bem, recebi diversos comentários e, dentre eles, dois que me chamaram mais a atenção por terem disso feitos por diversas pessoas: primeiro, se o futuro finalmente alcançou a escola brasileira e, o segundo, o que é o ensino híbrido, de forma compreensível para todos.

Penso que o futuro não chegou só para as escolas brasileiras. Chegou para todos nós: escolas, igrejas, clubes, restaurantes… enfim, foi uma chegada abrupta, mas sim, chegou.

Eu diria, agora falando das escolas, que estamos vivendo momentos de excepcional expectativa. Não temos as respostas e nem sei se teremos respostas. O que sei é que demos um salto nas condições de trabalho pedagógico, de repente, estamos de um lado e o aluno de outro lado da tela. Repentinamente a sala de aula, tão cara no seu design, especialmente para os tradicionalistas, ruiu. Já não temos mais os alunos sentadinhos “olhando um para a nuca do outro”.

Confesso que, senti nas falas de muitos professores, que o chão da sala de aula moveu-se tão de repente que não houve tempo nem para “um adeusinho”. Quando percebemos, nossas casas, nossa rotina, nossa forma de pensar foram, de chofre, transformadas.

Sim, acredito que, de certa forma, o futuro chegou sem muitos avisos, e fomos todos “pegos de supressa” tendo de nos moldar ao “novo normal”. Saber se teremos um bom desempenho, é outra situação, outro contexto que, agora sim, “só o futuro nos dirá”.

De alguma forma, especialmente no ensino superior já há bons ensaios de “ensino híbrido”. Na educação básica é muito incipiente e raras e honrosas experiências.

É preciso entender, não só a sociedade, como também os próprios professores da educação básica, que o ensino híbrido é uma “abordagem pedagógica” que combina atividades presenciais e atividades realizadas  por meio das tecnologias digitais de informação e comunicação.

O aspecto seguinte a entender é que existem diferentes formas ou propostas para combinar essas atividades. Cada unidade escolar, dentro de seu contexto e de suas possibilidades, poderá e/ou deverá organizar-se para a ação pedagógica que, certamente, não será mais a mesma de antes de 20 de março de 2020.

Mas, para isso, e para ter sucesso, um dos pressupostos é que se entenda a essência do que seja o ensino híbrido. Não se trata de “trocar” uma forma pela outra. A essência está em trazer o aluno para a centralidade de atividade pedagógica. Ou seja, a estratégia consiste  em colocar o foco do processo de aprendizagem no aluno e não mais na tradicional transmissão de conteúdos pelas aulas meramente expositivas.

Logicamente que mudar o foco do ensino para a aprendizagem demanda uma preparação muito séria, não só do corpo docente, como também dos alunos. Ora, a nossa realidade brasileira é sintomática: nossos alunos         (de forma geral)  não gostam de ler, de pesquisar, e muitos nem sabem, pois se acostumaram ao longo da vida escolar a ouvir, copiar e reproduzir. E, a bem da verdade, muitíssimos deles não estão a fim de fazer algum esforço. É mais cômodo decorar, mas, isso também é outra complexidade que terá de ser enfrentada tanto pela escola como pelos pais e alunos.

O ensino híbrido inverte o foco e traz o aluno para o centro das atividades. Ao invés de o professor apenas transmitir informações, o aluno deverá estudar o material (conteúdo, direitos de aprendizagem, objetivos de aprendizagem, como queiram),  em diferentes situações e ambientes, e a sala de aula, para a ser o lugar para aprender ativamente, realizando atividades de resolução de problemas ou projetos, discussões, atividades práticas em laboratórios ou situações de simulação, discussões, atividades em grupo, entre outras formas de interação, com o apoio do professor e ,em colaboração com os demais colegas.

Portanto, não significa, grosso modo, como está sendo propalado: “uma semana em casa e outra na escola”, essa forma pode ter outros nomes, como por exemplo, “grupos alternados” enquanto um está em casa o outro grupo está na escola. E isso, especialmente, nesse momento de pandemia, mas não se pense que ensino híbrido é só dar umas tarefas para o aluno fazer em casa numa semana e, depois, corrigir quando está em sala de aula.

Se as escolas foram atropeladas pelo presente e caíram no colo do futuro, que aprendam a lição e tornem o ensino brasileiro de maior e melhor qualidade, pois, professores para isso, temos, senão, vejamos quantos deles, em todas as escolas, públicas ou não, possuem cursos de especialização em matéria de ensinar e aprender, pensem nisso, enquanto lhes desejo boa semana.

* Doutor em Educação pela UNICAMP, psicopedagogo Clínico-Institucional e assessor pedagógico da Faculdade Mater Dei

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