Esportes

‘Aprovado’ por especialistas, tênis vira alternativa para amadores na pandemia

Por Felipe Rosa Mendes

Se no circuito profissional as bolinhas ainda não voltaram a quicar, nas quadras de São Paulo as raquetes já voltaram à ação e passaram a ganhar atenção especial dos atletas amadores. Considerada uma modalidade “mais segura” na pandemia, segundo estudos e especialistas, o tênis se tornou alternativa para quem vê no esporte a oportunidade de fazer exercícios sem correr maior risco de contaminação pela covid-19.

Nos últimos meses, pesquisas vêm apontando o tênis como uma das modalidades com menor chance de contágio por conta do distanciamento natural entre os competidores na quadra, pela ausência de aglomeração, tão comum em esportes coletivos, e também por poder ser disputado ao ar livre.

Nos Estados Unidos, a Associação Médica do Texas colocou o tênis como o esporte mais seguro nesta pandemia. A entidade criou uma escala de 1 a 10 para classificar o risco de diversas atividades do cotidiano, como ir a um restaurante ou passear no parque. O tênis está no nível 2, ao lado de “acampar” e “abastecer o carro”, por exemplo. Já academias de musculação estão no nível 8 Futebol e basquete estão no nível 7.

São critérios semelhantes aos usados pelo Instituto Politécnico de Turim em estudo elaborado a pedido do Comitê Olímpico da Itália (CONI, na sigla em italiano). Nele, os pesquisadores italianos estabelecem uma tabela de classes, de 1 a 8, para definir o grau de risco das modalidades esportivas. O tênis oscila entre as três primeiras por suas variações, como jogar em quadra coberta ou descoberta, em simples ou em duplas.

Em ambos os estudos, os especialistas já levam em conta que cada atleta amador ou profissional manterá os cuidados de higiene e distanciamento social. “São atividades com apenas dois participantes, sem contato direto, mantendo a distância interpessoal. Cada jogador deve usar suas próprias bolinhas, evitando trocas e contato entre as mãos e os olhos”, destacaram os pesquisadores italianos, ao citarem a prática do tênis.

Estes critérios são embasados pela própria Organização Mundial da Saúde. A OMS aponta que esportes de menor risco de contágio são aqueles “com distância física” e disputados ao ar livre. “Eventos realizados ao ar livre serão mais bem ventilados do que aqueles indoor”, disse a entidade, em documento elaborado para orientar federações esportivas e organizadores de competições.

Pelas medidas oficiais, uma quadra de tênis tem 23,77 metros de comprimento. Em um jogo, durante as disputas de bola, os tenistas podem ficar até a 30 metros de distância um do outro. E é justamente este afastamento que vem atraindo iniciantes. A maioria está trocando musculação e modalidades coletivas pelo tênis.

“A ideia de manter a distância pesou bastante para eu começar a jogar agora. É um esporte mais seguro. Comecei há duas semanas e estou gostando bastante”, afirmou a empresária Patrícia Kim, de 24 anos. “Mesmo sendo um esporte que mantém o distanciamento, dá para conversar. Ainda é possível se relacionar. E, durante a aula, decidimos manter a máscara”.

A maior procura foi verificada em quatro academias procuradas pelo Estadão nos últimos dias em diferentes pontos da cidade. Em quase todas, a perda de alunos durante a quarentena vem sendo compensada pela demanda de iniciantes no esporte. É o que vem acontecendo com a Paulista Tennis Center, a Masters Tennis e a PlayTennis, que tem sete unidades na capital.

“Perdemos muitos alunos no meio da pandemia e agora está acontecendo uma retomada. No começo, tem aquele receio, mas todos gostam da sensação de liberdade de sair de casa e estar em quadra. Percebemos que vários alunos vieram de academias de musculação e agora optaram pelo tênis, por ser mais seguro”, comentou o dono da PlayTennis, Eduardo Azevedo.

Ricardo Yai, proprietário da Masters, se surpreendeu com a nova demanda. “Tenho recebido uma procura maior nestas últimas duas semanas. Isso me surpreendeu um pouco. Temos um público fiel, dificilmente alguém migra de uma modalidade para outra. E também é difícil ter uma procura espontânea assim”, afirmou. “Temos tido muita demanda maior de mulheres, que era um público que atendíamos muito pouco antes”.

Este é o caso da publicitária Samantha Camargo, de 30 anos. Ela começou a praticar em parceria com o marido, Felipe Malheiros, de 29. “A minha esposa nunca tinha jogado. Fazia academia e corria antes da pandemia. E teve essa iniciativa porque viu no tênis uma saída para praticar um esporte e manter a saúde em dia mesmo em tempos de coronavírus”, contou Malheiros, profissional do mercado financeiro, que voltou às quadras depois de anos por incentivo da mulher.

Como no caso dele, há os casos de atletas amadores que voltaram ao tênis agora, mesmo com o alto número de infectados por covid-19, por se sentirem mais seguros em comparação a outras atividades. “Decidi voltar por ser um esporte dinâmico ao ar livre e de pouco contato. Não queria sair de casa para ir para outro ambiente fechado”, explicou Paula Ferro, de 36 anos, que atua na área de marketing.

No mundo dos profissionais da bolinha, a segurança ainda é uma preocupação por causa da aglomeração. Mesmo sem torcedores, grandes torneios reúnem centenas e até milhares de pessoas entre organização, equipes e os próprios tenistas. O circuito feminino voltará no dia 3 de agosto com o Torneio de Palermo, na Itália. O masculino vai retornar no dia 22 do mesmo mês, com o Masters 1000 de Cincinnati, nos Estados Unidos.

Marcado para o dia 31 de agosto, o US Open, em Nova York, ainda gera polêmicas. Tenistas e personalidades do esporte criticam a realização, considerada precoce, de um Grand Slam, que pode envolver até 4 mil pessoas na organização.

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