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A saúde espiritual nos momentos de crise

Nesta semana, a Operação Médica-acadêmica de Conscientização e Prevenção ao Covid-19: entrevista com o Padre Reginaldo Manzotti, realizada pelo aluno do curso de Medicina do UNIDEP, Rodrigo Gardona, e Vilson Campos, coordenador e professor do curso. A mediação foi conduzida por Carina Basso, responsável pela assessoria de imprensa do “Evangelizar é Preciso”.
A intenção é integrar a espiritualidade ao contexto médico em que grande parte da população se encontra neste momento. Para muitos, este está sendo um período de dor, conflito, indagações e crise. Um momento um tanto tempestivo. Nesse sentido, muitos estudos científicos já publicados relatam que a fé ou a espiritualidade, têm uma grande influência no enfrentamento da doença e também nos momentos delicados os quais se vive nesta jornada chamada vida. 
O médico, assim como a equipe de saúde a qual é integrada, por exemplo, por profissionais de enfermagem, precisam tomar decisões pautadas em um longo e oneroso preparo técnico-científico, com o intuito de recuperar e manter a vida dos pacientes que estão sobre suas responsabilidades. Entretanto, apesar de esforços exaustivos, nem sempre se obtém êxito. Fato que gera inúmeros sentimentos, seja na equipe de saúde e, claro, naqueles que perderam seus entes queridos.  
A situação epidemiológica que o país vive, atualmente, tem trazido muitos questionamentos, tais como: por que isso está acontecendo? Por que minha família? Onde está Deus? 
Entendendo que a espiritualidade tem uma íntima relação com a saúde mental e até orgânica, nosso bate-papo de hoje será com o padre Reginaldo Manzotti que, gentilmente, através de sua equipe, representada por Carina Basso, nos atendeu como uma forma de prestar solidariedade à população do Sudoeste do Paraná e Noroeste de Santa Catarina. 

Padre, muitos questionamentos têm sido feitos sobre a relação entre o plano espiritual com a pandemia. O que o senhor pensa a respeito?

Padre Reginaldo Manzotti: Algumas pessoas veem o novo coronavírus como se fosse uma punição de Deus. Eu não acredito nisso, porque Deus é o Sumo Bem e nada de ruim pode vir Dele. É mais fácil pensar que é castigo de Deus, pois assim desvia da humanidade a responsabilidade de ações erradas e até mesmo para tentar entender o que não pode ser compreendido. A menor das criaturas está causando uma crise mundial, fechando aeroportos e fronteiras, deixando as potências mundiais fragilizadas diante dos seus efeitos. Deus não manda o sofrimento, porém pode permitir, não para nos castigar, mas para nos corrigir como um Pai que ama seus filhos.
Eu lamento profundamente tudo o que está acontecendo. Como sacerdote, jamais imaginei em celebrar uma missa com a Igreja fechada, mas através da TV e do rádio louvo a Deus e entro na casa das pessoas oferecendo um conforto espiritual. Também tenho meus medos, porque o medo é inerente ao ser humano e eu não sou a exceção. Mas não devemos deixar o pânico se instalar, é momento de mantermos a serenidade, de refletirmos sobre o que nos é essencial, de desacelerar, de repensar o valor da família, dos amigos, de um abraço. Não podemos ficar focados só na pandemia, dia e noite, dando crédito a tudo o que nos chega, porque ninguém tem certeza de nada. O melhor é procurar ler um bom livro, assistir filmes que edifiquem, praticar jardinagem e tantas outras atividades saudáveis em família. Quem está trabalhando “home office”, que o faça com dedicação. O mais importante é manter a esperança e a confiança. Não estamos sós, o Senhor Ressuscitado caminha conosco e em Suas Santas Chagas encontramos refúgio.

Infelizmente, muitos perderam seus entes queridos ou têm algum familiar em leitos hospitalares. Como a fé pode nos confortar e nos direcionar neste momento que alguns chamam até de apocalíptico? 

Padre Reginaldo Manzotti: As perdas sempre trazem dor e quando se trata de um ente querido, é uma experiência extrema. A experiência relacionada ao Covid-19 é ainda pior, pois nos tira a possibilidade de velar aquele ente e dar a ele um enterro digno. Isso é uma contingência da nova realidade que estamos vivemos com a pandemia. A fé conforta porque cremos com todo nosso ser no que disse Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto?” (Jo 11,25-26). Se cremos e temos a esperança da ressurreição, a vida não é tirada, mas sim transformada. Isso não quer dizer que não sofreremos com a perda, quer dizer que saberemos entregar a Deus aquele ente querido.
Pensar que uma pessoa que amamos está num leito de UTI, lutando contra algo que ainda não se tem conhecimento e nem um medicamento comprovadamente eficaz é apavorante. Mas Deus não abandona, Ele sempre manda seus anjos para consolar, como fez com Jesus na agonia do Getsêmani. Hoje, podemos dizer que esses anjos usam máscaras, estão vestidos com aventais e macacões de proteção, têm um estetoscópio pendurado ao pescoço. São os profissionais de saúde que servem de ponte entre o paciente e seus familiares e, como temos visto, aqueles que seguram as mãos do doente tentando tornar a morte mais humanizada.

Padre, qual é o propósito do sofrimento e o que aprender com ele?

Padre Reginaldo Manzotti: Inevitavelmente, todos nós iremos passar por algum tipo de sofrimento durante a nossa vida. Podemos aprender com o sofrimento quando damos a ele um significado, não nos lamentando e perguntando “por quê?”. No caso da pandemia, estão claras as lições que podemos tirar. Não somos autossuficientes como muitos julgavam ser, precisamos de Deus, precisamos uns dos outros, mas também precisamos mudar nossa maneira de ser e de viver em sociedade. Precisamos parar de “consumir” nosso Planeta, nossa casa comum. Já aprendemos muito com esse distanciamento social, que contraditoriamente nos levou a nos aproximarmos e socializarmos mais do que nunca. Basta ver o uso do celular que antes isolava as pessoas e agora se tornou um instrumento de aproximação. A solidariedade aflorou, tenho sido testemunha de como as pessoas estão tentando ajudar como podem e com aquilo que podem. Isso é um começo, é um ressignificar o sofrimento. Porém, tudo o que a humanidade está passando só terá sentido se nos transformarmos em novas criaturas e tentarmos reconstruir o mundo a partir do que Deus pensou para nós, e Ele viu que tudo era bom!

Para encerrar nossa entrevista, o que o senhor diria a respeito das medidas de prevenção?

Padre Reginaldo Manzotti: Tenho pedido insistentemente para que os idosos e pessoas que fazem parte do grupo risco fiquem em casa. Quem pode, que fique em casa por aqueles que não podem. Trata-se de algo muito sério, precisamos respeitar e cumprir rigorosamente as medidas de prevenção e as determinações feitas pelas autoridades. São coisas possíveis de incorporarmos na nossa rotina e que fazem toda a diferença. Além disso, é claro que devemos evitar aglomerações e guardar o distanciamento sugerido entre uma e outra pessoa, só assim conseguiremos evitar o tão temido colapso do sistema de saúde. Não sabemos quanto tempo irá durar essa situação, mas tenho fé que se todos nós cumprirmos a nossa parte, essa tempestade irá passar e tudo vai dar certo.
 

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