Possíveis lições que devemos aprender com a pandemia da covid-19

* Dirceu Antonio Ruaro

Ainda esperançoso, apesar de reconhecer que a pandemia continua mais ativa do que nunca, penso que é possível, nesta confusão toda em que nos encontramos, tirar algumas lições a partir da vivência desse contexto inigualável a que fomos forçados a viver.

Ouvi e li tantas coisas a respeito. Algumas muito plausíveis, reais, assustadoras até, e outras, muito fantasiosas, além do que de fato ocorre/ocorreu nesse tempo.

Esperançoso, porque tenho como meta e desejo final, que saiamos todos dessa situação, para poder continuar nossas atividades diárias, nossas vivências familiares e sociais.

Esperançoso, porque como educador, penso que a partir dos contextos reais de nossas casas, municípios, estados e nações, temos oportunidades de analisar e refletir sobre os mais diversos comportamentos humanos, revelados na pandemia.

Comportamentos, na verdade, há muito tempo presentes nos relacionamentos pessoais/interpessoais, comunitários.

E, um deles, talvez o mais maléfico de todos, é o egoísmo com que as pessoas se comportaram e se comportam nesse tempo.

É verdade que “medidas drásticas” amargas, não são fáceis de serem tomadas e aceitas. Sempre se estará desagradando alguns setores.

Mas, quando me referido à lição de compreender o quanto as pessoas são egoístas é porque, apesar de ser lei, estadual e municipal, muitas pessoas ainda não aprenderam a lição de que é necessário usar máscaras. Basta andar pela cidade. Não precisa ir muito longe, no meu caso, basta descer do andar do prédio em que moro, e ir, uns 40 passos até a Praça Presidente Vargas.

Grupos de adolescentes e adultos, sentados, ou em grupos, em pé, em rodas de conversa, sem o mínimo cuidado do uso da máscara. Marca do egoísmo. Do não pensar nos outros, nem nos próprios familiares. Essa é uma lição que nós, educadores teremos de abordar nas nossas aulas, sejam elas presenciais ou remotas. Fazer nossas crianças e adolescentes se sensibilizarem pelo outro.

Um dos pilares da educação para o Século XXI, de acordo com a UNESCO, órgão das Nações Unidas para a Educação, é “APRENDER A CONVIVER”.

Aprender a conviver envolve saber conviver em sociedade, em comunidades, em grupos, em relacionamentos interpessoais, na forma colaborativa de convivência.

Muito mais do que falar sobre a não-violência, é aprender que, quando não respeito o bem comum, o que é de interesse de todos, estou cometendo um tipo de violência.

Significa entender que ninguém é igual a ninguém, porém que todos têm os mesmos direitos e deveres. Que meu direito tem o limite do direito do outro.

Significa que é preciso criar laços afetivos com as pessoas, sejam ou não de nossas relações familiares. Para isso é preciso criar e fortalecer o sentimento de empatia, de respeito e de tolerância. Mas não só isso. Significa a capacidade de colocar-me no lugar do outro e sentir o que ele sente.

É possível que eu possa estar sendo pessimista, mas causa-me estranheza o ser humano que não consegue entender, nesse momento crítico da vida, que é necessário respeitar o outro e adotar medidas de segurança, como o distanciamento, a higiene pessoal, o uso de álcool em gel, o uso de máscaras e  o protocolo de etiqueta social.

Outras lições são extremamente interessantes. Uma delas que desejo comentar e de certa forma, analisar, foi proporcionada numa entrevista à RPC, no dia 19 de fevereiro, sexta-feira, pelo Prefeito de Curitiba Rafael Greca.

Ao ser questionado pela repórter se não haveria prejuízo sobre a aplicação da segunda dose de vacinas, devido ao fato de que, naquele momento, Curitiba precisou interromper a vacinação de idosos, por falta de doses da vacina, o Prefeito disse: “- Quando quis Deus que nós vivêssemos no Brasil, nós fomos condenados a acreditar nas nossas autoridades”.

Dizer que é estranho o prefeito da capital falar isso é ser muito delicado. É uma autodeclararão de incompetência das autoridades, inclusive dele, por ser autoridade. Pior ainda, é um reconhecimento de que, no Brasil, o que as “autoridades” dizem não pode ser levado a sério.

E fica a pergunta: uma condenação ter de acreditar nas autoridades? Essa é uma lição muito amarga, que infelizmente temos de engolir. Numa calamidade pública como a que estamos vivendo, ouvir isso de uma “autoridade” é o mesmo que dizer: “Olha povo, se dane, vocês escolheram essas autoridades e agora aguentem o que elas dizem, mas não acreditem nelas”. 

Bem, minha esperança, como educador, é que aprendamos as lições e, quem sabe, sem paixões políticas possamos aprender a escolher “nossas autoridades”, pense nisso, enquanto lhe desejo boa semana.

Doutor em Educação pela UNICAMP, psicopedagogo Clínico-Institucional e assessor pedagógico da Faculdade Mater Dei