Especial

Significante e significado

Ícone religioso, símbolo de Pato Branco. Letra de música, nome de prédio, tema de diversos livros, souvenir, participação no Programa do Jô…Frei Policarpo ultrapassou a barreira religiosa e fez a gente resgatar a idade média e pesquisar sobre semiótica para tentar explicar sua representatividade

Vou começar com um pouco (mais) de história, mas desses ocorridas muito antes de o frei Policarpo pensar em se tornar um franciscano. 

Lá no início do Império Bizantino, por volta do século 6, quando o Cristianismo se tornou a religião oficial na região de Constantinopla, hoje Istambul, havia um surto de Iconolatria, ou seja, de adoração de imagens sacras. 

Tanto a igreja católica quanto a ortodoxa permitiam essa veneração, um hábito que se derivou de antigos ritos dedicados aos ídolos pagãos greco-romanos. 

Tudo ia muito bem enquanto as imagens eram apenas meros representantes das principais personalidades do cristianismo. Os fiéis viam a imagem de Cristo, mas não achavam que era o próprio Cristo, apenas sua representação. Assim também ocorria com Virgem Maria, apóstolos, santos, mártires e anjos. Havia uma consciência de que uma estátua ou uma pintura, por exemplo, servia como referência visual para algo muito maior.

No entanto, a iconolatria passou à idolatria. Nesse momento, essas representações físicas de entidades espirituais se tornaram mais adoradas e importantes que o próprio ser ali representado. É como se, ao invés de ter fé Cristo, alguns fiéis passaram tivessem fé na cruz do altar.

As imagens eram vistas como sagradas e milagreiras, e tudo desandou. Tinha gente comendo pedacinho de tinta de escultura em busca de saúde; ao comungar, relavam em imagens como se tocassem santos; escolhiam estátuas como padrinhos nos batizados. 

O alto clero não estava nem um pouco satisfeito com este dogma. Durante muito tempo, os patriarcas e bispos do Oriente tentaram reverter a idolatria por meio da pedagogia litúrgica e das explicações sobre o que, de fato, as imagens representavam, mas em vão. Cada vez mais as pessoas depositavam sua fé nos objetos.

Foi então que nasceu um movimento religioso chamado iconoclastia, que foi muito além de desencorajar os cristãos a adorar imagens, voltando todo seu olhar a somente as entidades espirituais.

O termo é derivado de duas palavras gregas: “eikóne” (ícone), ou a imagem; e “klastein”, algo como quebrar/romper. Assim, iconoclastia é basicamente “o que destrói imagens”.

Neste movimento, entre os anos de 754 e 843, as esculturas foram arrancadas à força, os mosaicos cobertos de cal, os afrescos raspados, e os livros dos partidários das imagens queimados. Multiplicaram-se as prisões, destituições de cargos e deportações.

A veneração de imagens só foi efetivamente restituída com o chamado Triunfo da Ortodoxia, e seguimos as adorando até os dias atuais e acumulando histórias de fé em torno de objetos tido como santos e milagreiros. 

Você deve estar se perguntando o motivo de eu ter resgatado esse fato lá da Idade Média para falar sobre o frei Policarpo, e explico: na minha cabeça há um paradoxo. Nós amamos o frei Policarpo e tudo o que representa sua existência (iconolatria), mas sua importância é tão grande que rompeu-se com a imagem religiosa (iconoclastia). 

Está compreendido?

Um ícone religioso, mas sem fronteiras religiosas  

Assim como Deus é um só para todas as religiões, um homem que serve a Deus independe da nomenclatura que dêem à devoção de sua fé.

Rosana Demétrio foi criada dentro de várias religiões. Na infância, conviveu com seus avós dentro do espiritismo Kardecista; na adolescência, sua mãe, ministra de eucaristia, a levou para a igreja católica. Depois, na juventude, diante das lutas, foi membro da Pastoral da Juventude Estudantil (PJE) no início da “Teoria da Libertação”. Ainda, após se casar e perder uma filha, frequentou a igreja evangélica, onde foi até batizada.

Paulista, ela chegou em Pato Branco pela primeira vez em 2010, quando morou na cidade por um ano. Naquela oportunidade, ouviu falar sobre as bênçãos do frei Policarpo e até ficou curiosa, mas não conseguiu conhecê-lo pessoalmente.

Há 7 anos, voltou a viver por aqui sabendo que seria por muito tempo. Foi então que, mesmo não sendo católica praticante, buscou a bênção do frei pela primeira vez na Casa Paroquial. “Eu precisa de aconchego por estar chegando em uma cidade nova, e desde o início foi o que senti na sua companhia”, diz.

Nas primeiras vezes com Policarpo, relembra, eles pouco conversavam. “Eu precisava de um reforço espiritual, e ele me dava uma bênção rapidinha, mas eu já sentia segurança em seu olhar e saía de lá me sentindo muito bem. Levei água, sal, chaves, tudo para ele dar sua bênção. Este elo foi a minha acolhida na cidade, e eu me sentia privilegiada de ter o carinho dessa pessoa tão especial”, avalia.

Desde o primeiro momento, Rosana enxergou no frei Policarpo um exemplo genuíno de religiosidade. “Diante de tanta espiritualidade e pelo conhecimento de teologia que minha mãe nos passava, consegui ver no Policarpo a presença de Deus/a cura/a bênção/o dom, seja lá o nome que queiram dar. Mas sei que me faz bem a paz e sabedoria que Nosso frei Policarpo me traz há 7 anos na cidade de Pato Branco, com seu carinho, sua presença de luz e sua acolhida sem cobrança alguma de quem eu precisava ser”, revela.

Mas, para ela, impressionante mesmo é a sanidade mental, a clareza e conhecimento sobre os mais diversos assuntos que o frei carrega consigo. “Isso me chamou muito a atenção. Ele já me aconselhou sobre treinamento de funcionários, falamos sobre a variação do dólar, leis trabalhistas. Ele sabe tudo!”, ressalta. “A força imensa que ele emana refletiu tanto em minha vida pessoal quanto profissional. Para onde eu vou e para onde eu for, levo e levarei comigo a fé no frei Policarpo e sua energia maravilhosa”.

Altar em vida

Pato Branco certamente é uma cidade cheia de símbolos. O mais óbvio é… um Pato Branco. Ele está em diversas estátuas espalhadas pela cidade, como no Largo da Liberdade e no trevo do Patinho. Também compõe o nome de muitos estabelecimentos comerciais: Patão, Patô, Patofuso, Refripato, e por aí segue o baile. Isso sem contar com os empreendedores que optaram por nomes mais globais, como Duck Frio, RomaDuck, Pizza Duck; o evento White Duck Connection; o grupo EcolDucks. Não há dúvidas que o pato faz sucesso por aqui.

Outros ícones bem populares da nossa cidade mundo a fora são a Bozena personagem do Toma Lá Dá Cá [sitcom da Rede Globo], o Pato Futsal, a araucária da Tocantins, o Alexandre Pato. E, por que não, o Frei Policarpo.

Mesmo em vida, o religioso virou nome de um dos maiores edifícios de Pato Branco, tipo de homenagem que geralmente é feito quando a “personalidade” já não está mais entre nós — há, inclusive, uma lei que proíbe que pessoas vivas tenham seus nomes vinculados a espaços públicos. Mas, ainda no início dos anos 1980, ou seja, há mais de 30 anos, quando o franciscano ainda estava na casa dos 60 anos de idade, o Edifício Frei Policarpo foi erguido na região central da cidade sem nenhuma contestação.

Como vocês já devem ter lido nas reportagens que preenchem as páginas deste caderno, há letras de música sobre o Frei e diversos livros que citam suas bênçãos e a importância que ele teve para o desenvolvimento de Pato Branco. Essas histórias chegaram tão longe que o franciscano foi convidado a participar do Programa do Jô por telefone, quando o entrevistado era o frei Filipinho. Jô Soares ligou para a Paróquia São Pedro e pediu que ele desse uma bênção. As palavras de Policarpo foram:

“Prezados telespectadores,

Neste momento, o frei Policarpo, que está aqui em Pato Branco (PR), vai dar a bênção mais bonita do mundo, que foi revelado pelo próprio Deus, no livro dos números, no Antigo Testamento. Deus falou para Moisés, quando abençoarem, use essas palavras, que depois chamou-se também de Bênção de São Francisco porque São Francisco [de Assis] foi o primeiro a dar essa bênção. Então vou dar a Jô Soares, ao frei Filipinho e a todos os telespectadores do Brasil e do mundo essa bênção de São Francisco.

O Senhor nos abençoe e nos guarde,

Nos mostre a sua face e tenha misericórdia de vós,

Volva para vós o seu olhar e nos dê paz,

O Senhor nos abençoe.

O Pai, o Filho e o Espírito Santo

Amém.”

Frei Filipinho contou ao Jô que Policarpo passava o dia sendo procurado pelas pessoas que queriam ser abençoadas por ele, e que por diversas vezes era levado para longe para a bênção. “Uma vez levaram ele para uma fazenda para abençoar uma novilha que nunca ficava grávida. Ficou a novilha e até a empregada”.

De Frei à souvenir

Ana Barba é administradora de um perfil do Instagram que divulga tudo que Pato Branco tem bom, o @amopatobranco. Ela acredita que “com certeza Pato Branco é uma cidade que possui muitos símbolos, representados tanto por pessoas quanto por lugares”, diz.

Entretanto, Ana diz que Policarpo se destaca entre os mais importantes porque é um símbolo que transcende o sentido físico. “Ele está ligado à experiência que cada ser humano possui com sua energia. Por isso acho relevante ter o Frei Policarpo como símbolo de Pato Branco, por toda a relação e dedicação que ele sempre teve com a cidade e com os pato-branquenses. Afinal, são aproximadamente 64 anos de dedicação à nossa história e desenvolvimento”, reflete.

Mesmo não sendo católica, Ana entendeu que entre canecas, cuias para chimarrão e outros souvenirs de Pato Branco, um boneco do Policarpo seria uma boa lembrança, tanto para os moradores que se orgulham de viver por aqui, até quem visita nossa cidade. “Tenho o maior carinho, respeito e admiração por ele e conheço muitas pessoas que pensam da mesma forma. É importante salientar que a admiração pelo frei transcende a esfera religiosa, pois o que ele fez pela cidade do ponto de vista cultural, de desenvolvimento e até mesmo político, é notável a qualquer um que se aprofundar na sua história de vida e dedicação à cidade”, avalia.

O boneco do Frei Policarpo é criação da artesã Carmem Souza, de 62 anos, que depois de muita pesquisa de material e protótipos diversos, chegou ao trabalho final em gesso, o qual demonstra o frei dando uma bênção e o patinho ao seu lado, representando a cidade. Muito católica e devota, ela pediu a autorização verbal do frei, o qual foi presenteado com uma peça.

A criação da versão final se deu há cerca de 3 anos, e desde então ela repassa a outras artesãs que pintam, finalizam e revendem.

“Vi pela primeira vez a peça na casa de conhecidos, e pensei que seria interessante divulgar a venda no @amopatobranco”.

Logo que começou a pandemia, Ana teve a ideia de firmar parceria com artesãs, mas de uma forma que também pudesse ter um retorno para ajudar as Instituições da cidade. Foi quando ela conheceu o trabalho da artesã Camila Merlin, e fechou a parceria.

Hoje, Carmem produz a peça, Camila pinta, outra costureira faz o saquinho presenteável e o @amopatobranco divulga e realiza a venda. “Uma parceria de mulheres que tem dado ótimos frutos”, comenta.

Representação material

A professora Rosangela Marqueze já tem sua miniatura do frei Policarpo, por quem ela nutre uma grande admiração. Católica de nascimento e batismo, “não muito praticante atualmente”, ela se considera cristã, pois acredita nos ensinamentos de Cristo. “Não sou adoradora de imagens, apenas acredito que elas nos ajudam a visualizar o invisível, a materializar o imaterial, como uma espécie de fotografia. E é nesse sentido que comprei, recentemente, uma imagem de frei Policarpo”, conta.

E mesmo não precisando explicar essa necessidade de tê-lo em representação, mas o faz.

“Demócrito, há mais de 2000 anos, já dizia que ‘Definimos o que é doce, amargo ou as cores, mas a composição destas definições está nos átomos’. Ou seja, é o uso que cria o bom e o mau, o doce e o amargo, etc… É como se disséssemos que as sensações não estão no objeto, mas naquele que sente os sentidos desse objeto.

E aí eu poderia falar ainda sobre semiótica, sobre a origem dos signos, sobre ícone, índice e símbolos, conforme postula Charles Peirce, mas perderia a essência… Aquilo que ele – frei Policarpo – e sua imagem representam para mim, no caso.

Moro em Pato Branco há mais de 40 anos e, desde que me conheço por gente, já ouvia histórias maravilhosas e algumas também engraçadas sobre o famoso frei. Famoso, sim. Porque não importa se você é pato-branquense de nascimento ou de adoção — como no meu caso — e também não importa se você é cristão, budista, espírita ou ateu… Independentemente de qualquer um desses casos, você com certeza já ouviu falar dele. Ele é um ícone!

Quanto respeito e carinho por frei Policarpo. Por suas bênçãos apressadinhas, mas cheias de amor; Por seus santinhos de papel entregues por suas mãos. Ele sempre tem na gaveta um santinho para dar. Tenho vários aqui em casa, guardados com carinho! É tanto santo que a gente nem sabe o nome de todos, mas ele, o Policarpo, sabe!

Por isso, um cantinho dedicado a ele aqui em casa! Não como altar, mas como carinho e respeito por tudo o que ele representa para os fiéis de nossa cidade e região. E ao lado dele, São Francisco, exemplo para mim de amor e dedicação e doação! Símbolo verdadeiro de amor aos pobres.

Policarpo homem. Policarpo frei. Policarpo santo (quiçá). O que importa é que a cada olhar – mesmo que rapidinho – à sua ‘imagem’, aqui na minha sala, eu lembro que posso ser melhor! Que posso me dedicar ao próximo um pouco mais! E que talvez, um dia, possamos entender que o verdadeiro espírito de todas as pessoas de bem é o doar-se ao próximo, como ele vem fazendo há 96 anos bem vividos!”

E agora, está compreendido?

Foto: Zeca Bett/Arte: Alisson Depizol
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