Quem tem pressa, vai devagar!

* Dirceu Antonio Ruaro

Caros amigos leitores, venho ainda tratando do tema da pandemia com referencias às escolas e às famílias. Semana passada, falei dos protocolos de retorno e dos contextos reais das instituições de ensino. Devido ao texto recebi muitos questionamentos, que resumo abaixo e aos quais, a longo do texto tento responder.

É consenso no mundo educacional que as crianças aprendem por modelo e tendem a espelhar o comportamento nos pais e irmãos mais velhos, ou seja, na família. Assim, se os adultos com quem as crianças convivem, forem pessoas que conversam, trocam ideias, discutem temas ligados ao mundo e aos acontecimentos diários elas tendem a replicar esse comportamento.

Por que estou dizendo isso?

Simples, mas ao mesmo tempo complexo, estamos passando por um período de questionamentos, angústias, incertezas que povoam nossos momentos de reflexão. Pais e mães, de modo geral, não conseguem responder perguntas que incomodam as crianças devido à pandemia, ao distanciamento social.

“ Vai demorar muito”?

“Quando vou poder voltar para a escola?”

“Você não sente saudade de seus amigos, eu sinto, por que não posso ir na casa deles?”

Muitos outros questionamentos derivam desses. Ah, se pudéssemos responder com certeza a todos eles. E, espiando esses questionamentos que fluem a todo instante em nossas famílias, nossas mentes também se abarrotam de dúvidas, de perguntas mesmo, sobre a pandemia, os comportamentos, as aulas, a volta às aulas, as ações das autoridades, a preservação da vida.

Ensinamos todos os dias que é preciso usar máscara, lavar as mãos, higienizar as compras que chegam do supermercado. Nossos comportamentos mudaram, não damos mais abraços, nem beijos. Chegamos da rua (quem ainda pode sair) e imediatamente há uma liturgia: lava, esfrega, estende, higieniza, só depois diz “Oi, cheguei”.

É claro que em cada família há um contexto social.  Há uma forma de perceber e atuar sobre as questões da pandemia. É certo que nem todas as famílias percebem e vivem a pandemia do mesmo jeito.

Para as crianças temos, nesse momento, uma única realidade social, que abarca todos: todos estão longe da escola. E esse longe da escola, nos leva a perceber a criança em toda sua necessidade física e emocional.

É papel fundamental dos pais e/ou adultos que estão convivendo com as crianças, especialmente as da pré-escola e do ensino fundamental, perceber e acolher as dúvidas, incertezas e angústias delas.

Nunca é demais lembrar que nessa fase, muitas vezes por não ser costume na família, as crianças fazem muitos questionamentos aos professores. E, é na escola, que conseguem manifestar suas duvidas.  E, um agravante é que, elas estão sem aquelas pessoas que são seus confidentes, aquelas que param e escutam o que as crianças têm a dizer: seus professores.

Muitíssimas vezes, as pessoas que ouvem com atenção e se importam com o que as crianças dizem, perguntam, narram, são mesmo os professores. E, sem desmerecer o papel dos pais, são sim os professores que se tornam pontos de referência e confiança das crianças.

Sei que educar uma criança vai muito além de dar respostas sobre todas as questões que elas apresentam. Sei que a criança sente se o pai ou mãe “se importa” com ela pelo jeito de responder a seus questionamentos, pelo jeito de “mandar fazer alguma coisa”, e sei, também, a grande falta que o convívio escolar está fazendo para as crianças, para muito além do incômodo familiar de ter as crianças em casa  vinte e quatro horas por dia.

Por isso, sei que, enquanto vivemos a maior crise sanitária mundial, a impossibilidade de dar respostas e de ter certezas sobre pequenas coisas interfere, também, no pensamento e na ação dos adultos.

Não sabemos mais responder coisas simples como quando poderemos encontrar a família toda (avós, primos, tios), os amigos, a escola, o parque, a nossa rua. Sei que são perguntas que incomodam e tiram o sono não só das crianças, mas de nós adultos também.

Muitos pais têm-se comunicado comigo, narrando acontecimentos, fatos, questionamentos. Muitos querem saber se estão agindo certo, se não vamos perder o ano letivo, como vai ficar a recuperação dos conteúdos, que consequências essa pandemia vai deixar para a escola e para as famílias?

Fico preocupado com os “ensaios” da volta às aulas presenciais, com as flexibilizações de tantos setores e, com as “urgências” de reabrir isso ou aquilo.

Ao refletir sobre os questionamentos recebidos, tentei entender um pouco dos versos de Geraldo Vandré na música “pra não dizer que não falei de flores”: “Caminhando e cantando/ E seguindo a canção/ Somos todos iguais/ Braços dados ou não/ Nas escolas, nas ruas/ Campos, construções/ Caminhando e cantando/ E seguindo a canção/.

Podemos dizer que o compositor se refere a todos como iguais, pois estão dentro de um mesmo contexto e lutando por algo em comum, ou seja, todas as instituições e todos os cidadãos. Sim, precisamos, mais do que nunca, agir solidariamente e com responsabilidade, pais, escolas, autoridades, em favor da vida.

Ao pensar sobre isso tudo, me vem à mente uma frase dita com muita frequência por uma ex-companheira do Conselho Estadual de Educação do Paraná. Costumeiramente ela diz: “quem tem pressa, vai devagar”. Parece que é exatamente isso que precisamos fazer agora: ir devagar para dar respostas mais seguras para nossos filhos, nossos alunos, nossa sociedade.

Sei que desaceleramos muitas coisas, que perdemos muitas coisas materiais, mas por outro lado precisamos preservar a vida, mais que isso, precisamos ensinar nossos filhos o valor da vida.

De qualquer forma, é preciso lembrar que, nesse momento, sem o espaço de socialização e aprendizagem oferecido pelas escolas, as referencias e modelos de comportamento das crianças estão, mais do que nunca, centrados nos pais e/ou adultos com os quais se relacionam no dia-a-dia e, essa realidade, muda a lógica de “deixar pra depois”, as crianças precisam de explicações a todo instante, sejam de ordem física, sentimental ou emocional, o certo é que as famílias se tornaram, de fato, a centralidade da vida em comum, pense nisso enquanto lhe desejo boa semana.

* Dirceu Antonio Ruaro é doutor em Educação pela Unicamp, psicopedagogo clínico-institucional e assessor pedagógico da Faculdade Mater Dei, de Pato Branco (PR)

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