Cultura

João Lopes se apresenta hoje em Pato Branco

O cantor e compositor paranaense João Lopes volta a se apresentar em Pato Branco na noite desta quinta-feira (4), às 20h no Teatro Sesi. Segundo informações dos organizadores, para assistir ao show é necessário levar 1kg de alimento não perecível, e estar presente no local da apresentação com pelo menos uma hora de antecedência, por conta da capacidade de lotação do teatro.
Mais conhecido pela música Bicho do Paraná, João Lopes iniciou sua carreira nos anos 70, e desde então vem compondo e cantando sobre a vida no interior e sobre seu estado natal – o músico é natural de Califórnia, norte do Paraná.
Esta será a segunda apresentação de Lopes no município em menos de um ano. Em 2016, o músico participou de um evento de valorização da cultura local realizado pelo Colégio Integral. Nesta quinta, Lopes deve novamente apresentar as músicas mais importantes de seu repertório.
Quando começou sua carreira, o mercado da música era diferente. Ao invés de ouvir uma música na internet, o público dependia das rádios para conhecer novos artistas e novos lançamentos, e o quente da cena musical acontecia no eixo Rio-São Paulo.
Em tempos de Bossa Nova, João Lopes desembarcou no Rio de Janeiro com a cara, a coragem e soprando uma gaita de boca. Conseguiu pouca coisa, pois o que os produtores queriam eram um cara de visual tradicional, diferente do tipo barbudo e cabeludo, que sempre foi a marca do cantor. Vim de uma região de terras férteis, sou do interior do nortão do Paraná, onde as características do homem do campo são essas aqui. Felizmente, consegui cantar e tocar um violão, relembra o cantor, em entrevista publicada no ano passado, na revista Vanilla. A seguir, você confere alguns dos principais trechos da conversa, conduzida pela repórter Mariana Salles, e que contou com a participação da esposa do músico, Carminha: 

Você é conhecido por ser o porta-voz musical das tradições do Paraná, mas a identidade cultural no nosso estado varia de região para região. Qual é a sua percepção sobre todas essas diferentes identidades?

João Lopes – À identidade cultural do Paraná atribuo mais o povo caipira que somos, acanhados. Partiu de Curitiba essa história que paranaense é fechado, que não valoriza seu talento, sua terra. Como são vários povos dentro do Paraná, acho que a cultura tem que se desenvolver por regiões. Tem a cultura do Norte do Paraná, que sofre uma influência bárbara do interior de São Paulo, e também das pessoas que vieram no norte do Brasil, que vieram na época da cultura de café. Essa é a minha região. Aqui, no Sudoeste, vocês têm uma influência muito legal do Rio Grande do Sul. 

Carminha – Estávamos discutindo exatamente isso na hora do almoço. Falávamos das pessoas do nordeste, que endeusam a sua cultura, os artistas deles. É isso que falta um pouco no Paraná. O gaúcho tem mais isso, o catarinense também, e no Paraná esse orgulho é menor.

João Lopes – Eu atribuo esse fenômeno multicultural a essa mistura toda. Fica mais fácil trabalhar por região. É preciso entender que há diversas culturas, e não tirar essa identidade que há em cada região.

Falamos do Almir (Sater), do Rolando Boldrin e de você não gostar do rótulo rock rural. Mas vemos em sua música um pouco de folk, um pouco de rock e desse caipirismo que você se orgulha. Quais são, então, suas principais influências?
Não que não goste do rock rural, mas eu nunca rotulei a minha música. Sempre gostei de falar que o estilo que faço é Música Popular Brasileira que não é samba. Porque você chega fora do Brasil e fala MPB, o cara já espera um sambinha. Só que a música sertaneja, por exemplo, é super popular. O rock’n roll pode ser super popular. 
O folk, como você acabou de dizer, está em alta, todo mundo está ouvindo. Mas a minha música não vou chamar de folk, porque ela é brasileira. E também não vou chamar de música sertaneja. Eu sou um caipira moderno, com influências que vêm do norte do Paraná, daquela colonização do povo do interior de Minas Gerais, de São Paulo, dos nordestinos que chegaram através da cultura do café, que mobilizava muita gente na época em que tinha plantação de café. 
E quando eu era criança, ia lá brincar no meio do cafezal e eu ouvia o cancioneiro daquela gente. (Cantarola) Eu tava na peneira, eu tava peneirando, eu tava no namoro, eu tava namorando, que era do Luiz Gonzaga, lá do nordeste. Ao mesmo tempo eu ouvia uma música do Tonico e Tinoco, ouvia Nelson Gonçalves.  Depois, na adolescência, pintou o lance de começar a ouvir a Jovem Guarda, Roberto Carlos. E sempre tive um pezinho mais para o rock’n roll do que para o popular. Eu me lembro que gostava muito de Renato e seus Blue Caps, de Erasmo Carlos, Eduardo Araújo, que era uma galera mais do rock, eu curtia muito. 
Depois pintou o negócio dos sonhos. Quando ouvi Satisfaction [do Rolling Stones] pela primeira vez mudou tudo, foi uma loucura. Só que ao mesmo tempo eu gostava de ouvir também um Luiz Gonzaga, que era aquela coisa da infância. Foi tudo se misturando antes mesmo de eu saber que um dia eu iria fazer uma música.

A internet está aí para facilitar a divulgação do trabalho dos músicos. Você usa bastante esses meios?
Eu sou cara meio burro nesses negócios. Aliás, sou um cara que só canta porque Deus pediu para eu cantar, certamente. Porque, se você me pedir meu penúltimo disco, não tenho mais, não sei nem onde tem. Procuro mostrar para o público, e até para os próprios artistas, que valorizando o seu território, sua essência, você vai dar voz para o seu povo, que está ligado na sua vibração no segmento cultural. Eu só posso falar da minha música porque é dela que eu vivo, mas quando falo um disco, uma letra, já tenho a intenção de ver se melhoro a vida de alguém ou dar um conforto ao menos.


Filmagens para documentário

Pato Branco é uma das dez cidades paranaenses escolhidas para a gravação de um videoclipe que integrará o documentário João Lopes – Bicho do Paraná, que contará a história do autor da música Bicho do Paraná, considerada o hino não-oficial do estado.
As filmagens ocorrerão no dia 4 em dois períodos. Pela manhã, elas serão em frente à araucária da Rua Tocantins, com o acordeonista Diego Guerro. Já à tarde, elas terão a participação do músico e diretor do Centro Musical Fascinação Jean Venâncio. Lopes, autor da canção, acompanhará as filmagens.
O filme é produzido pela L’Avant Filmes e tem previsão de lançamento em 2018, com exibição local e nacional. O videoclipe faz parte da primeira etapa de produção do longa-metragem, que percorrerá ao longo do mês de maio algumas das principais cidades do estado para mostrar as belezas e os diferentes estilos musicais que compõem a nossa cultura. Entre eles estão o tamanco, o acordeão, o rock, o jazz e o blues.

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