Especial

O frei e o Jeep

Policarpo e o Jeep se reencontraram nas comemorações de seus 90 anos

Frei Policarpo Berri, o ícone da fé em Pato Branco, em 70 anos de ordenamento religioso e 96 de vida tem muitas histórias para contar. Uma delas é a famosa história do Jeep.

A fé em Deus e seu trabalho pastoral fez Policarpo, que muito vem abençoando sua comunidade ao longo da vida, receber também uma benção.

O frei conta que ao participar de uma rifa na inauguração da Igreja Matriz, em 1965, em Pato Branco, para angariar fundos para a obra, adquiriu três números. Por sorte ou predestinação, Policarpo acertou o número e ganhou um Jeep, que era um dos prêmios dessa rifa.

Animado, festejou a conquista, pois facilitaria sua peregrinação pelas comunidades levando a palavra do Senhor a toda sua gente. “Eu estava no refeitório jantando e vi que o número que saiu era meu. Eu disse para cozinheira que era meu número e ela não acreditou. Aí, o frei Sérgio falou que eu tinha que ir lá embaixo comemorar com o povo. Então eu fui lá, agradeci por ter ganhado o Jeep e o povo ficava contando anedota sobre o assunto”, contou frei Policarpo em um vídeo gravado em bastidores pela jornalista Marilena Chociai Rizzi, para um documentário, em 2010.

O frei relata na entrevista que na época lhe diziam que precisava falar depois do ofertório da missa. Ele aproveitou que ganhou o Jeep e disse “orai, irmãos para que o Jeep que é meu e também é vosso, seja aceito por Deus Pai todo poderoso”. E depois da bênção final, segundo o povo, frei Policarpo deveria dizer: “Ide em paz. O Jeep é meu”. “E o povo responderia: Graças a Deus!”, contou ele entre risos.

O acidente

Diferente do que imaginava, frei Policarpo dirigiu o Jeep por pouco tempo. Um acidente teria sido o motivo, e em decorrência dele, de lá para cá, o frei nunca mais quis guiar um veículo. Desta forma também surgiu o tradicional hábito de levar o Policarpo de um lado para outro.

As causas desse acidente não se sabe ao certo e a comunidade conta algumas histórias. Entre elas, que o acidente aconteceu no dia da inauguração da Paróquia de Vitorino, até então a comunidade integrava a Paróquia São Pedro Apóstolo.

Frei Policarpo contou que foi na frente da comitiva para avisar o povo que o bispo estava chegando. “Quando cheguei no rio Caçador, tinha uma ponte. Aí os Calefi fizeram sinal com a mão e eu não entendi se era cumprimento ou era para eu parar e dar carona para eles. Eu fiquei olhando para eles e fui com o Jeep direto em um pinheiro. Derrubei um metro para frente”, contou entre risos. E acrescentou: “o povo começou a inventar que eu tinha visto uma moça muito bonita e que me perdi na direção. O povo inventa muita coisa”, satirizou.

João Rodrigues da Rosa, comprou o Jeep de frei Policarpo por Cr$ 20 mil e ficou com ele por 40 anos, até falecer em 2017 – Foto: Acervo Família Rosa
Uma relíquia

Mais de cinco décadas depois do causo do acidente, o Jeep ainda continua em Pato Branco. Agora ele pertence à família Rosa e hora ou outra Policarpo ainda se encontra com ele, como aconteceu há seis anos, na ocasião em que o frei comemorou seus 90 anos de vida. Uma foto com o Jeep, em frente a Igreja Matriz, selou esse momento histórico.

Jurandir da Rosa contou que o Jeep, de 1966, foi adquirido por seu pai, João Rodrigues da Rosa, por Cr$ 20 mil (vinte mil cruzeiros), que ficou com o veículo por 40 anos.

Foi enfático em afirmar que por ter sido de frei Policarpo, o Jeep tinha um grande significado para o seu pai. “O Jeep, para ele, era uma relíquia. Assim que ele ficou doente – e depois veio a falecer há três anos – disse que se não ficasse para a família, era para que o Jeep voltasse a ser do Policarpo”, contou.

Jurandir revelou ainda que foi seu pai quem levou o Jeep na comemoração dos 90 anos de vida do frei, que proporcionou a tal foto. Na ocasião, Policarpo se posicionou com satisfação em frente ao veículo para que os fotógrafos registrassem aquele momento.

O filho contou que o pai tinha muito apego por esse Jeep, e que não deixava ninguém pôr a mão nele. Inclusive, a família já havia tido outro Jeep antes desse de Policarpo, que pertenceu a sua avó. Mas, ainda assim não era considerado tão especial quanto esse que pertenceu ao frei. “Eu aprendi a dirigir nele, porque o pegava escondido”, revelou Jurandir entre risos.

Histórias de família

Entre as histórias da família Rosa com o Jeep, Jurandir lembra que o pai levava os filhos no bailão com o veículo, porque era muita gente e assim conseguia reunir todos. Também, que nas terras dobradas, quando a junta de boi não subia junto com a máquina, colocavam o Jeep para fazer o serviço. “O Jeep era tudo para nós, o carro de transporte da família, mas também o meio de trabalho” frisou.

Jurandir contou que seu sobrinho é o atual dono do Jeep, e que ele o está reformando. “O Jeep é todo original, inclusive a cor e o motor, não foi trocado nada, apenas a lataria foi reformada”, frisou.

Porém há um acordo. Caso o sobrinho queira vender o veículo, Jurandir vai comprá-lo novamente para que sempre permaneça na família Rosa, como era o desejo de seu pai.

Cristina Barcellos Vargas
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