O ensino híbrido veio para ficar?

* Dirceu Antonio Ruaro

Na semana passada, nesse espaço, fiz uma reflexão sobre o ensino híbrido, que vem sendo considerado como uma das metodologias “ativas de aprendizagem” capazes de dar conta do processo de ensinar e aprender, especialmente, nesse tempo de complexidade pelo qual estamos passando.

Salientei que é preciso entender, não só a sociedade, como também os próprios professores da educação básica, que o ensino híbrido é uma “abordagem pedagógica” que combina atividades presenciais e atividades realizadas por meio das tecnologias digitais de informação e comunicação.

Destaquei, também, que para que o “ensino híbrido” cumpra seu compromisso de transformar a educação e, para ter sucesso, um dos pressupostos é que se entenda a essência do que seja o ensino híbrido. Não se trata de “trocar” uma forma pela outra. A essência está em trazer o aluno para a centralidade de atividade pedagógica. Ou seja, a estratégia consiste  em colocar o foco do processo de aprendizagem no aluno e, não mais, na tradicional transmissão de conteúdos, pelas aulas meramente expositivas.

A partir das considerações que apresentei, recebi muitos comentários e, dentre eles, quero destacar dois para poder tentar responder a questão que dá titulo ao texto de hoje. “Professor, esta transição terá de provocar mudanças na estrutura das instituições de ensino e principalmente no docente… pois é sabido que boa parte não domina o uso de tecnologia… assim por diante, mas é outra vertente” e “a nova e necessária abordagem pedagógica atual, atinge à toda comunidade escolar, pais, professores e especialmente os alunos que devem ser o foco de todo processo de ensino. Para além da tecnologia, a empatia e a competência dos professores são essenciais”.

De fato, a transição que precisamos construir deve levar em conta algumas premissas e a primeira delas, sem dúvida alguma, é que “o aprendiz, nessa dinâmica pedagógica, é reconhecido como um sujeito dotado de diferentes habilidades para resolver problemas e, consequentemente, diferentes estilos de aprendizado. Por isso, nessa, digamos “ nova abordagem educacional”  passa a ser de suma importância focar e valorizar o processo de aprendizagem e não a simplória transmissão de conteúdos (ensino). Passa

a ser necessário conduzir o sujeito a aprender a aprender, o que pode ser entendido como o desenvolvimento da capacidade de refletir, de analisar e de tomar consciência do que se sabe, da disposição para mudar conceitos com base em novas informações; é uma situação na qual o conhecimento encontra-se em permanente construção.

Para referenciar o que estou dizendo, cito o que a Professora Maria Cândida Moraes apresenta na obra O PARADIGMA EDUCACIONAL EMERGENTE. 11. ED. CAMPINAS: PAPIRUS, 1997, “Outra vertente, de extrema importância é, sim, o “novo papel” exigido do docente. Nessa abordagem metodológica, os educadores assumem um papel diferente do tradicional: deixam de ser meros transmissores de conteúdos e passam a se dedicar à pesquisa, à atualização constante de seus conhecimentos, ao entendimento das necessidades de seus tutelados e, com isso, a elaborarem propostas curriculares flexíveis, que se adaptam ao contexto dos discentes. 

Para a Professora Maria Cândida Moraes, “valorizar o contexto dos alunos se constitui como fundamental: os alunos estão sempre inseridos em um meio social, junto a uma comunidade. Essa realidade passa a ser considerada como suporte intelectual e fonte de problemas que requerem soluções. Essas últimas, podem ser implementadas pelos aprendizes, sujeitos ativos no processo de construção do conhecimento, sempre que possível, envolvendo um enfoque multidisciplinar”.

Então, sim, há muito que fazer e é de extrema urgência antes de se faça “bobagens pedagógicas irrecuperáveis” é preparar muito bem os docentes, de todos os níveis e etapas de ensino.

E, sabemos que isso não é fácil, Ocorre-me, nesse momento, a lembrança de uma época bem próxima de nos, o Ministério da Educação aplicou novas regras sobre a questão dos alunos com deficiências e propalou aos quatro ventos pela televisão que todos os docentes da educação básica tinham formação em libras, que estavam preparados e prontos para atuar.

Que é isso companheiro? A preparação foi mesmo “pra inglês ver”. A grande maioria de nossos docentes não sabe e não se sente capaz de lidar com a Língua Brasileira de Sinais, apesar de o MEC considerar todos bem “formados”.

Então, antes de embarcar numa “aventura desastrosa” e que acabe por prejudicar mais do que auxiliar na aprendizagem, É PRECISO FORMAR OS DOCENTES.

E, não só isso. Se levarmos em consideração que “Híbrido” significa misturado, mesclado, blended, precisamos entender que, de fato, a educação brasileira sempre foi misturada, sempre combinou vários espaços, tempos, atividades, metodologias e públicos.

Nessa forma de ensinar e aprender é interessante entender que sim, podemos ensinar e aprender por meio de inúmeras formas e em múltiplos espaços. E, é preciso atentar para os espaços de aprendizagem. Não é só a tecnologia, tem a questão, sim de espaços físicos, bibliotecas, laboratórios, currículo, pois é preciso que o professor saiba exatamente o que vale a pena aprender para saber o como fazê-lo.

A preocupação dos dois leitores que aqui descrevi e tentei responder, é de extrema profundidade. Propostas educacionais sérias são, por experiência vivida, aqui no Brasil, usadas como “trampolim” e “retórica de palanque político”, precisamos prestar mais atenção nos discursos e nas práticas dos sistemas de ensino brasileiro, iniciando pelo MEC, pensem nisso, enquanto lhes desejo boa semana.

* Dirceu Antonio Ruaro é doutor em Educação pela UNICAMP, psicopedagogo clínico-institucional e assessor pedagógico da Faculdade Mater Dei

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