Atriz Nydia Licia morre aos 89 anos em São Paulo

NELSON DE SÁ

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A atriz Nydia Licia morreu aos 89 anos neste sábado, às 4h30, no Hospital São Luiz, no Morumbi, de câncer no pâncreas. Estava internada desde 20 de novembro. A doença havia sido diagnosticada em agosto.

Nascida em 1926 em Trieste, nordeste da Itália, de família judia, foi uma das principais atrizes do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), companhia que marcou a profissionalização no país, durante os anos 1940/50, e depois no Teatro Bela Vista, hoje Sérgio Cardoso, nos anos 1950/60.

Em longa conversa dois meses antes de sua morte, Nydia ria à solta ao recordar -e não revelar- os segredos das relações entre as estrelas do TBC. Ou então ao descrever como, ao chegar a São Paulo fugindo da Itália cada vez mais antissemita, descobriu que “na colônia eram todos fascistas”.

Sua risada era contagiante. No palco, sobretudo do fim dos anos 1940 aos 1960, surge bem mais séria nas fotos e nos relatos, em produções como “Entre Quatro Paredes”, de Sartre, em 1950, com o futuro marido Sérgio Cardoso e Cacilda Becker, e “Hedda Gabler”, de Ibsen, em 1964.

O crítico Décio de Almeida Prado, desde a estreia em “À Margem da Vida”, de Tennessee Williams, em 1948, incluiu Nydia “entre as melhores atrizes brasileiras”. Mas havia nela “certa frieza interna” que só foi vencer em 1957, com “Chá e Simpatia”, de Robert Anderson.

Ao longo da carreira, palavras como sensibilidade e delicadeza, dignidade e simplicidade foram usadas para descrever a atriz. No prefácio da autobiografia de Nydia (“Ninguém se Livra de Seus Fantasmas”, Perspectiva, 2002, 448 págs.), o crítico Sábato Magaldi recorda a “atriz sensível”.

Mas lembra também a “mulher resoluta que assumiu sozinha” o Bela Vista e empreendeu uma luta de mais de uma década para mantê-lo como teatro, com vitórias e reveses -e muitas produções- até o governo estadual assumir o espaço e construir em seu lugar o Teatro Sérgio Cardoso.

A partir dos anos 1970, Nydia volta-se para o teatro infantil, cada vez mais como produtora, e para a TV Cultura, como executiva de programação na emissora estatal paulista. A partir de 1992, torna-se também professora do Teatro Escola Célia Helena, ensinando interpretação.

Ao morrer, havia esboçado seu primeiro livro de interpretação, “Você Conhece a Sua Voz”. Mas desde 2002, com a autobiografia, já vinha desenvolvendo um outro lado, de memorialista. Magaldi apontou desde logo a “vocação inquestionável de escritora”, de que ela se orgulhava.

Na conversa com a Folha, lembrou como precisou prestar exame ao chegar, pois sua formação “não valia no Brasil”, e passou com sobra: “Fui a primeira estrangeira que tirou 10 em português, com o professor seríssimo, não dava um sorriso, era temido por todos. Mas eu tinha me preparado”.

Depois de “Ninguém se Livra de Seus Fantasmas”, escreveu “Eu Vivi o TBC” (384 págs., 2007), “Sergio Cardoso: Imagens de Sua Arte” (160 págs., 2004) e outros perfis de atores, como Célia Helena, Raul Cortez e Leonardo Villar, todos publicados pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Nydia deixa uma filha, Sílvia, e dois netos. O velório e o enterro, ainda a serem marcados, acontecem no domingo.

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