Especial

Houve uma época que o padre chegava a cavalo…

Ilustrações Alisson Depizol

Na época que o toque dos sinos das igrejas anunciava as novidades das comunidades rurais, seja para mortes, festividades ou até mesmo para recados, o celebrante chegava a cavalo no Sudoeste.

No caso de Pato Branco, com a Paróquia São Pedro tendo aproximadamente 50 comunidades ou capelas, nos anos de 1950 e 1960, pelo lombo dos cavalos os freis percorriam de comunidade a comunidade, pregando o Evangelho, mas também informando os colonos das novidades do mundo, até porque se hoje tem a internet para a propagação da informação, naquela época não era bem assim.

Já com 13 anos, Valdir Zanmaria era um dos condutores de frei Policarpo quando o religioso celebrava na comunidade de Nossa Senhora do Carmo – Cachoeirinha.

Ele lembra, “o melhor cavalo era para o frei Policarpo, a melhor encilha [cela, pelego, freio, …], era para o frei”, e assim os jovens iam buscar o padre em uma comunidade após o término de uma celebração e rumavam a outra pregação, já em outra localidade.

Em dias de chuva, fazia parte ainda de todo o aparato, a capa e o guarda-chuva, mas ele recorda que inevitavelmente todos se molhavam. “Ele [Policarpo], com seu jeitinho que todos conhecem falava ‘então choveu’, mas era motivo de muito orgulho estar com o frei.”      

Zanmaria recorda que devido à proximidade das capelas, o trajeto feito por ele ligava muitas vezes Nossa Senhora do Carmo a São Miguel. “Depois de conduzir o padre para comunidade, eu ainda ajudava ele na celebração como coroinha”, recorda.

Das conduções a cavalo, das conversas durante o percurso e por ser coroinha, os laços de amizade se estreitaram. O jovem padre na época quase que ‘religiosamente’ era convidado para um café na casa dos pais de Zanmaria, seu Guilherme e dona Itália.

Nada muito cheio de requinte, mas saboroso e acolhedor. Nas oportunidades, sempre depois da missa, reuniam-se alguns membros da diretoria da comunidade para um “dedinho de prosa” com o frei, que raramente pernoitava em Nossa Senhora do Carmo, mas caso fosse necessário, na igreja tinha a disposição do sacerdote um quarto.

Foram pouco mais de dois anos que Zanmaria ficou como condutor do frei na comunidade. Mesmo quando seu Antoninho Rufatto, adquiriu seu DKV e a comunidade se juntava para pagar parte do valor do combustível, lá estava o menino a acompanhar nas andanças o Policarpo.

“Era um privilégio ser o condutor do Policarpo. E a comunidade comentava ‘esse vai ser padre. Ajuda na missa, leva o Policarpo’, e eu fui estudar no seminário”, comenta.

Segundo ele, mesmo antes de ser convidado por Policarpo para ingressar ao seminário já nutria o desejo. “Assim como eu, outros meninos e rapazes das comunidades [por onde passa o rio Cachoeirinha] recebemos o convite e alguns chegaram a ser seminaristas.”

Na comunidade de São João Batista, a poucos quilômetros de Nossa Senhora do Carmo, a família Dalla Costa fixou residência na década de 1930 e por lá também ficaram marcadas as histórias de condução de Policarpo para as celebrações.

Em 1959, Dérico Dalla Costa ainda era solteiro e fazia o trajeto acompanhando o frei. Na época as missas eram a cada 30 dias.

O roteiro podia mudar, “ou se ia buscar no São Francisco [do Passo da Ilha, hoje pertencente a Paróquia Cristo Rei], ou em Nossa Senhora do Carmo, ou ao contrário, como também tinha o pessoal de Nossa Senhora da Saúde”, pontua Dalla Costa, afirmando que os membros da diretoria da comunidade escolhiam quem ia acompanhar o Policarpo e como seu pai Azelino sempre esteve envolvido com os assuntos da capela, Dérico e os irmãos sempre faziam parte da escala.

“O cavalo mais manso era para o padre, mas o Policarpo também era um bom cavaleiro”, comenta Dalla Costa ao recordar que em certa oportunidade, em meio ao trote do cavalo o frei afirmou “hoje estamos andando a cavalo aqui em São João Batista, e um dia vamos ter asfalto”.

O comentário de anos se concretizou, e Policarpo esteve na inauguração do trecho de asfalto que liga a sede da comunidade ao perímetro urbano de Pato Branco, obra entregue em 2016.

Mas já no início dos anos 1960, o cavalo deu lugar ao carro e o deslocamento de Policarpo passava a ser mais rápido, nem por isso as conversas perdiam o atrativo. “Se conversava um pouco de tudo durante o trajeto. Mas ele contava bastante histórias. O que ele lia no jornal, ele contava tudo. Então as novidades, as notícias dos jornais as comunidades ficavam sabendo pelo Policarpo.”

Marcilei Cristina Rossi
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