Pontos e contrapontos da volta às aulas presenciais: seguranças e inseguranças

* Por Dirceu Antonio Ruaro

Prezados amigos, na semana passada abordei o tema da volta às aulas presenciais e a necessidade de protocolos de biossegurança.

Pois bem, esse assunto é muito controverso e, por isso, falo hoje de pontos e contrapontos da volta às aulas presenciais, as seguranças e inseguranças que isso enseja.

Não temos nenhuma segurança, nesse momento, para a volta às aulas presenciais. Aliás, não há como se definir uma data, apesar de alguns estados e municípios, divulgarem que volta no dia X.  Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) e os órgãos federais, estaduais e municipais, nada está claro para ninguém, no Brasil, para se decidir por uma data de volta às aulas presenciais. Aliás, a recomendação para esse retorno é que haja um achatamento da curva da doença, o que, não é fato concreto e observável, ainda, nos estados e municípios brasileiros.

Certamente, essa “volta às aulas presenciais” suscita muitas dúvidas, inseguranças, ansiedades, preocupações.

Muitos pais publicam nas redes sociais que não mandarão seus filhos de volta à escola, criando, de certa forma, impasses que os Sistemas de Ensino terão de resolver.

Muitos estados e municípios falam em “ensino híbrido” no retorno às  aulas presenciais, sem dominar muito bem o que seja esse metodologia de ensinar e aprender.

A única certeza que temos, no momento, é de que o retorno, quando acontecer, não será dentro da normalidade daquilo que concebemos como aulas presenciais até hoje.

Tenho recebido muitas solicitações para falar sobre esses assuntos e, então, no texto de hoje vou abordar pelo menos cinco pontos que refuto como de extrema importância.

Primeiro ponto: Protocolos de segurança: talvez esse seja um dos pontos mais delicados a ser tratado. Não se pode retornar sem a segurança ideal, que não é apenas relativa à higienização, ao uso de máscaras, distanciamento. Outras medidas de proteção precisam ser tratadas. Que equipamentos de proteção serão necessários, para além das máscaras? Nada resolve se os Sistemas de Ensino tiverem como preocupação a elaboração de uma receita de segurança para todas as escolas, sem levar em conta os contextos situacionais das mesmas.

Contraponto: todas as escolas possuem as condições? Essa precisa ser uma das preocupações centrais dos Comitês que, Brasil afora, estão elaborando os chamados “protocolos de biossegurança”. Os contextos situacionais das escolas exigem uma reflexão e tomada de decisão que não pode ser como uma receita para todas as instituições de ensino. Existem condições de recursos humanos, de materiais de higiene e outros que ensejam a tomada de decisão baseada na realidade local?

Segundo ponto: espaços físicos. De nada adianta o protocolo de biossegurança determinar que haja distanciamento social de 1,5 metros entre os estudantes se as salas de aula não comportarem. É preciso pensar muito bem no que significa esse “distanciamento social” com segurança na sala de aula e nos espaços pedagógicos.

Contraponto: e as escolas que não dispõem de espaços suficientes? Ora, como sabemos, a grande maioria das construções escolares são muito acanhadas, pequenas mesmo, com espaços reduzidos. Muitas redes de ensino, especialmente públicas (não que as particulares não tenham essa dificuldade), apresentam sérios  problemas de espaços físicos.

É preciso que os sistemas, as redes e as instituições de ensino planejem com o pé no chão. E isso implica questões muito importantes de segurança. Como serão treinados os pais para deixar e apanhar os filhos menores na escola? Como serão treinados os alunos para a ida ao banheiro? Como serão treinados os alunos para a alimentação escolar? Como se treina os funcionários técnicos administrativos da unidade escolar?

Terceiro Ponto: prioridades pedagógicas: as publicações do Conselho Nacional de Educação e dos Sistemas de Ensino, de modo geral, têm sinalizado para a necessidade de uma “avaliação diagnóstica” quando do retorno às aulas presenciais para se “verificar” o que o estudante aprendeu nesse período.  Concordo que há essa necessidade, mas como será realizada? Que tipo de diagnóstico está sendo pensado? Mais, ao retornar, se reinicia em que ponto das questões pedagógicas? Será que as escolas (especialmente os docentes) poderão decidir o “que é mais importante ensinar e aprender nesse ano letivo?” Será que será permitido que cada escola, cada turma, cada segmento decida o que é mais importante e “replaneje” seus conteúdos e metodologias?

Contraponto: envolvimento dos professores. E o envolvimento dos docentes nisso tudo? Salvo honrosas exceções, não se vê publicações dos sistemas de ensino preocupados com os docentes. Parece que o mecanicismo tomou conta desse processo. Ou será que na verdade, os docentes não estão abandonados à própria sorte? Repito, salvo poucas e honrosas exceções, os docentes apenas são comunicados que devem fazer isso ou aquilo, dessa ou daquela maneira.

Outra questão séria que envolve o pedagógico: Se os protocolos de biossegurança exigirem que a escola tenha turmas com menor quantidade de alunos, provavelmente vai ser preciso adicionar novas turmas e professores. Que implicações financeiras isso vai trazer, tanto na rede púbica quanto na rede privada? E se for necessário mesclar o presencial e o digital, como será feito?

Quarto ponto: envolvimento das famílias. O envolvimento das famílias é questão primordial. Pesquisas e publicações nas redes sociais têm demonstrado que os pais de estudantes da educação básica se sentem inseguros com relação à volta às aulas durante a pandemia. Preocupações também com o deslocamento dos estudantes, pois pode haver exposição dos mesmos ao vírus no trajeto de casa para a escola e ainda, a exposição das famílias que moram na mesma casa ao vírus, entre outras.

Contraponto: se antes da crise a grande queixa das escolas era o pouco envolvimento, como será agora? Não imagino que “estratégia” possa envolver os pais na tomada de decisões e nem se, de fato, os pais serão envolvidos em algum tipo de decisão. O que tenho presenciado até o momento, infelizmente, são decretos, medidas oficiais e comunicados aos pais e professores. Diálogo, pedra central da construção do relacionamento escola-família, passa ao largo, ou à margem, se quiserem.

Para muitos pais, como se observa em publicações de pesquisas e redes sociais, a preocupação das escolas não deve se restringir à aprendizagem do conteúdo específico de cada matéria em si, mas devem cuidar de medidas de proteção e atenção às emoções dos alunos e professores, desencadeadas pela pandemia. 

Quinto ponto: papel dos professores. Sabemos que pais, estudantes, gestores, especialistas em educação, enfim todos que de alguma forma estão ligados à questão educacional, demonstram grande preocupação e sensibilidade ao retorno às aulas presenciais.

Isso é certo. Porém, o que tenho acompanhado e, a experiência pedagógica me autoriza a dizer, é que o grande catalizador de todo o retorno, será o professor.

Quando a escola reabrir, quem vai receber os estudantes (as crianças, especialmente) na sala de aula?

Quando do retorno às aulas presenciais, essa “nova etapa” exigirá dos docentes novas estratégias para substituir o abraço, o afago e não deixar de demonstrar o afeto. Além de repensar (reinventar) as relações interpessoais, os docentes deverão também repensar os projetos de ensino e construir uma nova rotina pedagógica.

Contraponto: pouco, ou quase nada se observa de preocupação com os docentes das escolas, tanto privadas quanto públicas. Porém, a nova realidade ou o “novo normal” trará imensos desafios, especialmente aos professores da educação básica, especialmente educação infantil, anos inicias e finais do ensino fundamental.

E, sinceramente, na sala de aula, os professores é que representam o “porto seguro” dos alunos e, por que não dizer, das famílias também.

Penso que, além do acolhimento e valorização do aluno, os sistemas e redes de ensino e as famílias devem estender também ao professor esse acolhimento, valorizando, mais do que nunca, seu papel e sua posição na escola e na sociedade> Pensem nisso, enquanto lhes desejo boa semana.

* Dirceu Antonio Ruaro é doutor em Educação pela Unicamp e assessor pedagógico da Faculdade Mater Dei, de Pato Branco (PR)

Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Para cima