Setor de etanol projeta recuperação de demanda e preços

Após as dificuldades de 2020, quando a pandemia da covid-19 reduziu drasticamente a demanda por etanol, o setor do biocombustível torce por um ano melhor. A avaliação de fontes ouvidas é de que, se a pandemia for controlada, o mercado voltará a se aquecer e preços reagirão, principalmente porque a oferta restrita causada por um mix sucroenergético mais açucareiro deve beneficiar as cotações do biocombustível.

“Todos os indicadores apontam para uma melhora em 2021”, afirmou ao Broadcast Agro (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) o diretor da Bioagência, Tarcilo Rodrigues. “A pandemia e a economia caminham juntas, e há uma perspectiva bem favorável para melhora da pandemia com a chegada das vacinas. Devemos ter uma segunda onda de covid-19 misturada com primeira no início, mas a perspectiva da economia é positiva para a totalidade do ano-safra, então acho que o consumo deve voltar para os padrões de 2019.”

O diretor do Departamento de Açúcar e Etanol da StoneX, Bruno Lima, também vê um cenário mais favorável. “O consumo do ciclo Otto pode recuperar algo próximo de dois dígitos”, disse ele. “Nós estamos saindo de um ano com quebra muito expressiva, então não seria difícil se recuperar na casa dos 10%. Isso daria suporte ao etanol”, completou. Para ele, a temporada 2021/22 de cana-de-açúcar, que começa em abril do ano que vem no Centro-Sul, deve ser menos açucareira do que a atual, já refletindo um avanço nos preços do biocombustível.

No fim de 2020, já é possível observar uma recuperação, ainda que a pandemia não esteja controlada no Brasil. Segundo levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o preço médio do etanol no País na semana terminada em 12 de dezembro avançou 4,39% em um mês, de R$ 3,051/litro para R$ 3,185/litro.

Além da retomada do consumo, o biocombustível é impulsionado pela recuperação do petróleo. O barril do Brent, que também caiu fortemente nas bolsas internacionais durante o pior momento da pandemia, agora acumula alta no mês de dezembro e nos últimos 30 dias. A Agência Internacional de Energia (AIE) estima que, em 2021, a demanda por gasolina e diesel volte praticamente aos mesmos níveis de 2019. O avanço do etanol melhora a competitividade do etanol, ajudando a impulsionar os preços do biocombustível.

Outro fator que explica a alta recente dos preços do etanol, e que deve se manter no ano que vem, é a oferta restrita. Observando que os preços de etanol vinham caindo e os de açúcar, subindo, usinas do Centro-Sul do País viraram a chave e apostaram no adoçante durante a pandemia. O mix no acumulado da safra 2020/21 no Centro-Sul entre abril e o fim de novembro é de 46,3% para o açúcar e 53,7% para o etanol; ante 34,59% e 65,41%, respectivamente, um ano antes, segundo dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

Até 1º de dezembro, a produção de etanol na safra era de 28,910 bilhões de litros, um recuo anual de 8,98%. O hidratado teve recuo ainda maior, de 11,66%, para 19,505 bilhões de litros. A queda do anidro foi menor – de 2,86%, para 9,405 bilhões de litros – em parte porque ele é misturado à gasolina, e o combustível fóssil teve retração no consumo menor do que o etanol. Já a produção de açúcar registrou alta de 44,16% no período, para 48,09 milhões de toneladas.

O fato de boa parte das usinas poder alternar com relativa facilidade açúcar e etanol ajudou a reduzir as perdas do ano de 2020. Ao longo deste ano – mas principalmente no auge da quarentena, entre março e abril – o consumo do hidratado caiu expressivamente, assim como seus preços. A média mensal Cepea/Esalq para abril mostrou, por exemplo, queda mensal do hidratado de 26,6% em Goiás, 26,55% em Mato Grosso e 34,40% em Mato Grosso do Sul. No mês seguinte, maio, já foi possível ver avanço: o preço médio subiu 7,0% em Goiás e 6,8% em Mato Grosso do Sul – apesar desse avanço, eles continuavam bem abaixo de 2019.

Dados da Unica mostram que desde o início da safra, em abril, o Centro-Sul não teve nenhum mês em que as vendas totais (incluindo exportações) do biocombustível foram maiores do que em igual período do ano anterior, embora a diferença esteja diminuindo. Empresas que só têm a capacidade de produzir etanol – essas representam cerca de um terço do biocombustível produzido nesta safra no Centro-Sul, segundo a Unica – passaram por dificuldades.

Agora, de acordo com o diretor Comercial da BP Bunge Bioenergia, Ricardo Carvalho, os preços já estão acima de 2019. “O mercado vem se recuperando, o preço está acima do ano passado e a demanda retornou”, afirmou ele ao Broadcast Agro. “Estimamos que no ano que vem o desempenho seja melhor do que o deste ano. O quão melhor vai depender de fatores como crescimento do PIB e o petróleo.”

Carvalho vê o início do ano como promissor, já que tanto açúcar quanto etanol estão em momentos positivos. “Nos últimos anos, uma das opções estava boa e a outra, não. Agora, vemos que ambas estão bem”, disse. “Isso já acontecia no final de 2019, mas a pandemia atrapalhou. Agora, vemos os dois produtos bem suportados em 2021.”