Entre protocolos ideais e contextos reais

* Dirceu Antonio Ruaro

O momento, caros leitores, ainda é de grande ebulição no meio educacional. Agosto veio e, com ele, mais incertezas. Quando setembro vier, como estarão as coisas? Receio muito que estaremos ainda cantando, como na letra de “Manhãs de setembro”: “Fui eu que se fechou no muro e se guardou lá fora/ Fui eu que num esforço se guardou na indiferença/ Fui eu que em numa tarde se fez tarde de tristeza/ Fui eu que conseguiu ficar e ir embora”.

E a questão continua tão aberta quanto dolorosa: O que será da escola? Ou, como será escola? Ou, ainda, o que será dos alunos?

Nenhuma certeza, desafios, cenários de ficção, como o descrito num Protocolo de Retorno de um colégio de Porto Alegre (RS), que reproduzo aqui, por ter sido publicado e de domínio público, reservando-me o direito de não citar o nome da instituição de ensino. Analisemos:

“Uma equipe com doze profissionais paramentados aguarda no portão de entrada. Conforme os alunos chegam à escola, formam filas com distanciamento de 1,5 metro. Um a um, são identificados e têm as temperaturas corporais medidas. Quem está com suspeita de febre é imediatamente enviado para casa. Os demais ingressam nas dependências do colégio.

Enquanto as mochilas são sanitizadas, os estudantes lavam as mãos. Depois, passam por tapetes que desinfetam os sapatos. Ao chegar na sala de aula, cada um se acomoda em carteiras que também respeitam a distância mínima de um metro e meio. As janelas estão abertas.

Todos os alunos usam máscaras. Elas precisam ser trocadas a cada duas horas, a depender da idade da criança e das atividades do dia. Um aluno que passa dois turnos na escola pode precisar de até 6 máscaras por dia. A lavagem das mãos também acontece com a frequência de duas horas, sob supervisão de professores e funcionários.

Os ambientes – pátio, biblioteca, banheiros, laboratórios, refeitórios – estão demarcados para respeitar o distanciamento e são higienizados frequentemente. Nada de aglomerações. As séries voltam em horários e dias escalonados, limitando a circulação de pessoas na área externa e no interior da escola. No intervalo, mesmo após meses sem encontrar os colegas, nada de abraços ou qualquer contato muito próximo.

Na verdade, alguns colegas talvez nem voltem às aulas. É que aqueles com alguma doença que os inclua no grupo de risco para o novo coronavírus continuam no ensino remoto. Mães e pais inseguros, com medo que um filho possa se tornar um vetor ou se infectar com o vírus, possivelmente poderão mantê-lo estudando em casa pela internet”.

Muitos questionamentos surgem a partir desse cenário que, na verdade, não é fictício. É um cenário “planejado” para o retorno às aulas numa instituição de ensino real, num contexto e situações reais.

Questionamentos sobre “equipes preparadas para acolhimento aos alunos”, é o primeiro desafio. As escolas de pequeno porte terão essa ”força-tarefa”? Os alunos têm espaço suficiente no entorno da escola para fazer filas com distanciamento de 1.5 metro na entrada? A aferição da temperatura e a consequente permanência na escola ou retorno para casa, como se dará?

Como e por quem será feita a sanitização das mochilas? Como será possível manter a distância de 1.5 metro nas carteiras, na sala de aula? Como será possível fazer a sanitização das salas, refeitório e outros ambientes durante a permanência das crianças na escola? Como será feita a demarcação de espaços nos ambientes todos?

Máscaras devem ser trocadas a cada duas horas? Estamos falando de crianças. Elas vão brincar com as máscaras. Vão dar susto nos colegas, vão trocar de máscaras…. sob supervisão de professores e funcionários? Como?

Nada de aglomerações. Volta escalonada. Atendimento virtual dos pais.  Angústias dos pais, incertezas, medo de contaminação. É seguro reabrir escolas?

À medida que os governos anunciam planos de reabertura, um número crescente de pais e alunos questionam as decisões, considerando-as prematuras.

Mesmo que sejam adotados protocolos de distanciamento, de higienização de sala de aulas e corredores, além do monitoramento das tendências locais de infecção, pais e alunos ainda não acham seguro reabrir escolas e universidades.

Muitos dizem esperar por uma vacina, o que pode demorar um ano ou mais. E, pior, os dados não ajudam em nada. Quantos infectados a mais, diariamente? Quantas mortes depois de passarmos a barreiras dos cem mil?

É certo que vivemos em tempos de exceção. E esses tempos exigem, em alguma medida, a reinvenção da educação e da escola e tudo isso requer ponderação na decisão e urgência na ação. Pense nisso, enquanto lhe desejo boa semana.

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