Preço recorde do trigo em 2020 deve estimular produtor a ampliar área plantada

Colheita de trigo. Pitanga,11/10/2019 Foto:Jaelson Lucas / AEN

A área plantada com trigo deve crescer na safra 2020/21, embalada pelo ano excepcionalmente favorável para a cultura em 2020, com os maiores valores pagos ao produtor dos últimos cinco anos. É o que esperam especialistas no setor. Embora a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) ainda não tenha indicado, em seus levantamentos mensais, qual será o desempenho das culturas de inverno no atual ciclo, representantes da cadeia produtiva confirmam que os triticultores vão investir na ampliação, ou, no mínimo, na manutenção da área cultivada e, mesmo assim, com perspectiva de colheita bem acima da anterior.

“É cedo para bater o martelo sobre a área plantada, mas o produtor vai continuar motivado”, confirma ao Broadcast Agro (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) o gestor de risco em trigo da consultoria StoneX, Roberto Sandoli.

No caso do Rio Grande do Sul, que divide com o Paraná o posto de maior produtor de trigo do País, a Federação da Agricultura do Estado (Farsul) projetou em meados de dezembro que o espaço destinado à cultura crescerá 6%, para 1 milhão de hectares – ante 930 mil hectares da safra anterior -, marca que não se via desde 2014. Ainda conforme a Farsul, a perspectiva de colheita é de 2,65 milhões de toneladas, ou 17% mais ante 2019/20, quando a safra foi de 2,26 milhões de toneladas, de acordo com a Conab.

No Paraná, que produziu em 2019/20 um total de 3,045 milhões de toneladas, a expectativa é de que pelo menos a área se mantenha, já que o triticultor conseguiu uma ótima liquidez na temporada mais recente, diz ao Broadcast Agro o agrônomo Carlos Hugo Godinho, analista do Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento. “Tivemos um preço remunerador e uma grande liquidez da safra em 2020, o que ajuda o produtor a encarar com bons olhos o próximo plantio, já que liquidez no trigo é um dos principais desafios”, continua Godinho. “Além disso, a tendência é aumentar a produção, mesmo se a área for mantida”, continua o analista, lembrando que houve quebra de 17% na safra 2019/20, que tinha potencial de colheita de 3,7 milhões de toneladas.
Para Sandoli, da StoneX, se o câmbio continuar nos patamares atuais, em torno de R$ 5,00 por dólar, e o clima ajudar, em 2021 a produção brasileira deve superar os 6,18 milhões de toneladas colhidas no País em 2019/20 – também de acordo com números da Conab.
Especificamente para o Paraná, o gerente Técnico da Organização das Cooperativas do Estado (Ocepar), Flávio Turra, diz que a área semeada com o grão deve aumentar principalmente no sul e sudeste, “onde não há opção de plantar milho safrinha (por causa do risco climático)”.

Já no oeste, noroeste e norte do Estado, o produtor pode ficar dividido entre trigo e milho, que também deu excelente resultado em 2020, tanto no verão como na safrinha. “Então, provavelmente, o trigo não deve avançar em área nessas três últimas regiões porque o milho estará igualmente ou até mais atrativo”, explica. “Assim, com o crescimento nas outras localidades, o Paraná deve semear 1,25 milhão de hectares em 2020/21 (ante 1,17 milhão em 2019/20)”, calcula.

O analista sênior da consultoria Trigos & Farinhas, Luiz Carlos Pacheco, de Curitiba, confirma o otimismo em relação ao plantio em 2021. “Sempre que há preços mais elevados e lucratividade o produtor planta mais, então a expectativa é de aumento de safra e de área para 2021 no País. Até porque o preço do trigo no primeiro semestre deve explodir”, enfatiza.
Segundo o consultor, a cotação vai disparar porque entrará o ano em nível mais alto. “Há chance de voltar a ter negociações por R$ 1.500 a tonelada e ir até R$ 1.700”, observa. Em meados de dezembro, o valor proposto no Paraná pela tonelada era de R$ 1.300.

“Mas o trigo em estoque vai acabar em fevereiro”, advertiu Pacheco, acrescentando que lotes da safra nova só chegarão no segundo semestre e, enquanto isso, o mercado terá de se abastecer com produto importado. “Em maio, quando se inicia o plantio, podemos ter o cereal a R$ 1.500 a tonelada, o que será um estímulo para o produtor cultivar mais.” Em relação à necessidade de importação, a Trigos & Farinhas estima que 7,2 milhões de toneladas serão internalizadas em 2021 – ante aproximadamente 7 milhões de toneladas este ano.

Pacheco diz também que, como o preço interno do trigo é pautado pelo importado, a partir de março “quem tiver trigo nacional vai vender a preço do importado”, avalia. “Isso porque a maior parte do grão que estiver sendo comercializada será do cereal trazido de fora.”

Ainda sobre importações, o corretor da SafraSul Corretora, de Ponta Grossa (PR), Adriano dos Santos, lembra que a maior parte de trigo vinda de fora na entressafra brasileira é da Argentina. “Mas o país vizinho também está tendo quebra na safra e isso deve puxar mais ainda os preços globais para cima”, diz. “Eles esperavam colher 21 milhões de toneladas e colheram 16,8 milhões.” A safra se encerrou em dezembro na Argentina. “Além disso, os estoques de passagem no Brasil continuarão baixos, como ocorreu na virada de 2019 para 2020, representando mais um fator altista para o primeiro semestre”, avalia.

Turra, da Ocepar, acrescenta que a perspectiva é de estoques globais baixos em 2021. “A pandemia fez com que o consumo aumentasse em 2020, tanto aqui quanto lá fora, esvaziando os armazéns”, comenta. “Uma sinalização de que o trigo estará mais escasso no mundo é que a Rússia estabeleceu, em dezembro, um imposto de exportação de 25 euros por tonelada, o que a levará a vender menos no mercado externo”, diz. “Essa atitude fez, por exemplo, com que os futuros de trigo na Bolsa de Chicago (CBOT) subissem, provocando alta aqui também para quem ainda tem o grão guardado.”
Mais um fator de sustentação aos preços do cereal em 2021 é que o produtor saiu capitalizado da safra de grãos 2019/20, com preços recordes de soja, milho e trigo. “A situação favorável fez com que o agricultor antecipasse as vendas da safra 2020/21”, conta Santos, da SafraSul. “Desta forma, vai colher milho e soja e embarcar direto, sem necessidade urgente de vender o trigo para esvaziar o armazém”, continua. “Assim, vai liberar lotes ao sabor dos preços, e não da necessidade de venda.”