Papai, mamãe, brinca comigo?!

* Dirceu Antonio Ruaro

Com a devida permissão de meus leitores, reconheço que a situação e o contexto da pandemia nessas últimas semanas tem, uma vez mais, alterado nossas rotinas de família e de escola.

De certa forma, muitos estão entrando numa onda de cansaço, desânimo, desesperança. Porém, é preciso lembrar que não é privilégio de nossa região, estado ou país essa situação.

A gangorra da pandemia se expande em todos os países do planeta Terra, uns com mais rigor outros, com menos. Mas, ninguém está a salvo.

Sabemos que, no momento, as autoridades sanitárias nos pedem para ficar em casa, para cuidarmos de nós mesmos, de nossas famílias, da nossa saúde física e mental.

Pedem que tenhamos calma, paciência, sabedoria e que cuidemos de nossa saúde emocional e mental.

E é, nesse redemoinho de emoções e sentimentos, que batemos de frente com nosso contexto familiar.

Nossos filhos, outra vez, com as escolas fechadas ou em ensino remoto na forma híbrida, ou alguns que ainda não experimentaram “o gosto da volta”!

Precisamos ter a capacidade de olhar para dentro de nós mesmos e nos revestir de força, esperança e coragem para ensinar aos nossos filhos que a vida vale muito mais do que qualquer coisa material.

É claro que não é fácil “ficarem casa”. É lógico que a organização social tem estruturas das quais dependemos. A grande maioria das famílias tira seu sustento do trabalho dos pais; essa é uma realidade da qual não se pode fugir ou “fingir” que não existe.

Estar com as crianças em casa e, com a escola em modo remoto, requer muita participação das famílias, requer cuidados dos pais e dos irmãos mais velhos, requer acompanhamento contínuo por parte dos pais.

E, verdade seja dita, as crianças e adolescentes já não estão mais “tão entusiasmados” pelas aulas remotas ou virtuais. O “encanto” já passou. A novidade está superada.

Se para as crianças [com 9, 10 anos] ou os adolescentes a questão da aula remota/virtual está difícil de ser encarada, imagina para a criança de 6 anos.

E é nesse contexto de dúvidas, contradições, falta de esperança que as crianças olham para os pais e pedem: “Papai, mamãe, brinca comigo?”.

Sei perfeitamente do cansaço dos pais, sei da exaustão que a pandemia provoca, sei que grande parte dos pais está trabalhando como pode, revezando um “home office”, com trabalho presencial e cuidado com as crianças.

Sei que os pais estão em dúvidas sobre a transmissibilidade do vírus, sobre as notícias alarmantes de que a nova cepa é mais contagiosa e mais perigosa para os mais jovens. 

Apesar de tudo isso, os pais não podem esquecer da atenção que os pequenos precisam. Não podem esquecer dos sorrisos, das brincadeiras, da ocupação do tempo de uma forma que, ao mesmo tempo que lhes dê segurança, alivie a tensão emocional.

Por isso, é importante aproveitar os momentos de convívio familiar para provocar brincadeiras e, de certa maneira, olhar para dentro da família, envolvê-la, de alguma forma, para ajudá-la a superar as dificuldades que a ausência dos demais familiares e amigos traz a cada um.

Quem sabe ter um olhar mais compreensivo, mais carinhoso, para as peraltices que as crianças fazem. Quem sabe divertir-se com os gestos, olhares e histórias que as crianças, mais do que os adultos, são capazes de viver.

Quem sabe, não deixar as preocupações como que escritas na testa da mãe e do pai. Quem sabe inclinar-se para olhar nos olhos dos pequenos e perceber a profundeza da inocência, da luz e da esperança nos olhos inquietos de suas crianças.

Quem sabe os pais pudessem alimentar os olhares curiosos, fantasiosos das crianças. Quem sabe pegar um álbum de fotografias e “viajar no tempo” com eles.

Quem sabe minimizar o uso de celulares e tablets (a aula remota/virtual) já os deixa na frente de telas por horas a fio…. é importante encontrar maneiras de entreter os filhos para além dos aparelhos eletrônicos e aproveitar para nutrir a criatividade das crianças e estreitar os laços familiares.

Sei muito bem do cansaço, das dificuldades que os pais passam sem a pandemia, imagina nesse contexto. Mas se tem uma coisa que precisa ser dita: as crianças não têm culpa de nada. Não é nelas que vamos descontar nossos dissabores, nossas preocupações, nossas frustrações.

Por outro lado, precisa incutir nas crianças que a não frequência presencial às aulas não significa férias. Que, infelizmente, ou felizmente, as aulas remotas/virtuais precisam de atenção e do cumprimento das tarefas, e que isso não é fácil para ninguém. 

Diante disso tudo que estamos passando e, apesar dessa situação, precisamos aproveitar os momentos de convívio em comum, fazer brincadeiras, espontâneas, pois não precisa de muito para a brincadeira ficar divertida – é só deixar a criatividade e a imaginação rolarem.

Aliás, imaginação e criatividade podem ser deixadas por conta das crianças, basta dizer “sim” e começar a brincadeira. Pense nisso, enquanto lhe desejo boa semana.

* Doutor em Educação pela UNICAMP, Psicopedagogo Clínico-Institucional e Assessor Pedagógico da Faculdade Mater Dei